20/03/2018 10:55 -03 | Atualizado 20/03/2018 10:55 -03

Mirelle Martins, a performer que escolheu viver sem endereço em nome de sua arte

A publicitária largou a estabilidade de emprego para buscar uma vida com propósito.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Mirelle Martins saiu do script tradicional e escolheu viver de sua arte e dança.

Esse ato da vida não teve ensaio. Ela fez faculdade, tinha emprego formal, benefícios, apartamento, livros na estante. Mas não sentia que estava no lugar certo. Talvez porque estivesse em um lugar só. E sua criatividade queria chegar mais longe.

Deu o passo mais importante e intenso de sua vida. Hoje, é tudo diferente. Não tem endereço fixo, doou livros, discos, objetos. Vive com uma mala e poucas roupas. Leva consigo uns cristais, uma imagem da São Jorge e dois livros. E só. E tudo isso.

É um exercício de encontrar a casa dentro de mim mesma. Como estou fazendo algo em que acredito, ser nômade não atrapalha porque tem um propósito.

Mirelle Martins, 33 anos, performer, achou seu propósito na dança.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Mirelle Martins começou a conceber o espetáculo "Black Velvet" na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro, em São Paulo.

Em 2016, estreou o espetáculo Black Velvet e já viajou diversos países com ele. Ganhou até prêmio internacional e está com a agenda cheia, com shows previstos até para 2019.

Mas levou um tempo para chegar nesse lugar. Antes disso fez carreira na publicidade. Entrou na área porque queria trabalhar com algo que tivesse relação com criatividade. "Eu construí a carreira que eu queria, trabalhei em grandes agências, fui coordenadora de criação, tinha um reconhecimento profissional, mas sempre via que estava insatisfeita com a minha vida. Parecia que eu estava indo bem, mas no lugar errado."

Começou a se dedicar a algumas experiências artísticas, mas sempre como hobbie. Até que um dia quebrou o joelho na agência em que trabalhava. "Caí na escada, eram 2 horas da manhã, eu estava sozinha e quebrei o joelho esquerdo", conta. Foi na convalescença que teve o estalo. "Durante o processo de recuperação, eu percebi que não estava prestando atenção no meu corpo. Aí decidi que quando me recuperasse eu ia dançar. Queria que meu corpo me desse prazer."

Foi para Nova York fazer um curso e lá as coisas começaram a ficar mais claras. Mirelle conheceu seu professor de dança, Shamel Pitts, que se tornaria seu grande parceiro de trabalho e com quem criou o Black Velvet.

Falavam que eu ia me dar mal, não ia ter como me sustentar, mas era meu desejo interno. Não deixei me abalar.

Quando voltou para o Brasil, foi demitida. E isso só fez Mirelle ficar cada vez mais perto de sua real vontade e vocação. Ainda ficou um tempo se dividindo entre trabalhos na publicidade e a arte, até que fez a transição de vez.

Ao pedir demissão do emprego em que estava, foi se dedicar ao tipo de criação que realmente queria. "Foi meio complicado, não era algo que as pessoas aceitavam. Falavam que eu ia me dar mal, não ia ter como me sustentar. Mas era meu desejo interno. Eu não deixei me abalar."

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Mirelle Martins largou a carreira de publicitária para mergulhar em uma vida com propósito.

É difícil viver de arte, mas sempre falo que não fiz essa escolha porque era fácil, mas porque era possível. E sendo possível, você dá um jeito.

Mirelle usou todo o dinheiro que tinha para poder produzir Black Velvet. Sabia que era um investimento e que teria que ter paciência para ver retorno disso. "É difícil viver de arte, mas sempre falo que não fiz essa escolha porque era fácil, mas porque era possível. E sendo possível, você dá um jeito." Realmente era possível. A turnê internacional do espetáculo deixou isso bem claro e trouxe as certezas de suas escolhas.

Pensou que tudo podia dar errado, mas não esmoreceu. "Não sei se é coragem. Para mim é básico, é existencialismo. Falam como coragem porque toda a sociedade te fala para ser estável, para criar raízes e para não mudar e acho que a vida não é assim. A vida é mudança, é movimento. Não existe nada que é estável, nem as pedras ficam sempre do mesmo jeito. Não acho que é coragem, acho que é reconhecer que a vida precisa desses passos."

Hoje, ela diz que sente uma tranquilidade diária de saber que está fazendo o que deveria fazer de fato. Mas nem por isso acredita que as mudanças acabaram. "Sempre me deixo aberta e se tiver outro desejo de mudança eu vou abraçar também do mesmo jeito. Não estou ancorada agora daqui até o fim da vida."

Não sabe ainda qual vai ser o próximo passo da vida.

Mas já está no palco.

Pronta para o próximo movimento.

Falam de coragem porque a sociedade te fala para ser estável, para criar raízes e para não mudar, e acho que a vida não é assim. A vida é mudança, é movimento.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Mirelle Martins enaltece o valor do movimento, da mudança na existência.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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