21/03/2018 06:30 -03 | Atualizado 22/03/2018 11:50 -03

Clélia Paes: Ela superou o papel de viúva e virou dona do negócio da família

Objetivo de sustentar sozinha suas filhas após perder marido lhe deu força para se reerguer.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela conseguiu superar dificuldades, pagou a faculdade para as duas filhas, viu e mostrou que era capaz de comandar uma empresa.

Ela tem uma postura firme, mas sempre está com um sorriso discreto nos lábios. Um misto de seriedade e força com acolhimento. Porque foi assim que ela precisou ser por um bom período de sua vida. Em 2006, logo após a morte do marido, Clélia Paes, 60 anos, se viu sozinha com duas filhas adolescentes, sem emprego e com uma empresa aberta em uma área que nunca foi a sua. Acadêmica, sempre trabalhou em escolas e deixou o emprego para cuidar do marido quando ele ficou doente. Teve que descobrir ali toda a sua força. "Assumi por necessidade. Ele faleceu na segunda-feira e na terça a empresa tinha que estar aberta e eu tive que ir. Em luto, chorando, mas no trabalho."

Para ela, era importante não depender de ninguém nesse momento. Contou com bastante ajuda, mas queria ser independente, sustentar a família e garantir que as duas filhas estudassem. Assim, encarou o desafio de tomar a frente de uma empresa que não tinha nada a ver com sua formação. Não foi fácil. "Eu era vista como 'a viúva'. Não era a dona da empresa. Acho que pensavam que eu ia fechar em seis meses."

Eu era vista como a viúva. Eu não era 'a dona da empresa'. Pensavam que em 6 meses eu ia acabar com o negócio que meu marido deixou.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Para Clélia, não há uma fórmula para fazer tudo dar certo, mas ela acredita em motivações e objetivos.

Mas não fechou. Pelo contrário. Aumentou – e muito – o faturamento da empresa, profissionalizou os negócios, montou equipe. "A empresa cresceu bem. Me surpreendi, porque sempre me dei bem na área acadêmica, mas nunca me vi com expertise na área comercial. Não era minha praia, não era meu mundo."

Ela conta que não há uma fórmula para fazer tudo dar certo, mas que acredita em motivações e objetivos. "Acho que o que me impulsionou foi a garra de trabalhar, ter um horizonte, uma independência, cuidar das minhas filhas. Tudo que aconteceu foi um trauma para mim. Meu marido faleceu segurando minha mão. Foi bonito, especial, eu do lado dele, mas foi custoso pra mim. Mas depois veio a superação."

Na verdade veio mais do que isso. Ela conseguiu superar essa dificuldade inicial, pagou faculdade para as duas filhas, viu e mostrou que era capaz de comandar uma empresa, e foi correr atrás de um sonho antigo, de sua juventude. Quando prestou vestibular, sua ideia era fazer psicologia. E chegou a passar no curso. Clélia é a caçula de 12 irmãos e perdeu o pai ainda criança. Assim, sua mãe sempre batalhou sozinha para criar os filhos e não tinha condições de pagar o curso. Clélia foi, então, fazer letras e se dedicou a área de pedagogia, que sempre gostou. No entanto, nunca esqueceu sua vontade de ser psicanalista.

Tudo que aconteceu foi um trauma para mim. Meu marido faleceu segurando minha mão. Foi bonito, especial, eu do lado dele, mas foi custoso pra mim. Mas depois veio a superação.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Há cinco anos Clélia conseguiu ir atrás do que era seu e montou o consultório.

Assim, reconstruiu sua vida. Casou de novo, fez pós-graduação e com o apoio da família – as duas filhas e o atual marido atuam na empresa – pode abrir seu consultório de psicanálise. "Acho que tem que seguir o seu sonho. Isso faz com que você passe por qualquer obstáculo. Quando você sabe o que você quer, você consegue. Ou quando tem uma necessidade como eu tinha de educar minhas filhas e manter minha casa. Precisei esperar, mas tudo bem. Uma hora pude ir atrás porque a empresa não era o meu esse sonho, era do meu marido."

Se você não sabe o que você quer, descubra. É fundamental porque você arruma força para qualquer coisa.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Mesmo com todos os contratempos, ela nunca esqueceu sua vontade de ser psicanalista.

Há cinco anos conseguiu ir atrás do que era seu e montou o consultório. Hoje, distanciou-se um pouco dos negócios da empresa. Continua presente e com a palavra final, mas quer, cada vez mais, deixar o comando nas mãos das filhas. Porque agora está na hora de cuidar do que ela quer. "Se você não sabe o que você quer, descubra. É fundamental porque você arruma força para qualquer coisa. Se não sabe, faça terapia para saber." Ela pode até indicar um consultório para isso.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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