08/03/2018 03:09 -03 | Atualizado 09/03/2018 00:15 -03

Nildes Nery, a 'mãe' na Cracolândia: A mulher que doa a vida para ajudar viciados em crack

Há 14 anos, pastora se dedica a criar vínculos com usuários de drogas no centro de São Paulo.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Nildes Nery dedica a vida à atenção de dependentes químicos.

Parecia que o tempo para isto já tinha passado. Mas ao que tudo indica, o ditado pode ser verdadeiro: nunca é tarde. Aos 51 anos, a pastora Nildes Nery voltou para a sala de aula — como universitária. A primeira da sua geração de 25 irmãos. Filhos de mãe solteira e analfabeta, nenhum tinha feito faculdade. Até agora.

"Está sendo algo muito especial na minha vida. Era uma lacuna que precisava ser preenchida, ninguém na minha geração é formado. Alguns fizeram até o ensino médio, outros não estudaram. Sou filha de mãe solteira; minha mãe é uma guerreira, tem 87 anos e morro de orgulho dessa mulher. Nos criou sem pai, nem conheci meu pai, e minha mãe não sabe ler nem escrever. É um orgulho muito grande. Minha mãe fez tudo sozinha."

Com essa mulher como exemplo, fica fácil entender a força de Nildes. Ao passar pela praça Júlio Prestes, no centro de São Paulo, entre centenas de usuários de crack, é possível ouvir chamados de "mãe" diversas vezes. Todos direcionados a Nildes.

Nunca usei droga, mas consigo me colocar no lugar deles [usuários de crack], trato como seres humanos, me chamam de mãe. Eles buscam em mim o que não tiveram lá atrás.

Ela retribui com um largo sorriso, acenos e carinho. Há 14 anos é o que ela faz. "Vou pro meio deles, é o meu trabalho criar vínculo, dar um abraço, falar com eles. Isso sou eu. Nunca usei droga, mas consigo me colocar no lugar deles, trato como seres humanos, me chamam de mãe. Eles buscam em mim o que não tiveram lá atrás. É o que eu amo, não me vejo fazendo outra coisa a não ser estar aqui estendendo minha mão para ouvi-los."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Há 14 anos, a pastora estende a mão para usuários de crack no centro de São Paulo.

Nascida na Bahia, mudou para São Paulo em 2004 junto com o marido, também pastor, e as duas filhas – hoje adultas, com 28 e 23 anos. O casal chegou para coordenar uma base missionária na cidade. E acabou fazendo muito mais do que isso; em 2007, criaram a ONG Ação Retorno. "Vim pela igreja, mas não foi a igreja que fez esse trabalho. Quando eu olhei aquele povo falei, que era um problema meu e eu precisava fazer alguma coisa." E fez.

Ao longo desse tempo, além do trabalho diário de acolhimento e criação de vínculo na Cracolândia, Nildes adotou dois filhos de usuários. Rafael está com 13 anos e mora com a pastora desde os 4; Cauã tem 8 anos e está com ela desde os quatro meses.

"O Rafael peguei na Galeria do Rock. Eu fazia trabalho à noite, entregava lanche e falaram que não sabiam o que fazer com ele, que o pai tinha saído para roubar e não voltou. Falaram pra eu ficar 'só por hoje'. Fui ficando e descobri que o pai estava preso. Fui lá na cadeia. Nunca tinha entrado em um presídio. Quando cheguei ele começou a chorar, falou que tinha feito uma loucura e pediu para entregar o filho para mãe dele. Procurei, mas ela trabalhava em um prostíbulo, e o cafetão não aceitou a criança. Hoje ele é legalmente adotado, tem meu sobrenome, igual o das irmãs."

Com o mais novo, a relação de Nildes era com a mãe do garoto. "Adotei ele e a mãe. Ela tinha 14 anos, engravidou na Cracolândia, o marido foi preso. A família não quis saber dela e aceitei o desafio de cuidar dos dois e coloquei na minha casa. Um dia ela saiu e não voltou mais."

Ouvi muito 'não', muita gente falando que não vale a pena [ajudar], que é enxugar gelo, que esse povo não quer nada com nada, que estava perdendo meu tempo. Ouvia e ouço ainda. Mas bato de frente com isso.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A pastora já fez diversos trabalhos sociais pela igreja, mas também enfrentou dificuldades.

Apesar das dificuldades, Nildes sempre persistiu com seu trabalho. Chegou a pensar em desistir, é verdade. "A maior dificuldade era não ter recurso e apoio. Ouvi muito 'não', muita gente falando que não vale a pena, que é enxugar gelo, que esse povo não quer nada com nada, que estava perdendo meu tempo. Ouvia e ouço ainda. Mas bato de frente com isso."

Mas também teve gente que estendeu a mão para que ela continuasse sua jornada. "Em 2012 fiquei até sem casa porque eu morava em um lugar da igreja e, quando eles não quiseram mais nosso trabalho, fiquei sem casa, sem emprego, sem salário. Mas um casal veio de Chicago visitar uma ONG de uma amiga que falou do meu trabalho. Eles foram conhecer, eu estava em um desespero e eles perguntaram o que precisava para continuar, e eu disse que nem tinha onde morar. Os dois falaram que iam adotar a gente. Eles adotaram por cinco anos com o aluguel da nossa casa."

Nunca me pediram nada demais, nada que eu não pudesse ajudar.

Hoje, Nildes trabalha em uma empresa que presta serviço para o governo do estado de São Paulo e coordena uma equipe de conselheiros que atua na Cracolândia abordando os usuários de drogas e aos fins de semana se dedica a sua ONG, mantida por doações.

No ano passado, ganhou uma bolsa de estudos da firma para estudar Serviço Social. Não poderia estar mais satisfeita e certa de que está no lugar certo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Nildes Nery ganhou bolsa de estudos para faculdade de serviço social.

"Em 14 anos, nunca me pediram nada demais, nada que eu não pudesse ajudar. É muito difícil o que eles passam e não conseguem sair [do vício] sem um tratamento; tem que querer. Muitas vezes eles não querem. Por isso precisam da gente, de anjinhos que mostram que se importam com eles", define Nildes com aquele mesmo sorriso que ela dá ao retribuir os chamados de mãe que recebe na rua.

Ela sabe que as pessoas do fluxo precisam de um coração onde sempre vai caber mais um.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil

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