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16/03/2018 17:01 -03 | Atualizado 16/03/2018 22:59 -03

Morte de Marielle pode mudar o País, assim como a do meu pai, diz Ivo Herzog

"O caminho é as pessoas irem às ruas. O Estado só vai mudar de baixo para cima. Não vai ser em um estalo de dedos que o Estado vai ser o que a gente quer.”

Montagem/CMRJ/Instituto Vladimir Herzog
Filho de Vladimir Herzog, Ivo acredita que assassinato da vereadora Marielle Franco pode mobilizar mudança no País.

Vladimir Herzog: jornalista torturado e morto em 25 de outubro de 1975 no DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar.

Marielle Franco: vereadora do PSol assassinada em 14 de março de 2018 com 4 tiros na cabeça após denunciar ações de violência da Polícia Militar no Rio de Janeiro.

Mais de 40 anos depois do primeiro crime, o filho de Vlado, Ivo Herzog, vê no assassinato da socióloga uma esperança de mobilizar mudanças no País.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, o diretor-executivo do instituto que leva o nome do pai lembrou do culto ecumênico na Catedral da Sé, no centro de São Paulo, 6 dias após a morte do jornalista e comparou o ato com as manifestações em homenagem à Marielle nesta quinta-feira (15).

A morte do meu pai simbolizou uma coisa muito importante, o início da derrocada da ditadura e o começo de uma redemocratização. Só há esperança que a morte da Marielle agora, pelo menos, una as pessoas para dar uma virada nesse cenário de abandono do poder público. Tem que se questionar o status quo que existe aí. Eu não tenho as respostas. Eu estou absolutamente chocado com a realidade.

Na avaliação de Ivo, o momento é para os brasileiros irem às ruas mostrarem sua indignação e lutar por melhores nas condições de vida. "O Estado só vai mudar de baixo para cima. Isso tem que ser uma exigência, tem que ser as pessoas na rua, berrando a plenos pulmões 'chega, basta, não aceito, não quero'. Tem que ter as Marias e Clarices, tem que ter todos nós na rua", afirmou em referência à música O Bêbado e a Equilibrista, um dos ícones da resistência à opressão no regime militar.

Milhares de pessoas se reuniram nesta quinta-feira (15) na Cinelândia, centro do Rio, para protestar contra o assassinato de Marielle. Ao menos 19 capitais brasileira também foram às ruas e atos de apoio à vereadora e indignação com o crime foram registrados também em Nova York (Estados Unidos) e Montevidéu (Uruguai).

Bloomberg via Getty Images
Vigília no Rio de Janeiro pelo assassinato da vereadora Marielle Franco começou na Câmara dos Vereadores com milhares de brasileiros em protesto ao crime.
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Relatora da Comissão da Câmara de Vereadores do Rio criada para acompanhar a atuação das tropas na intervenção federal na área de segurança do Rio, Marielle denunciou nos últimos dias ações truculentas da Polícia Militar em operações na Favela de Acari, na Zona Norte do Rio. A socióloga nascida na Favela da Maré construiu ao longo da vida uma trajetória de luta por direitos humanos e contra a violência policial. Ela foi assassinada no próprio carro, assim como o motorista, Anderson Pedro Gomes.

Para o filho de Vlado, são 2 casos de violência e omissão do Estado. "Eram duas pessoas que o que buscavam era paz, justiça e democracia e são barbaramente assassinadas. Meu pai por agentes do Estado. O [assassinato] dela ainda se investiga, mas tem forte indício de envolvimento da polícia. A gente vê mais uma repetição dessa violência sem dimensão", afirmou.

Com duras críticas à atuação das forças de segurança, Ivo afirma que o Brasil é um "país abandonado nas responsabilidades do Estado" em que a polícia é um "exército fardado" que age para preservar os interesses do Estado e contra a população.

Existe uma polícia, um exército fardado, uma polícia militar que é esse exército de ocupação onde a missão e a maneira que trabalha é para proteger os interesses do Estado e não a sociedade. A sociedade está deixada à mercê.

Configura os principais pontos da entrevista.

Violações de Direitos Humanos

Eu estou muito indignado, quase que revoltado [com o assassinato de Marielle]. Faço um paralelo com o caso do meu pai porque eram duas pessoas que o que buscavam era paz, justiça e democracia e são barbaramente assassinadas. Meu pai por agentes do Estado. O [assassinato] dela ainda se investiga, mas tem forte indício de envolvimento da polícia. A gente vê mais uma repetição dessa violência sem dimensão. Mais de 40 anos passados, e para onde a gente está caminhando?

E a gente vai ter uma eleição agora que dentro da sua plataforma tem a defesa da violência, de uma polícia violenta, de fortalecimento dessa guerra onde o cidadão é inimigo do Estado e o Estado se arma para trazer impunidade para si.

Reprodução/Youtube
Culto em 1975 após a morte de Vladimir Herzog simbolizou início do fim da ditadura. Filho do jornalista compara caso com mobilização pela morte da vereadora Marielle Franco.
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Debate da segurança pública e acesso às armas

O Brasil não tem segurança pública. Você tem uma Polícia Militar treinada para eliminar o inimigo. É uma polícia que existe só para proteger o Estado. A questão da segurança pública não tem acontecido só no Rio de Janeiro... aqui em São Paulo a gente teve nesta quarta-feira a polícia indo para cima de professores que protestavam sobre um tema que lhes dizia respeito e saíram machucados. Foram atacados com bomba de efeito moral.

Existe uma polícia, um exército fardado, uma polícia militar que é esse exército de ocupação onde a missão e a maneira que trabalha é para proteger os interesses do Estado e não a sociedade. A sociedade está deixada à mercê.

Quem tem dinheiro contrata a sua segurança, vive atrás de muros, em condomínios fechados e quem não tem esse poder econômico está vivendo uma roleta russa onde a qualquer momento a bala pode disparar contra a cabeça dessa pessoa.

São milhares de jovens de periferia, mulheres, negros, que são assassinados todos os anos e muitos pela polícia, pelo Estado. Eu estou absolutamente consternado, não sei para onde a gente vai. As perspectivas eleitorais desse ano não prometem trazer grandes respostas a essas questões.

A morte do meu pai simbolizou uma coisa muito importante, o início da derrocada da ditadura e o começo de uma redemocratização. Só há esperança que a morte da Marielle agora, pelo menos, una as pessoas para dar uma virada nesse cenário de abandono do poder público. Tem que se questionar o status quo que existe aí. Eu não tenho as respostas. Eu estou absolutamente chocado com a realidade.

Marcelo Camargo/ Agência Brasil
Ivo Herzog critica ausência do Estado e afirma que policia militar é "exército fardado" a serviço dos interesses do Estado.

Segurança pública e redução de desigualdades

A segurança pública pode ser um tema do eixo, mas não é só isso. E o abandono da educação? Da saúde? Da moradia? Do ir e vir, as vias destruídas... e o abandono do saneamento básico? É um país abandonado nas responsabilidades do Estado onde a gente tem visto que, a cada dia que passa, a gente está andando para trás e não para frente. Estamos numa situação mais precária do que estávamos.

Acho que é uma questão de falar: o governo está aí não para governar para si e sim para servir o público. Isso não existe. Isso deixou de existir. O público é inimigo do Estado e o Estado combate usando instrumentos para que afaste os cidadãos desse diálogo.

O Estado primeiro se preocupa em como se preservar, em criar um arcabouço legal que lhe garanta impunidade, privilégios, viver numa dimensão e nós estamos aqui, com o que sobra disso daí, com o que sobra da capacidade do Estado de fazer alguma coisa por nós.

O Rio de Janeiro está no estado de falência completa por um processo interno do Estado, que se corrompeu, que não se preocupou, que só montou um arcabouço de privilégios até destruir e cair a cortina e deixar a população de lado do jeito que está. Só que não é só o Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro é a grande vitrine. Mas tem vários outros lugares que não são a cidade maravilhosa e estão também nesse abandono, com as suas necessidades básicas de direito do cidadão esquecidas.

Em paralelo, tem um processo muito forte de desconstrução de valores de direitos humanos. Há 2 dias um dos grandes jornais de São Paulo publicou um artigo enorme de uma organização falando dos "manos dos direitos humanos", desqualificando os valores de direitos humanos. É toda uma cultura de violência e de desqualificação das pessoas que pensam no coletivo porque elas estão questionando esse Estado que serve para servir a si mesmo e não aos cidadãos. Espero que o acontecimento desta quarta-feira fortaleça essa reflexão e comece a impor uma agenda para a gente reverter isso.

NurPhoto via Getty Images
Aos gritos de "Marielle, presente!", milhares foram às ruas na Avenida Paulista após o assassinato da vereadora do PSol no Rio de Janeiro.

Reação do governo Temer ao assassinato de Marielle

Não existe 'mais uma morte'. Nenhuma morte é 'mais uma morte'. Nenhuma morte pode ser colocada nesse status de banalidade. Não é porque eu não durmo com essa pessoa todas as noites, não sento para comer com ela todos os dias, que ela deixa de ser importante no mundo. Cada morte é uma morte inaceitável. O Estado tem que trazer essa responsabilidade para si e repensar tudo.

A questão da intervenção, eu não gosto de entrar no mérito se ela deveria ou não acontecer porque a minha opinião nesse aspecto é irrelevante. A minha questão é quais as medidas efetivas que o Estado está fazendo para resolver a violência? Porque na hora que essa intervenção sair, se volta o estado de violência que existia antes porque não existe nenhuma política pública para dar resposta.

O que está se criando é um ambiente de Copa do Mundo e de Olimpíada, onde parece que está tudo bem. Você vê o Exército na rua, mas é uma bobagem isso. É uma grande farsa, aquartelando as pessoas em guetos e tirando elas da vitrina da cidade maravilhosa para se criar uma falsa sensação de que está se resolvendo as coisas. É você jogar o cobertor em cima de um incêndio, mas o Brasil está pegando fogo. Quando tirar o cobertor, incêndio volta com a mesma força ou mais feroz ainda.

Que governo é esse que busca esse caminho teatral, mas que não promove um questionamento de uma série de coisas no status quo que a gente possa falar que está realmente criando um processo em que as coisas vão melhorar? O que está se mexendo no sistema prisional, no sistema jurídico? O que está se propondo em segurança pública?

A gente vê atos de total desrespeito, total violência da polícia e a gente se cala.

Eu vi há 3 dias na minha frente um carro da polícia parando um entregador de comida, os policiais todos com arma empunhada, mirando para o indivíduo que estava ali fazendo o trabalho dele. Como se fosse um Exército combatendo um outro Exército, sendo que era um rapaz de seus 20 e poucos anos, numa moto, com uma mochila com uma pizza dentro. Que país é esse que a polícia precisa agir com tamanha brutalidade? Qual a proteção que ela está trazendo para a sociedade? Está criando um ambiente de medo, de terror.

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Intervenção federal de militares na segurança do Rio de Janeiro é medida paliativa, diz Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog, vítima da ditadura militar.

Mudança pelas eleições

Houve pequenos avanços quando o Legislativo começou a discutir a reforma eleitoral, mas lá na frente criaram de novo um arcabouço legal para se perpetuar no poder. Para a gente pensar numa mudança, você tem que pensar numa renovação daquelas pessoas. As pessoas que estão nos representando há 20, 30, 40 anos, desde a redemocratização, estão fazendo muita coisa errada.

A gente vê os debates nas câmaras legislativas de [políticos] se protegerem, de discutir foro privilegiado. Para que comece a haver mudanças, tinha que ter um processo de renovação profundo. Acho que vai haver uma certa renovação. Existem alguns movimentos sociais que acho que vão trazer novas lideranças, mas a gente está muito distante ainda. Existe um processo corporativista gigantesco acontecendo.

Enquanto as pessoas estão chorando no Rio de Janeiro a morte da Marielle, em outros lugares no Brasil você tem gente do Judiciário que está protestando, fechando as ruas, para manter o auxílio-moradia. É um descompasso, é uma sociedade absolutamente umbilical.

Enquanto não acontecer uma grande tragédia que faça a gente ter um olhar pelo coletivo, o futuro para os nossos filhos é muito pessimista. Eu tenho um filho de 20 anos e me preocupo muito com o futuro dele, de uma maneira que eu nunca me preocupei a minha vida toda, em mais de 50 anos.

Nunca tive uma sensação como essa que o amanhã está indo numa direção oposta ao que eu acredito, de uma sociedade mais egoísta, contra os valores da justiça, da paz. Está difícil... alguma coisa vai acontecer sempre, né. Não quero ser um cara que diz que está tudo ruim, mas está tudo muito ruim. Tem coisa muito absurda. Uma pessoa ser executada com tiros em pleno centro da cidade.

E isso que aconteceu com a Marielle, infelizmente acontece diariamente nas periferias. Como a gente tem uma sociedade que ficou passiva diante disso tudo? Que é 'mais uma morte'? Não existe 'mais uma morte'. Enquanto o Estado pensar que é 'mais uma morte', somos uma nação sem Estado. Somos uma nação órfã, que não tem quem nos represente com legitimidade, com preocupação.

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Brasileiros de pelo menos 19 capitais brasileiras foram às ruas em protesto ao assassinato da vereadora Marielle Franco. Relatora da comissão que acompanhava a intervenção federal no Rio, ela denunciou violações feitas pela Polícia Militar.

Mobilização para mudança

Eu estou vendo milhares de pessoas nas ruas consternadas com o que aconteceu com a Marielle. O caminho é esse. É as pessoas irem às ruas. O Estado só vai mudar de baixo para cima. Não vai haver um estalo de dedos e amanhã a gente vai ter o Estado que a gente quer.

Isso tem que ser uma exigência, tem que ser as pessoas na rua, berrando a plenos pulmões "chega, basta, não aceito, não quero". Tem que ter as Marias e Clarices, tem que ter todos nós na rua. Tem que acabar essa indiferença. A gente tem que colocar para fora nossa indignação. Aí talvez as coisas melhorem.

No caso do meu pai, no ato ecumênico na Catedral da Sé, foram dezenas de milhares de pessoas e ali se começou a derrubar a ditadura. É mais ou menos isso, dentro do contexto de hoje, 40 anos depois. É alguma coisa assim que tem que acontecer.

Os próximos dias são vitais para se pensar em algum tipo de mudança. Não dá para as pessoas pensarem que isso que aconteceu é o fim do mundo e a partir de amanhã começar a discutir futebol nas esquinas. O tema é o nosso direito à vida. O respeito à vida. As pessoas têm que ir para a rua clamarem por seu direito à vida, e respeito e dignidade.

Ditadura não voltará por 8 razões