POLÍTICA
19/03/2018 15:16 -03 | Atualizado 20/03/2018 13:30 -03

Quem é Flávio Rocha, o candidato a presidente do MBL e dono da Riachuelo

Campanha presidencial do empresário em 1994 foi interrompida após acusação de uso de recursos ilegais.

Diretor-executivo da Riachuelo, Flávio Rocha é o candidato do MBL (Movimento Brasil Livre) à Presidência da República.
Studio Fernanda Calfat via Getty Images
Diretor-executivo da Riachuelo, Flávio Rocha é o candidato do MBL (Movimento Brasil Livre) à Presidência da República.

Liberal na economia e conservador nos costumes. Esse é o mote de Flávio Rocha, dono da Riachuelo e candidato do MBL (Movimento Brasil Livre) à Presidência da República. O apoio ao empresário na corrida eleitoral foi declarado pelo coordenador do MBL, Kim Kataguiri, nesta segunda-feira (19).

"Tenho orgulho de afirmar: Flávio Rocha, único presidenciável que conjuga o combate ao politicamente correto com responsabilidade fiscal e propostas sérias para a segurança pública, é o candidato do Movimento Brasil Livre à Presidência da República", escreveu Kataguiri em artigo na Folha de S. Paulo.

Rocha é diretor executivo da rede de lojas de departamento que pertence ao Grupo Guararapes. Sua fortuna é avaliada em US$ 1,3 bilhão, o que lhe rendeu o 39º lugar entre os bilionários brasileiros na lista da revista Forbes.

Apesar do entusiasmo do movimento e de Rocha ter sido procurado por lideranças partidárias, a candidatura ainda é uma incógnita. Ele tem até 7 de abril para se filiar a uma legenda. Em entrevista à Exame em fevereiro, o empresário disse que a prioridade era o movimento Brasil 200, fundado por ele e por outros executivos, donos de empresas como Habib's, Raia Drogasil e Polishop, dentre outras.

Acho que está muito tarde para ser candidato. De fato eu não tenho nem partido. Não tenho voto. Está tarde para construir a densidade eleitoral. Eu tenho a impressão que a gente consegue influir e ser muito mais decisivo, realmente contribuir, para a troca de ciclo, para a mudança no país, que está seriamente ameaçada, com o movimento Brasil 200.Flavio Rocha em entrevista à Exame, em fevereiro

Porta-voz da agenda liberal, o empresário defende a redução do Estado, com menos impostos, "menos privilégios, menos aparelhamento e menos doutrinação", segundo seus discursos. Em manifesto divulgado em Nova York em janeiro, ao lançar o Brasil 200, Rocha defendeu que os empresários tenham uma atuação mais forte na política. O movimento pretende apresentar propostas a candidatos.

"Há décadas que o Brasil optou por odiar os empreendedores, os investidores, os inovadores e os resultados falam por si. Agora é hora de mostrar que é possível um outro caminho", diz o texto.

O defensor do livre mercado afirma que esse modelo é a "melhor arma contra a pobreza" e critica os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. "Não é possível que o líder das pesquisas no Brasil para presidente hoje seja não apenas o maior responsável pela crise como um criminoso condenado a 9 anos e meio de prisão em apenas um de inúmeros processos que responde", afirma Rocha, no manifesto.

Entre as propostas do movimento, estão "menos impostos e regulações" para empresários, "menos paternalismo" e uma crítica à "excessiva judicialização no País, fruto de uma ideologização radical das relações sociais", sendo o texto. A Riachuelo, contudo, tomou empréstimos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) desde 2009 que somam cerca de R$ 1,3 bilhão.

A crítica à Justiça trabalhista ficou nítida quando o empresário comemorou a decisão judicial que condenou um homem a pagar R$ 750 mil ao antigo empregador. "É muito educativo esse episódio. O único direito que o trabalhador, o mau trabalhador, perdeu foi o de mentir, porque era o que acontecia, principalmente da parte do advogado, que puxava um cardápio e colocava mais 30 demandas mentirosas [na ação trabalhista]", afirmou à Folha.

No âmbito político, o Brasil 200 defende mandato presidencial de 5 anos, sem reeleição, e voto eletrônico com comprovante em papel. O movimento incluiu ainda questões morais, no ítem "proteção às crianças", que propõe "escola sem partido e sem erotização precoce, respeitando o senso comum e as famílias".

Reprodução/Youtube
Movimento Brasil 200, encabeçado por Flávio Rocha, defende liberalismo econômico e propostas como Escola sem Partido.

Flávio Rocha e o conservadorismo nos costumes

Defensor do que chama conservadorismo nos costumes, Flávio Rocha fez papel de mestre de cerimônias em culto da Sara Nossa Terra no Distrito Federal, em janeiro, ao chamar ao palco o bispo Robson Rodovalho, liderança da igreja evangélica.

Foi esse evento que contou com a participação de outro presidenciável, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, classificado por Rocha como "virada de página" da economia e uma "luz no fim do túnel", na ocasião.

Com a bandeira da "defesa da família", o dono da Riachuelo se alinha ao pensamento da bancada evangélica, contrária à descriminalização do aborto e à promoção de direitos LGBT, como o casamento homoafetivo. Rocha chegou a criticar o presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB) por não assumir a bandeira da revisão do estatuto do desarmamento, da redução da maioridade penal e contra o aborto.

As posições do empresário chegaram a provocar um boicote à loja de departamento no início do ano. Rocha rebate e diz que a Riachuelo emprega grande número de mulheres e de transexuais e permite o uso do nome social no crachá.

Flávio Rocha e o apoio do MBL

A aproximação de Flávio Rocha com o MBL surgiu em 2015, em meio às manifestações a favor do impeachment de Dilma Rousseff. Ele foi procurado pelo grupo por ser um dos primeiros empresários a apoiar a saída da petista.

De acordo com Kataguiri, tanto o dono da Riachuelo quanto o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) se destacam nas posições sobre a segurança pública, problema central no País, mas o empresário tem propostas mais consolidadas. O líder do MBL afirma que o plano de Rocha inclui mudanças nas leis penais e processuais penais, privatização de presídios e ciclo completo de polícia.

Ueslei Marcelino / Reuters
MBL descarta apoio à candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) à Presidência e defende Flávio Rocha, dono da Riachuelo.

A comparação entre os dois presidenciáveis foi feita também pelo próprio Rocha. Em fevereiro, o empresário disse que Bolsonaro era "o único que preenche a demanda por ordem. É o anti-bagunça". Mas ponderou que o Brasil 200 não apoia o discurso de "bandido bom é bandido morto".

Ao comentar a morte da vereadora Marielle Franco (PSol), o empresário criticou a inclusão de questões como machismo, racismo e desigualdade social no debate.

Campanha à Presidência de Rocha interrompida

Não é a primeira vez que o dono da Riachuelo sonha em chegar ao Palácio do Planalto. Em 1994, sua campanha foi interrompida após acusações de financiamento indevido na corrida eleitoral. Em agosto daquele ano, surgiram denúncias de um mercado paralelo de venda ilegal de bônus eleitorais a fim de legalizar recursos de empresas não contabilizados oficialmente.

A campanha era financiada pelas empresas da família. Na época, aos 36 anos, Rocha recebia mesada do pai, o empresário Nevaldo Rocha. O PL (hoje PR), seu partido na ocasião, acabou apoiando a candidatura vitoriosa de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Antes, Rocha foi deputado federal pelo Rio Grande do Norte por 2 mandatos. Foi eleito pela 1ª vez em 1986, pelo PFL. Após assumir o mandato, mudou para o PL, partido ao qual foi reeleito, em 1990.

Em 1987, durante o processo de elaboração da Constituição de 1998, o parlamentar votou contra o rompimento de relações diplomáticas com países que praticassem políticas de discriminação racial, a pena de morte, a limitação do direito de propriedade, o turno ininterrupto de 6 horas, a jornada semanal de 40 horas, a demissão sem justa causa e a proibição do comércio de sangue, de acordo com sua biografia publicada pela FGV (Fundação Getulio Vargas).

O empresário foi a favor do mandado de segurança coletivo, da pluralidade sindical, do presidencialismo, do voto facultativo aos 16 anos, do mandato de 5 anos para o então presidente José Sarney, da anistia aos micro e pequenos empresários e da legalização do jogo do bicho.

No segundo mandato, Rocha apresentou uma emenda constitucional que criava o imposto único, sua bandeira na campanha presidencial. Mais uma semelhança com Bolsonaro. O texto na década de 1990 foi feito com assessoria do economista Marcos Cintra, o mesmo que tem conversado atualmente com o PSL, partido do deputado federal e entusiasta da proposta.

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