17/03/2018 09:09 -03 | Atualizado 24/03/2018 17:53 -03

Ló Souza, a mulher que espalha afeto por onde passa

Ela deixou a roça na Bahia e batalhou para mudar de vida, estudar e conquistar sua independência.

Ló Souza deixou o interior da Bahia praticamente sem saber ler, aos 20, e se mudou para São Paulo.
Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Ló Souza deixou o interior da Bahia praticamente sem saber ler, aos 20, e se mudou para São Paulo.

Costuma caminhar sempre pelo bairro onde trabalhou por quase 30 anos, na zona oeste de São Paulo. Tem muitos amigos por ali e gosta de passear na região, sente-se em casa. Toda vez encontra rostos conhecidos que já se dirigem a ela com um largo sorriso e calorosos abraços.

"Até hoje ando por aqui e não tem um dia que não encontro alguém. Nem sempre eu lembro o nome na hora... Foi muita gente, né? Mas lembram de mim. Acho que só teve uma Ló."

Aposentada como inspetora de alunos após 28 anos de dedicação a uma escola, Ló Souza, 73 anos, criou inúmeros vínculos. Isso porque ela fazia mais do que olhar os alunos. Ela cuidava mesmo.

Quando algum pequeno começava a passar mal, o único remédio milagroso era o chá da Ló. "Era de camomila, erva cidreira, erva doce, o que tivesse. Mas eles só melhoravam com o chá da Ló. Eu ia lá e dava, mas esse chá não tinha nada." Quem entende das coisas por aí diz que o que tinha ali era afeto. Funcionava. A história virou lenda no colégio Oswald de Andrade.

Naquela época, não podia sair de casa sem casar. Mesmo assim, vim às cegas, com minha malinha. Acho que fui valente mesmo.

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Por quase 3 décadas, Ló Souza trabalhou como inspetora de escola na zona oeste de São Paulo.

Nascida em Feira de Santana, na Bahia, deixou o trabalho na roça aos 20 anos para tentar uma vida nova em São Paulo. Quando saiu de casa, mal sabia escrever o próprio nome. "Foi difícil. Não tinha estudado e naquela época não podia sair de casa sem casar. Mas vim mesmo assim, às cegas, com minha malinha, sem saber o que ia ser. Acho que fui meio valente mesmo."

Foi para Santos ficar com um irmão e logo conseguiu um emprego na casa de uma família que mudou sua vida. "Em 1971, minha patroa precisou operar de um câncer de mama, e o médico recomendou que ela mudasse para São Paulo [capital] e vim com eles." Foi lá que conseguiu voltar a estudar. Fez também curso de enfermagem para ajudar a cuidar da patroa. Gosta de dizer que teve muita sorte na vida, mas talvez tenha sido mais do que isso.

Sempre trabalhou muito. Aos fins de semana ia a uma clínica para idosos e logo começou a trabalhar meio período em escola como ajudante geral. Continuava aparecendo na casa da família, mesmo após a morte da patroa, em 1985. Ali, também criou um vínculo muito forte, que não se desfez com o tempo.

Acho que se eu viver 100 anos não vou esquecer um detalhe dessa viagem para a Europa.

Recentemente, ela foi convidada de honra do casamento de um dos netos da família. "Foi a coisa mais linda, eu nunca pensei que eu fosse numa festa daquelas, menina. O rapaz mora nos Estados Unidos e, quando mandou a lista de convidados, o pai disse que meu nome era o primeiro da lista. Eles compraram roupa, mandaram um carro me buscar." E assim foi a uma festa no salão nobre de um tradicional clube de São Paulo. "Pena que não trouxe as fotos para mostrar."

E amizades como essa foram responsáveis por muita coisa na vida dela. Em 2012, foi assim que realizou outro sonho. Com quase 70 anos conheceu a Europa. "Eu sempre quis, sempre falei que queria ir, mas eu nunca achei que fosse acontecer." Até que uma amiga fez a proposta para as duas irem juntas. "Um dia cheguei na escola e já estavam agendando para fazer meu passaporte, todo mundo ajudando. Uma marcou, a outra me levou para fazer. O que eu tive de apoio desse pessoal em toda a minha vida... Graças a Deus."

Encarou 12 horas de voo até Londres para viver uma semana que nunca mais vai esquecer. "Fomos pra Inglaterra, França e Bélgica. Acho que se eu viver 100 anos não vou esquecer um detalhe dessa viagem. Tenho foto de tudo. Foi lindo, foi maravilhoso."

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Ló Souza sempre contou com o apoio da família da ex-patroa e do pessoal da escola onde trabalhou por décadas.

No ano seguinte, as notícias não foram tão boas assim. Em um exame de rotina, descobriu que tinha câncer de mama. Ficou apavorada, mas novamente o apoio "do pessoal da escola" e da família ajudou a encarar o tratamento.

Fez cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Após 10 meses, precisou operar também a outra mama. Mas isso já passou para ela. "Deus me deu tanta sorte, me deu tanto esse poder de eu ter conseguido me tratar... Não tenho do que me queixar da vida. Tive muito mais coisa boa do que esse atropelo que apareceu no meu caminho."

Me considero uma mulher feliz, vencedora.

Um atropelo bobo para quem já tinha chegado tão longe. Comprou, sozinha, o próprio apartamento no Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo. É uma mulher independente. "Por isso me considero uma mulher feliz, vencedora, e acredito que tenham muitas mulheres por aí que nem eu. Não que eu seja bambambam não, mas quando faço um balanço de onde eu vim, sem nada, e para onde eu fui e tudo que fui adquirindo, eu me considero uma vencedora. E ainda vou vencer muita coisa."

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Ló tornou-se uma mulher independente que realizou seus sonhos, como ir à europa e comprar a casa própria.

Entre seus planos está uma viagem para Portugal e comprar um apartamento em Santos para ir aos fins de semana e "ficar tranquila." Aproveita seu tempo livre para passear, participar de bingos.

"Dia desses ganhei na última rodada a televisão. Nossa Senhora, foi uma farra. São coisas que podem não ter valor para qualquer pessoa, mas para mim tem. Falo que posso ter um piripaque a qualquer momento, mas enquanto esse piripaque não chegar o que eu puder aproveitar eu aproveito, não é não?".

Realmente uma mulher para ser reconhecida por onde passa. E fica fácil.

Afinal, só teve uma Ló.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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