ENTRETENIMENTO
23/03/2018 21:24 -03 | Atualizado 23/03/2018 21:24 -03

As influenciadoras do Instagram estão começando a se parecer todas iguais. Aqui está o porquê

Entre maquiagem e Facetune, estamos criando uma expressão de beleza homogeneizada.

yuriyzhuravov via Getty Images

"Por que ser você quando pode ser eu?"

Essa questão foi parte de uma campanha publicitária social dos anos 90 criada pela Concerned Children's Advertisers and Health Canada. No clip, duas garotas jovens estão andando por uma "butique" que oferece produtos e procedimentos que ajudam os consumidores a mudarem suas personalidades e aparências.

"Não se contente em ser apenas você mesma", uma voz feminina fala enquanto uma das garotas é examinada por uma maquiadora que cobre seus lábios com pigmento vermelho. "Por que ser você quando pode ser eu?", ela fala.

A campanha publicitária parece mais relevante agora do que nunca, com essa pergunta representando exatamente o tipo de atitude que mídias sociais vem perpetuando: Por que ser você quando pode ser como todas as pessoas lindas, populares, como Kylie Jenner?

Influenciadoras da mídia social estão parecendo clones de beleza hoje em dia. Você conhece o look: lábios salientes, sobrancelhas arqueadas, talvez um pouco de delineador habilmente aplicado, finalizado com uma boa dose de iluminador e blush. Com alguns pincéis de maquiagem, uma paleta de contorno e um pouco de cor para os lábios, você pode estar bem no caminho de ficar parecida com todas as outras.

Mas, por que ficar parecida com todas as outras é algo que almejamos? Existem vários fatores, incluindo um possível desejo de se encaixar e uma tendência em imitar celebridades e influenciadoras.

Outros já haviam escrito sobre o que apelidaram de "maquiagem do Instagram" e "rosto do Instagram" anteriormente, mas a tendência ainda está forte. HuffPost conversou com Rachel Weingarten, historiadora da beleza, Renne Engeln, professora de psicologia e autora do livro Beauty Sick: How the Cultural Obsession With Appearance Hurts Girls and Women (Loucuras da Beleza: Como a Obsessão Cultural por Aparência Atinge Garotas e Mulheres), e com Dr.Michael Brustein, um psicólogo clínico, para obter algumas respostas.

Então, como chegamos aqui?

Antigamente, antes das mídias sociais, como explicou Weingarten para o HuffPost, nossos costumes de beleza eram definidos por fatores como geografia e etnia. Por exemplo, ela disse, se você vivesse em uma certa parte da Ásia, provavelmente usaria clareadores de pele, se tivesse vivido na França nos anos de 1700, provavelmente aplicaria pó nas suas perucas.

"Era meio que ligado a um momento ou lugar em particular e talvez a sua religião e crenças," ela disse, adicionando que por volta do fim dos anos de 1800 e parte dos anos de 1900, as revistas foram abrindo os olhos das pessoas para novidades.

"Mas o momento em que as coisas realmente começaram a afetar a beleza foi provavelmente os anos 40 e 50, quando celebridades começaram a aparecer em revistas como ideais de beleza," ela disse. "Aí então todos começaram a copiar as celebridades."

Graças a internet, disse Weingarten, as pessoas não precisam mais viajar para ver as tendências da beleza do mundo todo, nem precisam esperar que cheguem até nós. Com a internet, aprendemos sobre as tendências que estão populares em outras partes do mundo mais rápido do que jamais teríamos aprendido no passado, e podemos participar delas. (Apenas pense sobre a beleza Coreana e como rapidamente explodiu nos EUA. Você pode até comprar produtos especializados nas lojas CVS e Walgreens.)

"A outra coisa que aconteceu foi que as pessoas não são mais definidas claramente por sua etnia, raça ou até mesmo por seu sexo. "Weingartem disse. "Então há este estranho conformismo de que se você fosse asiático ou caucasiano, isso limitaria sua beleza. Se você tivesse cabelo afro-americano, teria que ser de um determinado jeito. Você não precisa mais fazer isso."

"O que temos agora é um tipo de versão agressiva da aparência que poderia ter a beleza multicultural mais recente,"ela adicionou, explicando os looks de maquiagem que vemos no Instagram – novamente, são os olhos puxadinhos de gato, lábios cheios na cor matte, e sobrancelhas bem desenhadas – poderia funcionar tecnicamente em qualquer tom de pele ou nacionalidade. Nesse sentido, o look é acessível, o que provavelmente faz tanta gente online se identificar com ele.

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As pessoas querem se encaixar

E falando em identificar, as pessoas querem se encaixar. Uma maneira de fazer isso, especialmente online, é se moldar nas figuras mais populares da mídia social.

Celebridades, especialmente aquelas como Kylie Jenner que possui um número massivo de seguidas na sua conta cheia de selfies do Instagram, "chegam mesmo a representar as tendências da beleza," Engeln disse.Brustain concordou, observando que celebridades são um guia enorme dos ideais de beleza da sociedade, e na tentativa de se encaixar nesses ideais, muitas pessoas imitam as celebridades.

Falando de maneira geral, celebridades e modelos do Instagram são vistas como "o que é considerado atraente," disse Bruistein, adicionando que as pessoas querem se encaixar e viver de acordo com esses ideais para ajudar a fazer com que se sintam bem.

"Elas estão moldando isso de acordo com celebridade, e acredito, realmente, que seja esse o propulsor," ele disse. "Se eu tiver isso, me sinto bem, me sinto digno, me sinto valorizado.' E então elas publicam isso no Instagram sendo reforçado conforme vai passando pelas mídias sociais. Faz com que as pessoas se sintam confiantes."

"Seres humanos são criaturas sociais por natureza, e temos um poderoso anseio por aceitação," Engeln adicionou.

No momento, tudo é sobre as Kardashians e o que alguns chamam de "O efeito Kardashian" – exemplo: "a habilidade das Kardashians em influenciar hábitos dos consumidores." Veja a Kylie, amplamente conhecida por seus lábios excessivamente carnudos. As pessoas queriam tanto ter os lábios como os da moça, agora com 20 anos, que estavam dispostas a se machucarem fisicamente para conseguir o look, mesmo que fosse temporário. Sua influência sobre as tendências da beleza ajudou Kylie a criar um império bilionário.

"A esta altura, o look de [Kylie] se tornou símbolo de beleza por alguma razão. É mais abrangente, digamos, que o look loiro de olhos azuis do início dos anos 70 ou 50. As pessoas acreditam que isso seja beleza acessível," Weingarten disse.

Obviamente filtros e aplicativos de edição também fazem parte dessa tendência. Além de estarem usando o mesmo estilo, as pessoas também estão editando suas fotos com as mesmas ferramentas. Por exemplo, um aplicativo como o Facetune permite aos usuários deixar a pele com uma aparência mais lisa e/ou deixar os olhos maiores e mais brilhantes.

Então temos o aspecto da cirurgia estética. Mesmo que as pessoas não falem sobre possíveis procedimentos que tenham feito, há uma boa possibilidade de estarem melhorando o visual com agulhas e preenchimentos. Sabemos que filtros do Snapchat e Instagram estão motivando visitas ao cirurgião plástico, mas também podemos dizer que as imagens aparentemente "sem filtro" de indivíduos "Impecáveis" surtem um efeito parecido.

O que tudo isso significa?

Para Weingarten, Brustain and Engeln, o surgimento dessa expressão de beleza homogeneizada pode ser problemática.

Por um lado, algumas pessoas podem achar que adaptar-se a um padrão de beleza pode ajudar na confiança e auto-estima. Como Brustein Explicou, "se encaixar dá as pessoas um senso de coesão. Elas não querem ser vistas como o deslocado."

Porém, essa injeção de confiança, provavelmente não vai durar muito, especialmente se você ficar cada vez mais obcecado em mostrar nas mídias sociais uma versão alterada de si próprio.

"A longo prazo ficar preocupado em se encaixar, pode provocar emoções negativas ou angústia pois a sua identidade está amarrada tentando alcançar essas expectativas impostas por uma norma social criada pela mídia ou por uma celebridade que impregnamos com poder," disse Brustein.

Deixando claro que nem todos os que participam das atuais tendências do Instagram afundarão em um buraco negro de insatisfação das suas próprias vidas. Se trata de separar as coisas, não permitir que seu "eu" das mídias sociais defina quem você é, disse Bruistein.

Weingarten acha a tendência das pessoas perecerem iguais "muito perturbadora," e na sua opinião, cala "a experiência que as adolecentes costumavam ter."

"A pressão para ter uma certa aparência começa mais cedo do que nunca. As garotas não podem mais tentar e errar. Isso é triste."

Como foi colocado por Engeln, o fato é que "nós não somos iguais."

"Nem todas nós somos jovens ou temos lábios carnudos e pele lisa, este tipo de uniformidade é na verdade uma negação das características físicas humanas," ela disse. "Acho que isso é feio. Esse tipo de negação machuca as pessoas. Faz com que se sintam apagadas, e para mulheres em particular, faz com que passem sabe Deus quanto tempo tentando e tentando alcançar aquele visual que pode ser geneticamente impossível de ser alcançado."

Também é importante lembrar que nem todos no Instagram ou mídias sociais em geral estão perpetuando esse padrão homogeneizado de beleza.

"Uma das coisas boas das mídias sociais é a possibilidade de procurar conteúdos que representem maior diversidade. Então não precisa fazer parte de um conteúdo onde todos os rostos são iguais. Você pode optar por sair dele," disse Engeln. "Acho que essa é a promessa. Mídias sociais estão democratizando em alguns aspectos. Não estão simplesmente permitindo que revistas de moda determinem o que precisamos saber. Acho isso muito bom."

E também, não há necessidade de apontar o dedo para os que participam ou acham consolo nas tendências de beleza atuais. Não há nada de errado em querer se encaixar, mas, como explicou Engeln, ver tantas imagens de pessoas perfeitas, fora do padrão da vida real, pode causar alguns danos psicológicos.

'Não é apenas [que] você vê aquela foto perfeita de alguém e se sente mal," ela disse. "Até para a própria pessoa que postou a foto – elas tem que lidar com a diferença entre [o que está na] foto que fizeram de seu próprio rosto e o que enxergam no espelho quando acordam pela manhã."

"A maioria de nós não acordamos perfeitas," ela disse.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.