18/03/2018 14:26 -03 | Atualizado 18/03/2018 14:42 -03

Neomisia Silvestre, a mina que descobriu o poder de dentro até a ponta dos cabelos

Uma das idealizadoras da Marcha do Orgulho Crespo quer levar conhecimento sobre a História dos negros a outras mulheres.

Neomisia Silvestre, moradora da periferia de São Paulo, é uma das idealizadores da Marcha do Orgulho Crespo.
Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Neomisia Silvestre, moradora da periferia de São Paulo, é uma das idealizadores da Marcha do Orgulho Crespo.

A mina tem força. Mais do que isso, ela tem poder. Um poder que vem de dentro, do fundo dela mesma, e passa pelo corpo todo até chegar na parte de fora, na estética, nas pontas dos cabelos. Para isso, ela transformou muita coisa no caminho e encontrou o mais importante: ela mesma.

Neomisia Silvestre, 34 anos, jornalista e escritora, é uma das criadoras da Marcha do Orgulho Crespo e da festa Hot Pente. Militante, defende mais do que a aceitação do próprio cabelo e da própria origem, mas o conhecimento disso tudo. Para ela, é isso que traz a força para lutar.

Eu posso ser o que eu quiser porque já sei o que eu sou, então meu cabelo não importa.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Neomisia Silvestre foi criadora da festa Hot Pente, com hip hop, grafite e minas no comando.

"Eu posso ser o que eu quiser porque eu já sei o que eu sou, então meu cabelo não importa. Embora eu saiba que ele importa. A estética é esse processo de entendimento e de libertação do que se é. Acho que a partir do momento em que você se vê e se reconhece como é, você cria potência, cria superpoder, vai pra cima."

E ela foi pra cima. Com potência. Em 2014, ela e uma amiga criaram a Hot Pente. "A gente estava buscando um espaço em que não tivesse que justificar nada, que fosse um encontro saudável onde não preciso explicar meu cabelo, onde não vão ficar metendo a mão no meu cabelo." Disso, nasceu uma festa que ocorreu em diversos lugares de São Paulo que reunia hip hop, grafite e, sempre que possível, minas no comando das atrações.

No ano seguinte, foi a vez da Marcha do Orgulho Crespo. Além do encontro e da caminhada, o evento propunha discussões e oficinas. "Queríamos um debate para que aquilo não fosse só um rolê, não era o close pelo close, sabe? Tem que trazer para o debate e para algo mais profundo do que 'o cacho perfeito'... Foi muito bonito. No dia seguinte a gente estava em tudo que é jornal."

O sucesso da marcha fez mulheres de outras regiões começarem a pedir ajuda para organizar eventos em suas cidades. Ficou claro que a demanda por esse tipo de discussão era grande. Tinha muita gente por aí querendo ver, falar e entender muitas questões sobre a identidade feminina.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
O alisamento dos cabelos é uma espécie de aprisionamento na visão de Neomisia Silvestre.
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Quando você alisa o cabelo, você nega sua origem. Falam que tem que domar a juba. O que é o domar? Isso é um processo de aprisionamento.

Para Neomisia, esse processo de entendimento foi longo. Ela sabe que a questão da estética – que vai além do cabelo – sempre teve relevância na parada toda. Para o bem e para o mal. "Minha mãe sempre vestia eu e meu irmão muito bem e ela não entende por quê. Mas eu vejo porque ela vestia a gente limpo, arrumadinho. E é foda." E continuou, por algum tempo, buscando ter uma imagem considerada "arrumadinha".

No começo da faculdade ela trabalhava em um banco e usava os cabelos alisados, terninho e salto alto. "Quando você alisa o cabelo, você nega sua origem no fim das contas. Falam que tem que domar a juba. O que é o domar? Isso é um processo de aprisionamento e, quando você se liberta, minha filha... Aí vai!"

"um dia, assinei a alforria dos meus cabelos. e, desde então, a gente só se permite prender-se um ao outro. ninguém mais toca, ninguém mais força, ninguém mais desarruma a casa.

um dia, a careca de minha cabeça, essência, me despiu por completo... pra fazer brotar os cabelos que me sou hoje e me vestem de todas as forças. um dia, posso voltar a ser careca. mas jamais volto a ser nula."

[trecho de poema de Neomisia]

Nós, negros, estamos invertendo a pirâmide, saindo da base e indo pro topo, que é onde a gente tem que estar mesmo.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Em cada local de trabalho por onde passou, Neomisia aprendeu muito e percebe que o "lugar do negro" está mudando no Brasil.

Neomisia trabalhou em diversos lugares. Além do banco, fez estágio em canal universitário, deu expediente em ONG de grupo de teatro, em rádio de ONG, revista de arquitetura, escreveu livros.

Cada local por onde passava trouxe experiências e novas visões para Neomisia. Algumas duras. Muito duras. Mas foi se libertando, foi provocando, encarando. "Esconderem a vida inteira a nossa [dos negros] própria história e, à medida que a gente vai escavando isso e trazendo à tona, a gente se fortalece, a gente reivindica. Estamos invertendo a pirâmide, saindo da base e indo pro topo, que é onde a gente tem que estar mesmo."

Deixou de alisar os cabelos. Pintou os cabelos. Raspou os cabelos. "Vieram me falar que eu não podia mais ser do orgulho crespo. Eu posso. Eu sou. A questão é dizer que esse processo de alisamento tem um fundamento. Cabe a nós trazer essa explicação, tirar esses véus. E Influenciei amigas a raspar também porque quando você está à vontade com aquilo, estimula outras pessoas. E essas questões todas foram para a marcha, e vejo que não são só minhas. Estava todo mundo cansado de ter que explicar esse cabelo, de ser recusado por causa desse cabelo em um país que é majoritariamente negro."

Hoje, Neomisia está à vontade para lutar, para levar sua voz para outras pessoas, mudar seu cabelo, controlar sua vida.

Porque ela quer. Ela pode. Ela sabe.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Neomisia Silvestre tem orgulho de seu cabelo e controle de sua vida e quer levar conhecimento para outras mulheres como ela.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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