MULHERES
14/03/2018 14:19 -03 | Atualizado 14/03/2018 14:30 -03

Tahera Rahman acaba de se tornar a primeira repórter de televisão americana a usar hijab

"Isso me dá a esperança de que eu posso ser a primeira, mas não serei a última", disse, em entrevista ao HuffPost.

WHBF-TV

Tahera Rahman se posicionou diante das câmeras da TV WHBF, filiada à CBS, em Rock Island, Illinois, no mês passado, e se tornou a primeira repórter em tempo integral dos Estados Unidos a usar hijab.

Outras mulheres já fizeram reportagens online usando hijab, mas Rahman é a primeira repórter de uma emissora de televisão aberta a fazer transmissões ao vivo usando o véu, segundo a emissora e segundo a organização Muslim American Women in Media (Mulheres Muçulmanas Negras na Mídia). É uma realização de grande impacto e que levou anos para se tornar possível.

Natural de uma cidade pequena do Illinois, Rahman conversou com o HuffPost sobre sua trajetória no mundo do jornalismo e de como alcançou essa vitória.

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Como você está lidando com a pressão de ser "a primeira"? É um peso para você?

Tahera Rahman: É estranho, porque me fazem lembrar disso todos os dias – de uma maneira boa. Ando recebendo mensagens de apoio, ou através das redes sociais ou do correio, o que é ainda mais tocante. Então as pessoas andam me lembrando disso quase diariamente, mas, ao mesmo tempo, passo a maior parte do meu dia não pensando nisso. A maior parte do dia eu passo pensando no meu horário do fechamento: as 16h. Que pauta vou propor quando chego para trabalhar às 9h da manhã, e depois como vou atrás da história, fazendo entrevistas. Depois, ir para casa e pensar no que fazer para o jantar [ri].

É claro.

Então passo a maior parte do meu dia não pensando nisso. Mas meu pai tem me dito para tirar um instante todos os dias para fechar os olhos, pensar em onde estou e no que estou fazendo e agradecer a Deus pela oportunidade. Ele me disse: "Sabe, o significado enorme disso pode deixar você estressada – pode lhe parecer um peso, mas, em última análise, é uma grande bênção". Então eu faço um esforço consciente para sentir gratidão todos os dias.

A falta de mulheres muçulmanas americanas que usavam o lenço cobrindo a cabeça diante das câmeras era evidente – eu tinha muita consciência do fato --, mas nunca enxerguei isso como algo impossível de acontecer. Tahera Rahman

De onde vieram suas influências quando você estava crescendo? Considerando que não se veem muitas mulheres muçulmanas na televisão, e com certeza não muitas que usem o hijab, para quem você olhou para se nortear?

Sou membro de uma minoria sob muitos aspectos diferentes. Não é apenas minha identidade religiosa – é também por ser uma pessoa "não-branca" e por ser mulher. Para mim, sempre foi uma inspiração especial ver outras mulheres, seja qual fosse sua raça ou etnia. Pessoas que são ótimas no trabalho que fazem e que por acaso são mulheres – é isso que eu gostava de ver. E havia muitas jornalistas assim, na televisão ou fora dela. Muitas delas me inspiraram e me serviram de mentoras ao longo dos anos.

A jornalista de rádio Miriam Sobh trabalha para a NPR e para a rádio WBBM em Chicago. Ela estava sempre à disposição para me mostrar como me movimentar no mundo do jornalismo em jornal. E há Rummana Hussain, que é articulista veterana do Chicago Sun-Times. Eu me lembro de ter visto o nome dela impresso quando eu estava no colégio, e para mim aquilo foi incrível. Pensei: "Meu Deus, é um nome muçulmano. Esse é um nome de pessoa morena."

Há a Malika Bilal, co-apresentadora do progama "The Stream", na Al Jazeera em inglês. Ela também usa lenço na cabeça e está na televisão internacional, sempre arrasando com discussões profundas sobre fatos e notícias mundiais. Todas essas mulheres, e muitas outras, me deram esperança e coragem para seguir adiante. Sempre tem que haver alguém que é a primeira a fazer alguma coisa, e eu, sendo ou não a primeira, queria fazer parte dessas mulheres, sem dúvida alguma. Acho que foi isso que me deu impulso para seguir adiante.

WHBF-TV
Tahera Rahman prepares a live shot as a reporter for WHBF-TV in Rock Island, Illinois.

Vivemos numa época em que há veículos de mídia explicitamente islamofóbicos que têm um público grande. Sendo você uma mulher muçulmana que vive nesse meio e não quer passar todo seu tempo falando de sua religião, como você opera em meio a essa enxurrada constante de vozes que querem questionar sua humanidade, logo, sua capacidade de fazer seu trabalho?

Você tem toda razão. Já recebi mensagens de gente – talvez escrevendo com as melhores intenções – pensando que me fariam mudar de ideia, me mandando por e-mail vídeos do YouTube que explicam por que o islã é a religião do demônio. E a minha reação é "ok, deletando". Então há pessoas que não me veem como uma vizinha bem-vinda, e, para falar sinceramente, isso é horrível.

Mas acho que é a realidade, nada mais: não importa o que você diga às pessoas ou quão bem você as trate, sempre haverá pessoas que não mudam de ideia. E acho que esse não é um problema meu. Acho que você não deve imaginar que é necessário fazer todo o mundo no mundo inteiro pensar que você é ótima, que é incrível ou mesmo que é "normal". Sempre operei sob a premissa de que, se você é uma pessoa boa e se esforça para fazer o que é certo, outras pessoas não vão dar crédito a quem procura lhe denegrir. Para mim, como jornalista, isso significou me concentrar sobre meu trabalho, porque eu sabia que havia pessoas para as quais eu não deveria estar no ar.

Sempre haverá pessoas que não mudam de ideia, não importa o que você lhes diga ou quão bem você as trate.Tahera Rahman

Você passou os últimos dois anos produzindo em sua estação, e imagino que você consiga visualizar as transmissões em sua totalidade, de uma maneira que outras pessoas não conseguiam. Nossa indústria é avessa à diversidade. Me pergunto se foi isso que inspirou você a passar de operar atrás das câmeras para aparecer diante delas.

Sei que em muitas Redações de emissoras ou jornais, a meta é que a Redação reflita a comunidade em que você vive. Quando não há diversidade na Redação, isso não é necessariamente culpa de uma pessoa. É o efeito de múltiplas coisas que acontecem ao mesmo tempo. Não quero falar em nome de todos os muçulmanos, mas creio que a falta de representatividade ocorre em parte porque muitos muçulmanos americanos hesitam em trabalhar na mídia. Isso se deve em parte ao fato de terem crescido na era pós-11 de setembro, quando muita gente de nossa comunidade se sentiu denegrida nos noticiários e desde então deixou de sentir confiança em jornalistas.

Então acho que isso é parte da razão por que não há tanta representação muçulmana quanto as pessoas gostariam. Mas, olhando para questão do ponto de vista de quem vem da Índia, de uma família asiática do sul, sempre há muita atenção voltada ao que acontece em outros campos. Na minha família a maioria das pessoas é médico ou engenheiro. Não podemos culpar nossos pais por quererem isso, porque eles querem um trabalho estável para seus filhos. O jornalismo é uma área muito competitiva, e se você vai trabalhar com jornalismo para ganhar dinheiro, vai se decepcionar [ri].

Verdade. Verdade, sem dúvida alguma.

As pessoas pensam que se você trabalha na televisão, especialmente a TV aberta, deve estar ganhando muito dinheiro, sem falar que você tem tanta roupa bonita. Mas na realidade é algo assim: "Amazon, cadê você? Preciso de uma blusa por seis dólares" [ri]. Então acho que essas são as duas razões por que não estamos tão representados na mídia quanto gostaríamos. Quando eu comecei a trabalhar com jornalismo, era a única muçulmana no edifício. Achei que era responsabilidade minha divulgar o que estava acontecendo na comunidade muçulmana daqui e por que isso é importante. Achei que eu tinha podido contribuir nesse sentido nos bastidores, e esse não foi o fator mais importante que me levou a querer ser repórter de televisão. A falta de mulheres muçulmanas americanas que usavam o lenço cobrindo a cabeça diante das câmeras era evidente – eu tinha muita consciência do fato --, mas nunca enxerguei isso como algo impossível de acontecer.

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Sempre achei nossa indústria meritocrática apenas sob alguns aspectos – há um nível básico de conhecimentos que é necessário para uma pessoa dar certo no jornalismo. Mas há também o fator humano, um critério menos preciso pelo qual nosso sucesso é determinado: quem conhecemos, que fontes podemos cultivar, etc. Em um mundo como o nosso, em que a islamofobia corre solta e parece ser tão comum, você encara obstáculos singulares em fontes que cometem discriminação com base em sua religião?

Assim de cabeça, eu diria que acho que não. Mesmo se eu voltar atrás para a faculdade e os trabalhos de reportagem que fiz lá, e chegando até minhas últimas três semanas atuando como repórter no ar, não encarei obstáculos no esforço para conseguir fontes. Mais para frente, quem sabe se as pessoas vão criar coragem para ser grosseiras comigo ou me negar entrevistas. Mas a maioria das pessoas tem me mado muito apoio. Tanto assim que tem sido até meio surreal e estranho.

Como assim?

Com a maioria das pessoas que combino para entrevistar eu primeiro falo ao telefone. Quando chego lá para entrevistá-las, elas já sabem quem eu sou. Elas dizem 'vi você no jornal, vi sua história na televisão. Parabéns, temos muito orgulho de você", e coisas do tipo. Outro dia estive com o delegado local de polícia e ele me conheceu assim que entrei pela porta. Assim, sob muitos aspectos minha identidade tem até me ajudado a conseguir entrevistas. Espero continuar conseguindo essas entrevistas depois que uma repórter de hijab deixar de ser novidade.

O que, na sua opinião, Rock Island, Illinois possui que torna a cidade tão acolhedora a uma repórter em tempo integral que usa hijab? Se as pessoas fossem palpitar onde algo assim poderia acontecer pela primeira vez nos Estados Unidos, imagino que 99,9% delas não imaginaria que isso aconteceria em Rock Island. Existe algo que você tenha observado que torna esta região mais tolerante que outras?

Sabe de uma coisa, não sei. Acho que muitas cidades pequenas nos Estados Unidos são assim, como na região metropolitana das Quad Cities. Eu gostaria de imaginar que, se morasse em qualquer outra cidade pequena a mediana, eu teria tido a mesma acolhida e o mesmo apoio. Mas acho que, de modo geral, vivemos em um país onde a maioria das pessoas é do bem, acredita na diversidade e acredita no valor de conhecer uns aos outros. Acho que isso teria acontecido onde quer que eu fosse, mas acho que as Quad Cities são especiais porque estamos na divisa entre Illinois e Iowa.

Nossa emissora cobre os dois Estados. Iowa é um Estado indeciso em termos de política eleitoral, o Iowa sempre vota pelos democratas, e o Iowa votou nos republicanos na eleição passada. Acho muito interessante que pode haver diferenças políticas – as pessoas podem ser muito conservadoras, muito liberais ou em algum ponto intermediário --, mas acho muito interessante considerar que a maioria de nós vai acabar compartilhando o mesmo mundo. E acho isso realmente reconfortante. Isso me dá a esperança de que eu posso ser a primeira, mas não serei a última.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.