25/03/2018 12:24 -03 | Atualizado 27/03/2018 18:33 -03

Patrícia Gonçalves: Ela encontrou no ativismo o apoio para quebrar padrões

A jovem de 25 anos sofreu gordofobia, racismo e homofobia desde sua infância, no interior de SP.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Para Patrícia, nada parecia se encaixar, tudo parecia meio "fora do lugar". Até que ela transformou sua realidade.

Sua infância não foi exatamente como gostaria. Aos sete anos de idade, alisou o cabelo pela primeira vez – prática que só deixaria de fazer muitos anos depois, na vida adulta. Dos nove aos 15 anos, viveu fazendo regimes. Logo no primeiro, ainda criança, perdeu 20 kg. Nos encontros de família tinha uma comida separada e diferentes dos demais e na páscoa comia ovo de chocolate diet. Desde cedo achou que gostava de meninas, mas quando ia à igreja com sua família pedia para Deus mandar um menino para ela. Na escola, no interior de São Paulo, ela e seu irmão eram os únicos negros. Tudo parecia meio fora do lugar.

"Eu não me entendia, não me identificava, não conhecia outras pessoas negras além da minha família. Eu sofri muita gordofobia e racismo. Sempre fui gordinha e era a única preta". Parecia que Patrícia Gonçalves, 25 anos, estava sozinha no mundo e buscava ansiosa uma caixinha em que pudesse entrar, um grupo para se encaixar. Hoje, muita coisa está diferente em sua vida. "Eu me aceito completamente do jeito que eu sou, mas tive muita pressão para eu ser uma pessoa que eu não era."

Eu me aceito completamente do jeito que eu sou, mas tive muita pressão para eu ser uma pessoa que eu não era.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Patrícia se sentia sozinha no mundo e buscava ansiosa uma caixinha em que pudesse entrar.

Patrícia nunca mais fez dieta e com o tempo descobriu que não estava sozinha no mundo. Ela encontrou no ativismo e na militância a força e os pares que tanto procurou na infância e na adolescência. "Tudo que eu conquisto hoje é graças ao ativismo. Se eu não tivesse o ativismo como sustentação, se não tivesse perto de outras mulheres negras, várias vezes eu desabaria."

Não desabou. Saiu de casa para fazer faculdade de jornalismo, ainda no interior, e começou a expandir um pouco seus horizontes. A primeira aceitação foi do cabelo. "Eu usava alisado, o cabelo nem mexia, ridículo. Foi quando comecei a ver vídeos e postagens na internet e no penúltimo ano da faculdade resolvi deixar o cabelo crespo. Minha mãe falou que eu nunca ia conseguir ser jornalista com esse cabelo."

Continuou em seu processo de descobertas e aceitação. Criou um grupo na internet, o Afrolesbianas, contou para as amigas que gostava de meninas. Foi difícil, foi rejeitada, mas, aos poucos, foi se aproximando de pessoas mais parecidas com ela. "Conheci uma das meninas do grupo e ela foi a primeira menina gorda, com um black enorme [com quem fiquei] e isso me mostrou que existem pessoas iguais a mim."

Fui conhecendo mulheres e meu processo de autoestima foi aumentando porque conhecia cada vez mais mulheres parecidas comigo e fui engordando mais e não fui achando que eu era feia.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Mais do que encontrar uma caixa para entrar, é possível viver fora dela.

Enfim começou a encontrar o reconhecimento que sempre buscou. Quando se mudou para São Paulo, isso aumentou ainda mais. "Comecei a ir a grupos e discussões e fui conhecendo essas mulheres e meu processo de autoestima foi aumentando porque conhecia cada vez mais mulheres parecidas comigo e fui engordando mais e não fui achando que eu era feia. Me aceitei como uma menina que gostava de meninas. Depois como uma mulher gorda, depois como uma pessoa não monogâmica. Fui crescendo como mulher."

Ao longo do tempo, sua militância cresceu. Hoje, participa de um coletivo feminista interseccional, foi uma das organizadoras de uma festa que valoriza a cultura negra, Don't touch my hair, e criou um grupo de comunicadoras negras. E faz sua parte no trabalho e com sua família. Conversa, discute, bate de frente. Achou que tinha enfim entrado em sua caixinha. Até que se apaixonou por um cara. Ficou confusa, como se já não pudesse mais estar na caixa que tanto brigou para entrar. Talvez ela só não coubesse lá mesmo.

Não acho que eu preciso me encaixar, mas acho que preciso me posicionar.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Patrícia sabe que o importante é mostrar que mais do que encontrar uma caixa para entrar, é possível viver fora dela.

E percebeu que podia viver assim. "Antes eu queria muito me encaixar em um lugar de ser lésbica e negra, mas percebi que eu nunca ia me encaixar por completo porque todos os grupos têm muitas ramificações. Hoje não acho que eu preciso me encaixar, mas acho que preciso me posicionar". E se posiciona. Agora consciente de que não está sozinha no mundo e de que ela é como outras tantas que estão por aí, Patrícia sabe que o importante é mostrar que mais do que encontrar uma caixa para entrar, é possível viver fora dela. Também há encaixe assim.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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