22/03/2018 12:06 -03 | Atualizado 22/03/2018 16:41 -03

Márcia Monteiro: Da bebê desnutrida à dona do restaurante que faz a diferença na vida dos funcionários

Chef há apenas 5 anos, ela contratou pessoas marginalizadas para tocar o estabelecimento.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Hoje dona de restaurante, Márcia Monteiro se tornou chef há apenas 5 anos.

Um pedaço de bolo de chocolate, levemente aquecido, com uma calda também de chocolate e uma farofa de castanha do Pará por cima. Para acompanhar, um café com uma bolachinha de castanha, receita de família. Antes disso, foi um pedaço de torta de alho poró, um teste que estava sendo feito na cozinha. Uma experiência maravilhosa.

A chef, orgulhosa, observa com um sorriso largo no rosto. Porque é disso que Márcia Monteiro, 53 anos, gosta. Cozinhar e servir as pessoas, quase como um gesto de devoção. "Hoje me sinto realizada. É um trabalho puxado, mas é tão bom, tão prazeroso. É tão bom servir e saber que as pessoas gostam da sua comida."

Essa realização veio aos 48 anos, quando Márcia resolveu ir atrás do seu sonho de virar chefe de cozinha. Levou tempo para chegar lá. Aos 20 saiu de Belém, sua terra natal, para se aventurar em São Paulo. "Saí de Belém para sair debaixo da asa da minha mãe que era super, hiper, megaprotetora e eu queria crescer, queria voar."

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Quando bebê, Márcia sofreu com desnutrição após ter sido abandonada pela mãe biológica.

Eu fui abandonada bebê. Minha mãe biológica fugiu com um caminhoneiro.

Adotada aos 3 meses de idade, a mãe de Márcia já tinha 56 anos quando ela entrou para a família. "Eu fui abandonada bebê. Minha mãe biológica fugiu com um caminhoneiro. Fui encontrada depois de 2 dias pela minha tia biológica." A tia era manicure de uma jovem que se tornaria sua irmã adotiva. Assim que viu a bebê, o pai decidiu que ia ficar com ela. Márcia foi internada e ficou 6 meses no hospital porque estava com desnutrição. Depois, foi para sua nova casa, sempre muito rodeada de amor.

Deixar esse ninho não foi fácil. "Foi uma barra para minha mãe aceitar. Durante um ano ela mandava uma carta por dia para mim pedindo para eu voltar."

Para Márcia, também não foi nada fácil. Quis voltar ao Pará, mas segurou a onda. Conseguiu um emprego em um sindicato para dobrar envelopes, dividiu quarto com 8 meninas e mais para frente conseguiu um bom emprego em uma multinacional.

Formou-se na faculdade em administração e fez carreira. No meio disso tudo, cansada de comer apenas miojo com ovo cozido – seu único feito na cozinha até então –, começou a se arriscar no fogão usando a memória afetiva dos pratos que sua mãe fazia e tudo parecia muito bem encaminhado. No entanto, ainda não estava totalmente feliz. "Decidi que não ia mais fazer o que não gostava e resolvi ir atrás do meu sonho de ser chefe de cozinha."

Entrou em um grupo do Consulado da Mulher e fazia salgados para vender. Depois, conseguiu uma oportunidade de atuar em uma lanchonete dentro de uma fábrica, também amparada pelo consulado, até que foi estudar gastronomia para aprender as técnicas que ainda não tinha.

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Márcia trocou o miojo com ovo por receitas que fazia a partir da memória afetiva da família paraense.

Decidi que queria dar oportunidade. Me coloco no lugar delas porque desde que eu cheguei em São Paulo sempre recebi ajuda e me senti acolhida. Quando você não tem ajuda, você desiste.

Em 2015, recebeu o convite de Cíntia Antunes, uma amiga de longa data, para abrir um restaurante e em 2016 nasceu o Fio de Azeite, no Cambuci, na capital paulista. O lugar é especial porque não serve apenas os clientes. "A única condição que eu coloquei é que eu ia dar oportunidade para os menos favorecidos e ajudar porque eu fui ajudada demais."

Para a cozinha, Márcia contratou uma haitiana refugiada que não falava uma palavra em português, uma analfabeta que não conseguia emprego em nenhum lugar e uma mulher que estava há um ano sem receber salário em um mercadinho do bairro. "Decidi que queria dar oportunidade. Me coloco no lugar delas porque desde que eu cheguei em São Paulo sempre recebi ajuda e me senti acolhida. Quando você não tem ajuda, você desiste."

Empregou também um rapaz que "poderia ter se perdido no caminho" e hoje é seu melhor garçom e acolheu a namorada, Ana Paula, sua companheira há mais de um ano. "Ela também se encontrou nessa profissão e me ajuda muito aqui."

Márcia conta com felicidade e muito orgulho sobre o desenvolvimento de cada um de seus funcionários e o quanto todos cresceram ao longo desse tempo de trabalho.

Realmente acolher e ajudar são questões essenciais em sua vida. Afinal, foi isso que a salvou no passado e foi isso que possibilitou que seu sonho virasse realidade — o que, talvez, não seja nada mais do que uma forma de retribuir tudo o que recebeu.

Aos 3 meses de idade, ela pode ter quase morrido de fome. Mas hoje, sua grande missão é alimentar os outros.

E pode ter certeza de que, se depender de Márcia, nunca faltará lugar à mesa.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Márcia tem uma postura de empreendedora inclusiva ao dar oportunidades a pessoas discriminadas.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem:Caroline Lima

Edição:Diego Iraheta

Figurino:C&A

Realização:RYOT Studio Brasil

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