24/03/2018 02:00 -03 | Atualizado 25/03/2018 17:24 -03

Beth Costa: A mulher que não deixou o diagnóstico de lúpus parar sua vida

A jornalista superou expectativas dos médicos e encarou os desafios de reaprender a viver.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Beth foi diagnosticada há uma década com lúpus, uma doença autoimune que ataca órgãos vitais.

Em 25 de outubro de 2015 ela cruzou a linha de chegada. Foi em último lugar, mas não pareceu – e não se importou muito com isso. Foram 5 km de caminhada, apoiada por um amigo. O objetivo era simplesmente terminar a prova. "No último espaço para beber água eu perguntei se estava em último. Me falaram que sim, mas eu disse que não estava tão mal para quem tinha ficado em uma cadeira de rodas". Quando finalizou a corrida, foi chamada pelos outros competidores para subir no pódio. "Estavam me esperando para subir no pódio. Fiquei lá no alto. Chorei, fiquei emocionada. Teve uma hora que achei que eu não ia terminar, não ia conseguir. Estava acabando o tempo da prova, tinha que liberar a rua, mas terminei. Consegui."

Beth Costa, 29 anos, foi diagnosticada há uma década com lúpus, uma doença autoimune que ataca órgãos vitais. Descobriu quando, aos 19 anos, teve uma convulsão na faculdade. Ficou internada por 100 dias. Deixou o hospital de cadeira de rodas, com parte do corpo paralisado. Precisava de ajuda para fazer todas as suas atividades. "Cheguei a ficar paralisada do pescoço para baixo. No primeiro momento, falaram que eu não ia mais andar, que eu não ia fazer mais nada, ia ficar vegetando."

Cheguei a ficar paralisada do pescoço para baixo. No primeiro momento, falaram que eu não ia mais andar, que eu não ia fazer mais nada, ia ficar vegetando.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Beth fez mais do que simplesmente voltar a andar. Reinventou sua vida.

Ela fez mais do que simplesmente voltar a andar. Aos poucos, retomou os movimentos – e sua vida. Passou da cadeira de rodas para o andador, depois para a bengala e foi conquistando sua independência e sempre encarou as dificuldades com certa leveza e bom humor. Vê tudo como uma fase.

Chegou a engordar 40 kg, mas não se preocupava porque sabia que podia emagrecer depois, se quisesse. Ficou praticamente careca, mas também não se importou porque sempre teve certeza de que o cabelo ia crescer. Perdeu parte da memória da época em que teve a convulsão e foi diagnosticada, mas para ela isso é coisa do passado. "Perdi a memória do que aconteceu entre o final de 2007 e maio de 2008. Esqueci que meu melhor amigo tinha virado meu namorado, que eu tinha me mudado de casa, que eu tinha feito 19 anos. Recuperei uns flashes, fizerem um vídeo para mim com fotos dessa fase para eu tentar lembrar. Mas é memória antiga e nem tento recuperar mais. Perdi, já foi."

Todo mundo falou que eu não ia conseguir, mas fui conseguindo aos poucos. Sempre tive fé em mim mesma, confio no meu taco.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, Beth é auxiliar de biblioteca em uma universidade e quer seguir nessa área.

Vê tudo assim, de forma objetiva. Muito agitada, como ela mesma se define, o grande desafio foi se adaptar ao novo ritmo de vida. E foi só isso que ela aceitou fazer. De resto, não abriu mão de nada. "Me falavam para eu me aposentar porque eu não ia conseguir trabalhar, me disseram para mudar de curso na faculdade porque eu não ia conseguir acompanhar. E eu falei que não. Meus planos eram esses e iam continuar sendo esses. Mudou o jeito que eu vou fazer, mas não vou deixar de fazer."

Não deixou. Reaprendeu tudo: a comer, falar, andar e estudar. "Todo mundo falou que eu não ia conseguir, mas fui conseguindo aos poucos. Sempre tive fé em mim mesma, confio no meu taco." Terminou a faculdade e sempre trabalhou. Hoje é auxiliar de biblioteca em uma universidade e quer seguir nessa área. Tem planos de fazer pós-graduação e recebeu um convite para integrar um time de basquete adaptado. "Não sei se consigo, mas vou tentar. Tentar não tem problema."

O lúpus não me permite fazer algumas coisas e se fico muito estressada ele me dá um 'oi', então eu prefiro deixar ele quieto e ir fazendo as coisas.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Muito agitada, como ela mesma se define, o grande desafio foi se adaptar ao novo ritmo de vida.

Nenhum problema. E Beth já sabe muito bem como lidar com os desafios e novidades. "O lúpus não me permite fazer algumas coisas e se fico muito estressada ele me dá um 'oi', então eu prefiro deixar ele quieto e ir fazendo as coisas. Todo dia eu tento vencer um limite meu. Minha determinação é tentar me vencer sempre. Não é vencer os outros, é me vencer."

Beth sabe que não importa o lugar da chegada para ganhar. Na vida, ela sempre está no alto do pódio.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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