POLÍTICA
17/03/2018 02:25 -03 | Atualizado 17/03/2018 02:28 -03

'O mecanismo da corrupção foi sacudido com a Lava Jato', avalia José Padilha, criador de série inspirada na Lava Jato

Operação que desvendou maior esquema de corrupção já noticiado no País completa 4 anos neste sábado (17).

Divulgação/Netflix
Selton Mello, protagonista de 'O Mecanismo', e José Padilha, diretor e criador da série.

Os roteiristas da vida real da política brasileira já provaram que são mestres em surpreender, especialmente após a Operação Lava Jato ter sido iniciada, há exatos 4 anos.

Com mais de 40 fases, o maior esquema de corrupção já revelado no País inspirou o diretor José Padilha a criar uma série na qual, além de entreter, explica de maneira didática como funciona a engrenagem da corrupção no sistema político brasileiro.

Se antes a dramaturgia tinha um viés de esquerda e criticava a ditadura, Padilha -- diretor de Tropa de Elite -- destaca que hoje o problema é diferente. "A gente luta contra essa lógica da corrupção, que é um problema sério. (...) A corrupção faz parte da lógica da política, ela estrutura a política."

De maneira simples, o criador e um dos diretores da série O Mecanismo, da Netflix, explica que a engrenagem parte de partidos financiados por empresas que prestam serviço ao Estado, em sua maioria construtoras ou empresas com interesses em leis ou normas legislativas.

"Essas empresas financiam todos os partidos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Amazon deu dinheiro para os democratas, não para os republicanos. A Odebrecht deu para todos os partidos. Uma coisa maluca. Deixa claro que nada tem a ver com política pública ou ideologia."

Em contrapartida, continua Padilha, os eleitos colocam pessoas em cargos-chaves na administração pública para atender a esses interesses particulares. Essa estrutura domina inclusive a formação dos blocos partidários no Congresso. Toda essa lógica da corrupção foi nomeada de "o mecanismo".

O mecanismo não tem ideologia. Existe nos governos de esquerda e nos de direita.

Baque no mecanismo da corrupção

Firme na posição de que desde a redemocratização todos os governos operaram o que ele chama de "mecanismo", Padilha acredita que ao menos uma parte do sistema foi atingida.

A Lava Jato conseguiu alguma coisa. Uma perna do esquema foi punida.

Rodolfo Buhrer / Reuters
Prisão de Marcelo Odebrecht, em junho de 2015.

Para ele, as empreiteiras não saíram ilesas. "A próxima grande empresa a la Odebrecht vai pensar 5 vezes antes de fazer o que fizeram. Isso é uma conquista da Lava Jato", pontua.

O mecanismo está sacudido.

Por outro lado, o diretor ressalta que nem todos os políticos sentiram o peso da Justiça. Ele acredita que um dos motivos para isso é o fato de que os tribunais superiores são formados por indicações de políticos: "evidentemente são comprometidos".

Apesar de afirmar que a operação já surtiu efeitos práticos, o cineasta diz que não está claro se o mecanismo vai ser desmontado.

Sua expectativa é que uma eventual prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva motive a esquerda a pedir punição igual para todos.

Padilha acredita, no entanto, que os demais políticos envolvidos perceberam que uma punição rigorosa é possível e também lutam para que Lula não vá para a cadeia.

"A gente está em um momento de transição. Mas quem são os políticos que estão no Congresso hoje? Maioria que foi eleita com dinheiro de esquema de corrupção. Esses caras controlam os grandes partidos. Estes vão receber a maior parte desse dinheiro e eles têm mais tempo na televisão. Isso garante que eu vou quebrar a hegemonia do mecanismo? Não. Estou partindo da situação inicial, na qual o mecanismo já controla o dinheiro que está vindo do Estado."

Sobre os episódios da vida real da Lava Jato, Padilha desenha um cenário ainda em aberto: "Os elementos para quebrar o mecanismo estão aí, a questão é se o Judiciário vai fazer [desmontá-lo]".