19/03/2018 11:51 -03 | Atualizado 19/03/2018 11:51 -03

Bianca Santana, a pesquisadora que busca romper o silenciamento das mulheres negras

"Parece legal enfeitar a sala dos professores, mas não sou um móvel. Eu trago uma perspectiva."

Bianca Santana é pesquisadora e escritora e inspira centenas de meninas e mulheres negras.
Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Bianca Santana é pesquisadora e escritora e inspira centenas de meninas e mulheres negras.

Era uma semana de luto. Alguns dias após o assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, Bianca Santana, 33 anos, pesquisadora e escritora, recebeu a reportagem em sua casa, em São Paulo.

Disse que desmarcou todos os compromissos que tinha, mas queria dar a entrevista. "Eu estou de luto. Mas estou falando hoje porque se trata de não silenciamento." É o que ela percebeu. Já há algum tempo, na verdade.

"Estamos acostumadas com uma estratégia de silenciamento para que as nossas pautas deem certo. Já fiz muito isso, mas não quero mais. O silenciamento não dá mais, nem como estratégia. Pode ter nos ajudado a chegar até aqui, mas agora não dá."

Parte desse silêncio Bianca começou a quebrar com a escrita. Seu livro, Quando me descobri negra (SESI-SP), de 2015, nasceu de textos que ela publicava na internet sobre questões pessoais, devaneios, a morte do pai — que nunca havia contado nem mesmo para os melhores amigos —, a existência de um irmão — que escondeu até do marido.

Eram memórias e vivências de mulher negra de periferia. Coisas que ela achava que não tinham importância, ou que tinha vergonha de dividir com os outros.

Percebi que meus pensamentos e sentimentos não eram histórias só minhas, eram histórias de muitas de nós.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Em luto, Bianca Santana lamenta a morte de Marielle Franco, uma mulher negra como ela.

Mas logo ela descobriu que não estava sozinha nesses pensamentos. "A gente escreve o que sente, mas muitas vezes não identificamos essa escrita como algo que importa para outras pessoas. Percebi que fazia sentido para outras mulheres, que não eram histórias só minhas, eram histórias de muitas de nós."

Como foi com a morte de Marielle. "Chorei a morte da Marielle, chorei esse não descanso. A sensação é de que nós [população negra] não podemos descansar andando na rua, chegando em casa. É o tempo todo em estado de alerta. E como você interage com o mundo desse jeito? Parece que você tem que se proteger para conseguir fazer as coisas."

Parece legal eu enfeitar a sala dos professores, mas eu não sou um móvel. Eu trago uma perspectiva, eu não quero ficar aqui decorando o ambiente para parecer mais diverso.

Para Bianca, os estudos talvez tenham sido a grande proteção em seu caminho. Virou professora universitária, pesquisadora e escritora. Hoje faz doutorado na USP.

Mas ocupar esses lugares considerados privilegiados não é simples. "Minha sensação é de que sou exótica. Falam: 'olha como ela se veste'. Parece legal eu enfeitar a sala dos professores, mas eu não sou um móvel. Eu trago uma perspectiva, eu não quero ficar aqui decorando o ambiente para parecer mais diverso."

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Como hábitat é na academia, Bianca não quer ornar o ambiente universitário, mas sim ser protagonista em pesquisas.

Ocupar esses lugares que historicamente não foram destinados a mulheres negras é uma luta diária. "Eu saí de onde eu vim. Minha mãe ainda mora na periferia e toda semana eu estou lá, mas eu não sou mais parte daquilo. E eu também não sou parte aqui, no prédio da classe média. Sou de onde então? É como se eu não tivesse lugar. E acho que vai ser assim porque temos que construir esse lugar para todas nós."

Bianca briga para ajudar nessa construção. E sabe que inspira muita gente. "É só por isso que estou [nesses lugares]. Recebo tantos retornos de meninas e mulheres mais velhas que me alimentam... É por elas. É também por mim, mas é por elas." Por elas e pela História que quer ver acontecer de novo.

As mulheres negras s​​​​​​ão as que mais sabem inovar. A política do Estado é nos exterminar, e a gente está aqui, viva até hoje!

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Em 2015, Bianca Santana publicou o livro "Quando me descobri negra", com memórias e sentimentos sobre a descoberta de sua identidade racial.

No fim das contas, não se trata de conquista apenas. Trata-se de retomada. "As mulheres negras sempre estiveram à frente. É uma crueldade como o homem negro é visto, isso porque quando teve a abolição da escravidão, esse homem era considerado perigoso e não tinha trabalho. Quem tinha eram as mulheres negras. Eram elas que levavam dinheiro para casa."

Hoje, Bianca não vê essa situação tão diferente. "[As mulheres negras] São as que mais sabem inovar. Olha como vivem as mulheres negras no Brasil e a gente está viva até hoje! A política do Estado é nos exterminar, e a gente está aqui."

Elas estão. Vivas e prontas para falar bem alto.

Como Marielle. Como todas as guerreiras.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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