ENTRETENIMENTO
09/03/2018 13:06 -03 | Atualizado 10/03/2018 21:00 -03

Como Weinstein e a máquina de Hollywood criaram o 'bom moço' Matt Damon

A estrela de 'Gênio Indomável' foi moldada para se encaixar em um ideal de liberal e empreendedor. Mas os tempos mudaram.

Illustration: Gabriela Landazuri/HuffPost. Photo: Getty Images

Pouco antes de Gênio Indomável estrear nos cinemas em dezembro de 1997, Matt Damon comprou duas mochilas no Walmart. Os rumores sobre o filme haviam aumentado. O produtor do filme, Harvey Weinstein, traçava uma campanha de premiação para o longa, e Damon repentinamente passava muito tempo em quartos de hotel, com acesso a quartos bem equipados e serviço quatro estrelas.

Como praticamente qualquer perfil de Damon mostrará, o jovem encrenqueiro de 27 anos nascido em Boston havia desperdiçado a década antes de alcançar sucesso em Hollywood. E então, apenas 6 meses após a estréia do filme Gênio Indomável ele precisaria daquelas mochilas para passar mais noites em quartos de hotel enquanto promovia O Resgate Do Soldado Ryan, um épico de Steven Spilberg que lhe garantiria mais uma participação na cerimônia do Oscar.

Este contraste – entre a mochila do Walmart e os tapetes vermelhos ao lado de Spilberg – sintetiza seu padrão de narrativas como astro do cinema: um forasteiro empenhado vai para Tinseltown, dorme em apartamentos baratos, faz bicos para pagar as contas e aceita qualquer papel que possa encontrar, na esperança de atingir de alguma maneira a assim chamada grande chance. É o sonho americano, entregue à população por meio de histórias marcantes e embalado para as telonas de todo o país.

E foi essa a narrativa que, 20 anos atrás, em conjunto com o Oscar que ele e Ben Affleck ganharam por seus roteiros em Gênio Indomável, transformou o pouco conhecido Damon no primeiro típico garoto bonzinho – uma imagem que o definiu, sem falhas, até que o escândalo da má conduta sexual de Weinstein e algumas gafes despercebidas redefiniram a persona de Matt Damon que há muito aceitamos.

O negócio é o seguinte, aquela persona foi fortemente produzida com base em uma nostalgia coletiva para um astro que, como nós, carrega mochilas por aí e veste jeans. A ascensão de Damon até a fama foi tão simples e clara que ele nunca teve que atualizar sua imagem mesmo com as mudanças dos tempos – e é exatamente por isso que agora estamos nos perguntando o quanto não sabíamos sobre o Sr. Matthew Paige Damon.

TIMOTHY A. CLARY via Getty Images
Ben Affleck and Matt Damon accept their awards for Best Original Screenplay at the 1998 Oscars.

Para entendermos a persona de Matt Damon, precisamos considerar a onipresença da imagem impecável das celebridades.

Qualquer celebridade conceituada representa um ideal distinto que diz como nos identificamos – ou ao menos invejamos – a elas e o que as faz uma marca comercializável. Normalmente, essa imagem nasce da primeira coisa que lhes trouxe fama, embora nada se solidifique sem a ajuda de agentes experientes e publicitários. Uma imagem pode ser reformulada ou refratada (alterada) com o tempo, mas nunca perde totalmente suas origens.

Audrey Hepburn continua rebocada nas paredes de quartos de dormitórios como a personificação de beleza elegante, clássica. Viola Davis ficará marcada para sempre num confronto de roubo de cena no filme Dúvida com Meryl Streep. Até quando Tom Cruise faz estranhezas como De Olhos Bem Fechados e Magnólia ele continua sendo o energético herói de sucesso.

Winona Ryder pode estrelar em superprodução da Netflix, mas ela sempre será a estranha irritada que conhecemos em Beetlejuice e Eduardo Mãos De Tesoura. Warren Beatty pode ter sossegado com Annette Bening, mas apenas como crítica aos seus anos de fama como sedutor.

Dito isso, poucas estrelas hollywoodianas conseguem ser bem aceitas com uma imagem que é claramente tão bem definida ou tão querida quanto a de Matt Damon, que é grande parte do porque ele não mudou muito em nossa visão com o passar dos anos.

Reexaminando reportagens do fim da década de 90 sobre Damon, todas o tinham rotulado como um novato trabalhador e determinado que se tivesse qualquer esperança de seguir carreira nos filmes, ele mesmo teria que escrever um.

Aquela narrativa de coragem foi solidificada com o discurso de arregalar os olhos que ele e Affleck fizeram no Oscar. A fala fez o daquele evento a maior audiência da história do Oscar, no ano em que Titanic concorria.

A história é a seguinte: após abandonar a faculdade de Harvad em 1992, Damon lutou por papeis. Na tentativa de ganhar suas credencias de ator sério, ele perdeu 18 quilos para um papel coadjuvante no drama de 1996, Coragem Sob Fogo."

Enquanto isso, cansou de ir a intermináveis audições como em As Duas Faces De Um Crime, Primal Fear, Batman & Robin, além de ler os scripts que Cris O´Donnel e Leonardo DiCaprio haviam dispensado.

Para a sorte dele, Francis Ford Coppola quis selecionar um desconhecido para o filme de 1997, O Homem Que Fazia Chover, bem na época em que tais adaptações de John Grisham eram bilheteria de ouro garantidas.

Damon e Affleck já tinham vendido o roteiro de Gênio Indomável para a Miramax, mas o progresso estagnou enquanto Weinstein, o senhor tempestuoso da companhia de distribuição, guerrilhava sobre qual diretor contratar e colocar Damon e Affleck à frente de atores como DiCaprio e Brad Pitt.

Mas no momento em que Damon conseguiu o papel em O Homem Que Fazia Chover, tudo mudou. Westein "arriscou" nos meninos "caçadores", e então rapidamente Damon foi conseguindo vários outros projetos quentes como O Resgate Do Soldado Ryan, Dogma e O Talentoso Ripley.

Juntos, esses 4 filmes formam um dos mais promissores avanços no cinema moderno, uma mistura perfeita do apelo comercial e prestígio do cinema independente.

De repente Damon estava experimentando ternos da Calvin Klein que ele nunca imaginou vestir; almejando o tipo de carreira que Ed Harris tinha; atraído pela fantasia de salários de US$10 milhões (em 2004 ele teria recebido US$26 milhões pela primeira seqüência de Jason Bourne); abstendo-se de citar Forrest Gump ao encontrar Tom Hanks; aparecendo em tabloides pelos relacionamentos com Winona Ryder, Minnie Driver e Gwyneth Paltrow; contando para Oprah que dormiu em um colchão de ar do Walmart depois de sua vitória do Oscar; sorrindo sobre o quanto era sortudo; seduzindo a mídia que continuamente escrevia sobre seu sorriso matador, seu visual atraente, o seu vestuário simples, e maneiras exemplares.

Essas coisas sozinhas não impressionam muito. A maioria dos recém-chegados hollywoodianos vêm com alguma versão de um conto de forasteiro, e nada nos leva a crer que a ingenuidade de Damon não era autentica.

Mas Weinstein, que estava encontrando sua própria posição como guru da campanha de premiação mais implacável da temporada, levou a carreira de Damon um passo a diante, o apresentando como um ideal platônico de uma pessoa comum, empreendedor liberal que prova como a maquina de celebridades de homens brancos funciona bem.

No livro revelador de Peter Biskind Down and Dirty Pictures, Weinstein é citado por levar Damon e Affleck a fazer parte da "família Miramax", um pequeno grupo de talentos que Weinstein conduziu á fama e os transformou em seus porta-vozes (outros membros: Gwyneth Paitrow, Quentin Tarantino, Kevin Smith).

Logo, Weinstein estava arrastando Damon para o Camp David para conhecer o Presidente Bill Clinton e a primeira dama Hilary Clinton. (Apenas os bons conhecem o chefão!)

Mais tarde, quando Damon sentiu que já havia feito aparições na mídia e tirado fotos suficientes para promover Gênio Indomável, Weistein pressionou ele para fazer mais, apesar de dizer ao USA Today em 1999 que "para Matt não se trata de fama."

Foi no começo dos anos 2000 que o prestígio de Damon se tornou aparentemente indestrutível.

Até algumas falhas significativas – como Lendas da Vida, dirigido por Robert Redfort, e Espírito Selvagem, da Miramax, dirigido por Billy Bob Thornton– não conseguiram diminuir aquela primeira introdução. Não doeu quando Affleck, seu parceiro de jornada com quem Damon ainda era habitualmente associado, fez com que ele parecesse impecável quando comparados

Entre os anos de 1998 e 2001, Affleck fez sucesso com Armagedon, Forças do Destino, Mais que o Acaso, Jogo Duro e Pearl Harbor – uma sequência brilhante, em se tratando de popularidade.

Mas a atenção teve um efeito contrário: entre os anos de 2001 e 2005, Affleck foi para um centro de reabilitação por causa do abuso de álcool, teve que aguentar um término de namoro com Jennifer Lopez escancarado nos tabloides, estrelou em uma série de decepções de críticas e comerciais (incluindo o famigerado Contato de Risco), ficou conhecido no reservado mundo do poker e chamou sua vida de "um desastre de trem em câmera lenta" durante um monólogo no Saturday Night Live.

Enquanto a reputação de Affleck afundava, Damon Conseguia a trilogia Onze Homens e Um Segredo e encabeçava a série sem fim de Bourne. Ele casou-se com uma não celebridade em 2005, e conseguiu outra indicação ao Oscar com o drama de 2009 Invictus. Ao mesmo tempo, continuava presente na mídia.

Mesmo com seu salário tendo superado os cofres do Miramax, ele ainda estava inscrito no livro de regras de Weinstein: encontre o ponto ideal entre o cinema sério e os atacados que agradam o público, e então blá, blá, blá. "Matty e Ben são duas pessoas que Harvey luta todos os dias de sua vida para manter no negócios", disse Kevin Smith a Biskind.

O fato de Damon não precisar mais fazer parte da "família" Weinstein fez com que ele parecesse legal, e ainda a Persona de Matt Damon permaneceu algo da produção de Weinstein.

A Miramax pagou ao ator "muita grana" por uma breve aparição na comédia de 2001 do Smith, O Império do Besteirol Contra-Ataca. Weinstein queria colocar Damon no cartaz e incluí-lo nos anúncios da TV, mas de acordo com Down and Dirty Pictures, Damon mandou ele não fazer isso. Sabendo comercializar seu valor, o ator quis que sua aparição no filme fosse surpresa.

Weinstein supostamente havia concordado até o último minuto, quando decidiu que precisava dele para impulsionar os negócios. Ele chamou Damon, disse a ele que a notícia de sua participação especial havia vazado e o adicionou na publicidade – reforçando a ideia de que esse artesão que escrevera um roteiro ganhador do Oscar era amável o bastante para aparecer em algo tão frívolo como O Império do Besteirol Contra-Ataca.

E vem continuando ao longo dos anos recentes: Matt Damon é tão gentil e tão famoso que ser o traseiro de uma piada do desbocado Jimmy Kimmel é um distintivo de ouro!

Ele fundou uma organização sem fins lucrativos para que países em desenvolvimento possam ter acesso a água limpa! Ele é porta voz de uma organização para acabar com a fome! Suas sensibilidades liberais permitiram a ele andar por aí com Barack Obama!

Mas em 2015, a Persona de Matt Damon começou a mostrar rachaduras, uma depois da outra.

Durante uma troca controversa no seu reality show da HBO, o Project Green Light, ele interrompeu uma produtora negra para dar a entender que diversidade atrás das câmeras é irrelevante. A internet entrou em erupção com acusações de whitesplaining (whitesplaining se dá quando uma pessoa branca explica ou comenta algo sobre negros ou racismo de uma maneira muito confiante ou simplificada, da perspectiva do grupo que ele se identifica, no caso, o grupo dos brancos) e mansplaining (mesmo conceito relativo a homens falando sobre mulheres ou feminismo).

Duas semanas mais tarde ele sugeriu por alto que atores gays deveriam ficar no armário, pois assim manteriam um certo "mistério." E alguns meses depois disso, ficou sob tiroteio por não entender as acusações de whitewashing (escalação de brancos em papéis que deveriam pertencer a outras etnias ou a decisão de colocar sempre um personagem branco como herói) jogadas no filme A Grande Muralha, em que mercenários europeus descem sobre a China para lutar contra um enxame de criaturas monstruosas.

Mas isso não foi suficiente para quebrá-lo. Um artigo de julho de 2016 dd GQ ainda fez uma comparação dele com o maior bom moço Jimmy Stewart. "Matt Damon é, cientificamente, o homem mais querido em Hollywood," estava escrito na primeira sentença.

Então Weinstein reapareceu na cena no final de 2017, e a Persona de Matt Damon foi de rachada para quebrada.

Após a publicação feita pelo jornal The New York Times de várias acusações de casos de assédio sexual contra Weinstein, provocando sua demissão, a ex-repórter do Times, Sharon Waxman disse que Damon em 2004 havia lhe contatado para defender um dos cúmplices de Weinstein, o que fez sua investigação ir por água a baixo.

Mesmo com Waxman confirmando as alegações de Damon de que ele não tinha nenhum conhecimento sobre os assédios de Weinstein, o ator falou besteira.

"Eu acredito que existe um leque de comportamento," ele disse em uma entrevista com o crítico de cinema Peter Travers. "E nós vamos ter que determinar – você sabe, existe uma diferença entre, você sabe, dar um tapinha no traseiro de alguém e estupro ou abuso sexual de menores, certo? Ambos os comportamentos precisam ser confrontados e erradicados sem sombra de dúvida, mas não deveriam ser associados, certo?"

Não que Damon esteja errado, por si só, mas seu tom sarcástico atingiu o nervo central do movimento #MeToo (Eu Também). E ele foi além, pegando leve com o suposto assediador Louis C.K. dizendo: "Eu imagino que o preço que ele pagou neste momento está muito além. Só acho que meio que precisamos começar a descrever melhor quais são esses comportamentos."

No mínimo, isso refletiu seus privilégios de homem branco rico, coisa que ninguém comentou enquanto Damon caminhava para o topo da fama juntamente com a assistência de Weinstein.

O ator logo se viu pedindo desculpas no Today show: "Eu realmente gostaria de ter ouvido muito mais antes de me pronunciar a respeito. Enfim, não quero causar mais sofrimento a ninguém com nada que eu possa vir a dizer ou fazer. Sinto muito mesmo por isso. Muitas dessas mulheres são queridas amigas minhas e eu as amo e as respeito e apoio o que elas estão fazendo. Eu quero fazer parte dessa mudança e quero ir junto nessa caminhada – mas devo ficar no banco traseiro e calar minha boca por um tempo."

Calar a boca por um tempo foi uma boa ideia.

Mas com a era da internet, pedidos de desculpas e esclarecimentos estão ficando cada vez mais difíceis de serem esquecidos, pois ciclos infinitos de manchetes e tweets podem redefinir a imagem de alguém num piscar de olhos.

Será que Damon vai se recuperar desses erros? Claro, provavelmente. Mas agora seu poder de bilheteria está em fluxo.

Em outubro, a sátira racial mal orientada Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso, dirigida por George Clooney, foi estripada pelos críticos e ignorada pelo público. Em dezembro, Pequena Grande Vida, a desapontante dramédia de Alexander Payne, que antes parecia ser um concorrente ao Oscar, vendeu mais ou menos. O único projeto futuro nos registros de Damon é a frente feminina de 11 Homens e Um Segredo, do qual ele não é o centro das atenções. Na verdade, cerca de 30.000 pessoas assinaram uma petição on-line para tirá-lo do filme por conta de seus comentários sobre assédio sexual.

E aí está o bumerangue que a máquina de fazer estrelas é. Weinstein ajudou na criação da persona de Matt Damon e sem querer também ajudou a manchá-la.

O cartão de visitas de Damon, virou-se contra ele: ele era tão pouco intelectualizado que realmente não pensou de forma crítica a respeito da política racial de gênero ou o que significa para figuras públicas assumir sua sexualidade.

Na minha opinião, a conversa não é se o tempo de Damon em Hollywood deva chegar ao fim. Todos nós estamos aprendendo como remodelar as dinâmicas do poder patriarcal que governaram a sociedade por tempo demais.

Em vez disso, o que Damon comprova é o quão falível o mecanismo da celebridade é. Imagens hollywoodianas são construídas em coordenadas implícitas entre chefes de estúdios, publicitários calculistas, uma mídia em constante evolução e a sede do público por estrelas que ofereçam algum tipo de mistura mágica do confiável e do aspiracional.

Não importa o quanto achamos que conhecemos de uma pessoa famosa, sempre vai existir uma qualidade artificial naquilo que ele ou ela apresenta para o mundo – uma que não cabe dentro de mochilas do Wallmart.

Este texto foi publicado originalmente pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

CORREÇÃO: Uma versão anterior dessa história indicava o divórcio de Ben Affleck e Jennifer Lopez. Na verdade, eles nunca foram casados.

Photo galleryCelebridades reagem à Harvey Weinstein See Gallery