ENTRETENIMENTO
08/03/2018 16:21 -03 | Atualizado 08/03/2018 16:21 -03

‘Jessica Jones’: 2ª temporada se aprofunda na escuridão da personagem

Após dois anos e meio, está de volta a perfeita (anti-)heroína para a era do #MeToo.

David Giesbrecht
‘Que estuprador de sua parte’, diz a personagem a um homem insistente.

A câmera fotográfica de Jessica Jones mira em um jovem entregador de pizza à porta de uma cliente. Ao abri-la, a mulher o agarra e beija — nisso, a protagonista tira fotos de ambos e logo em seguida as mostra para a dona da pizzaria, que provavelmente também é esposa do rapaz. Ela começa a chorar. "Dureza. Aceito dinheiro ou cheque", diz Jessica, secamente. A mulher pede à personagem que o mate. Ela se nega a fazer isso. A conversa fica tensa. Termina com Jessica amassando o encosto de metal de uma cadeira com a mesma facilidade que você amassaria uma latinha de Coca-Cola.

Vivida por Krysten Ritter, a personagem-título da série NetflixMarvel volta para uma segunda temporada quase dois anos e meio após estrear e, logo de cara, cativar milhões de espectadores, o que é bastante revelador a respeito da personagem.

Jessica Jones é beberrona, rabugenta e temperamental, mas os fãs devem ter se identificado de alguma maneira com o que há sob isso tudo. Jessica é alguém com sérias dificuldades de se conectar à outras pessoas, está presa a traumas e parece estar revoltada o tempo todo.

"Ela ainda está bastante puta, bebendo e sendo tão cuzona quanto sempre — do jeito que nós gostamos dela", contou a atriz ao Rotten Tomatoes. "A personagem reverbera entre as mulheres em todo lugar, sejam outras sobreviventes de abuso ou apenas mulheres empolgadas por ter uma personagem feminina durona que não é loira e linda. Eu sinto isso na rua, então é bastante gratificante para mim."

No aguardadíssimo novo ano da série, a personagem se vê em uma situação inusitada. No final da primeira temporada, ela quebra o pescoço de Kilgrave (David Tennant), seu abusador e estuprador do passado, e em Os Defensores, se une a Luke Cage, Punho de Ferro e Demolidor em uma tentativa de impedir uma catástrofe em Nova York. Agora ela é conhecida na cidade; as pessoas a confundem com "super-vigilante" e "heroína", embora tudo que ela queira é continuar isolada, em seu trabalho como investigadora particular.

No entanto, ela é importunada por sua irmã adotiva, a apresentadora de rádio Trish Walker (Rachael Taylor), que tenta convencer Jessica a investigar, desta vez, outro fantasma de seu passado que não seja Kilgrave: a origem de seus superpoderes. Na infância, os pais e o irmão mais novo da protagonista foram mortos no acidente de carro que fez Jessica passar 20 dias em coma. Ao acordar, ela tinha força sobre-humana.

David Giesbrecht
Ritter e McTeer em cena da nova temporada.

A empresa IGH, sobre a qual Trish consegue coletar informações, está por trás disso — e, provavelmente, a misteriosa personagem da inglesa Janet McTeer (indicada ao Oscar por Albert Nobbs e Livre para Amar) também. Está aí o novelo a ser desenrolado pela detetive. A princípio, ela se nega (como sempre), mas incidentes a fazem repensar sua posição.

Jessica Jones, criada em 2001 por Brian Michael Bendis (texto) e Michael Gaydos (desenho), parece ser a personagem de ficção perfeita para os tempos atuais. Sem receios de ser desagradável a respeito do que pensa ou sente, ela sobrevive a uma série de abusos nas mãos de Kilgrave, um sujeito cujo superpoder é capaz de ter absoluto controle mental sobre qualquer pessoa. Jessica passou um ano sob comando dele — um período no qual foi estuprada, manipulada e matou a esposa de Luke Cage. O saldo disso é transtorno de estresse pós-traumático e uma carga ainda mais pesada de culpa e ressentimento.

Entre a estreia das temporadas um e dois, muita coisa aconteceu. Donald Trump foi eleito. Um movimento sem precedentes fez mulheres batalharem com ainda mais vigor por igualdade em Hollywood. Uma onda de denúncias de abuso sexual de ginastas rendeu em décadas atrás das grades ao ex-médico Larry Nassar.

"Nós escrevemos a segunda temporada durante a eleição Trump/Hillary e eu estava tão irada", disse a roteirista Melissa Rosenberg, criadora e produtora-executiva de Jessica Jones, ao New York Times.

"Falamos constantemente sobre como os personagens que têm tentado ser bacanas há tanto tempo finalmente dizerem 'sai do meu caminho!', explorando a raiva que Hillary devia sentir todo dia."

David Giesbrecht
No novo ciclo de episódios, Jessica investiga algo que até então evitava ao máximo: seu próprio passado.

Não à toa, nesta temporada todos os episódios são dirigidos por mulheres. Rosenberg, que antes trabalhou na série Dexter (Showtime) e nos filmes da saga Crepúsculo, contou ao jornal que nunca foi sua intenção transformar Jessica Jones em um "tratado" sobre mulheres e política.

"No processo de cavar essa personagem problemática porém forte, nós nos encontramos cavando temas também. No entanto, isso sempre vem do processo de explorar a personagem. Foi nossa maneira de entrar na raiva de Jessica, viver a minha própria e de todos nós na sala de roteiristas."

A detetive não é a única personagem com os nervos expostos. Trish, depois de ser atacada pelo policial Will Simpson (Wil Traval), aprende artes marciais e continua se coçando para tomar frente de alguns imbróglios na vida da irmã. Malcolm Ducasse (Eka Darville), antes um dependente químico jogado em um apartamento vizinho ao de Jessica, agora está sóbrio e insiste em ser o ajudante e aprendiz da investigadora. A advogada gélida e bem-sucedida Jeri Hogarth (Carrie Anne-Moss) recebe um prêmio pelo que representa para mulheres na profissão, mas há sujeira sob seu tapete.

O humor, que ganhou tons mais sombrios, reflete a angústia relatada por Rosenberg. No primeiro episódio, um desconhecido que insiste em comprar a Alias, a agência de investigações da detetive, diz a ela que "não aceita 'não' como resposta". Jessica retruca: "que estuprador de sua parte". E toca o homem para fora.

Jessica Jones pode não ser uma super-heroína como o Homem-Aranha ou Capitão América, mas chegou no momento certo — aquele no qual é necessária.

Com 13 episódios de aproximadamente uma hora de duração cada, a segunda temporada estreia nesta quinta-feira (8). Assista ao trailer: