14/03/2018 08:21 -03 | Atualizado 14/03/2018 12:09 -03

Germana Zanettini, a poeta que leva seus versos para as ruas

Gaúcha traça seu caminho como escritora contemporânea e inspira outras aspirantes a autoras.

A escritora gaúcha Germana Zanettini já venceu concursos e prêmio literário.
Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
A escritora gaúcha Germana Zanettini já venceu concursos e prêmio literário.

No começo era tímida. Seus versos começaram a sair tarde, ela diz. Não escrevia poesias desde sempre, não parecia ser um dom nato. Lia muito, é verdade, mas não colocava para fora suas ideias. Mas quando expressou, foi com força.

Hoje Germana Zanettini, 33 anos, já assumiu. É escritora e poeta. Com destaque em concursos e obra publicada, Eletrocardiodrama (Laranja Original), livro lançado em 2017 e vencedor do prêmio Academia Rio-Grandense de Letras.

Mas antes disso, seu trabalho já aparecia por aí. Seus versos estavam em postes. Em paredes de ônibus e do metrô. Nas ruas, próximo às pessoas. "Qualquer tipo de arte tem a função de ir para a rua mesmo. Tem gente que ainda acha que a poesia é muito elitista, mas não é... Não é todo mundo que consegue comprar um livro. O que vai chegar nessa pessoa se [a arte] estiver só no museu, na biblioteca ou na Academia? Acho importantíssimo que a arte vá até as pessoas", reflete.

Demorei para 'sair da gaveta'. Mas, quando comecei a ganhar concurso literário e aparecer um pouco mais, fui aos poucos conseguindo me assumir como escritora.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Formada em Letras, Germana Zanettini é gaúcha radicada em São Paulo e costuma frequentar o Beco do Batman, na Vila Madalena.

A gaúcha formada em letras descobriu ainda criança que poesia tinha várias formas. "Lembro que, quando morreu Mário Quintana, apareceu um poema infantil dele na televisão e eu falei 'nossa, isso é poesia'. E vi que não era só uma coisa chata, que podia ser legal e que não era arcaica e de difícil acesso. Às vezes o que lemos na escola não conecta com as pessoas, é muito rebuscado", analisa. No começo, publicava seus textos na internet e divulgou os poemas de várias formas diferentes antes de apresentá-los em livro. "Minha poesia é mais direta e contemporânea", define a poeta.

transporte público

te levo

diariamente

dentro do peito

sacanagem:

você

nem paga

passagem

Germana também virou plataforma da própria obra. Nesse processo de se assumir poeta, lançou o Poesia na Pele. Escreveu alguns de seus trabalhos sobre o próprio corpo, tirou fotos e divulgou. "Eu tinha muito vergonha, me sentia andando nua. Demorei pra sair da gaveta e quando comecei a ganhar concurso e aparecer um pouco mais, fui aos poucos conseguindo me assumir [como escritora]."

Inovou na forma de apresentar sua palavra por aí. "Tem tudo a ver com a escrita porque você escreve com o corpo inteiro. Escrita é uma coisa de pele."

a vida, essa eterna discrepância

entre o tropeço e o passo

de dança

Em sua pele tem um pouco de tudo. Germana gosta de falar de questões existencialistas, e sua obra virou uma mistura. "Há coisas com uma pegada mais feminista, tem de amor, de fossa, de fundo de poço. Mas não tem uma coisa específica que me faz escrever. Às vezes é algo banal, estou andando de metrô, de ônibus e vejo alguma coisa, anoto e depois trabalho em cima."

não tire

teus dedos

de mim

baby,

o amor

é touchscreen

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Germana diz que demorou bastante para "sair da gaveta" como escritora, mas hoje faz experimentos inovadores com suas letras.

O meio literário sempre foi dominado por homens. Antigamente, autor anônimo era uma mulher que não creditaram. Agora estamos vendo mudanças.

O retorno e a aceitação desses versos sobre questões existencialistas têm sido grandes. Muita gente lia o trabalho de Germana por aí, na rua, e escrevia para elogiar. E hoje, ela acredita que ajuda outras pessoas a acharem que podem escrever poesia, que não é nenhum bicho de 7 cabeças. "Já recebi muitas mensagens de meninas falando que acham legal meu trabalho e que começaram a escrever depois que leram umas coisas minhas. É muito legal isso."

Essa inspiração para novas escritoras abre as portas para mais um espaço onde as mulheres levaram muito tempo para chegar. "Todo o meio literário sempre foi predominantemente masculino. Por uma boa parte do tempo, autor anônimo era uma mulher que não creditaram. E isso veio se perpetuando... Mas agora estamos vendo mudanças, e é muito importante ver mulheres ocupando todos os lugares, ter igualdade. A gente só tem que dar chance porque no momento em que a gente abre pra todo mundo, naturalmente as coisas acontecem e vemos mais mulheres."

E assim todos nós passamos a ler mais mulheres também.

E versos ora fortes, ora sensíveis que captam o olhar delas.

oito de março

uma vez por ano

um homem

apanha flores

a cada cinco minutos

uma mulher

apanha

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Livro traz para o papel obra de Germana Zanettini, que já circulou bastante pelas ruas de Porto Alegre e São Paulo.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto:Ana Ignacio

Imagem:Caroline Lima

Edição:Diego Iraheta

Figurino:C&A

Realização:RYOT Studio Brasil

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