08/03/2018 00:07 -03 | Atualizado 08/03/2018 08:08 -03

Jout Jout, a voz dos troços e obviedades que todas nós sentimos

“Quando você junta [outras mulheres] e divide sua experiência, isso dá força. A gente vai juntas e, juntas, a gente vai mais forte”, conta a youtuber em entrevista exclusiva.

Jout Jout é a mulher número 1 do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.
Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Jout Jout é a mulher número 1 do projeto "Todo Dia Delas", que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil.

Ela fala de uns troços. Vários troços. Olho no olho, com os cachos em um coque meio preso, meio solto. Pode ser ali na cozinha, na mesa de madeira que era da mãe. Às vezes de pijama mesmo, de roupão. Do jeito que estiver. Do jeito real.

Julia Tolezano, 26 anos, a Jout Jout Prazer, conversa com você.

"Sou eu ali falando o que quero falar naquela hora, e fica uma sensação de que estamos conversando no café da manhã. Acho que é isso... As pessoas ficam com essa sensação de café da manhã", resume Jout Jout sobre o sucesso de seus vídeos e a experiência de quem acompanha seu trabalho. Ela chega a essa definição com um sorriso suave no rosto, sentada em uma cadeira de praia na lavanderia de sua casa em São Paulo, outro local em que muitos vídeos são gravados.

E nesse "café da manhã" rola muita coisa desde maio de 2014, quando Jout Jout começou sua atuação no YouTube. Hoje ela é uma influenciadora digital — são mais de 1,5 milhão de inscritos em seu canal, mais de 1 milhão de seguidores no Instagram e mais de 800 mil em comunidade no Facebook.

Comecei a falar de uns troços que não estavam falando, mas estavam sentindo. E quando uma fala, todas falam. Quando uma fala, todas sentem que podem falar.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Jout Jout sobre a experiência de seus seguidores com os vídeos dela: "Fica uma sensação de que estamos conversando no café da manhã".

Pode parecer simples, mas falar uns troços por aí mexeu com muita gente e, principalmente, mexeu e passou a ajudar muitas mulheres. Jout Jout virou um ombro amigo. Uma voz que fala sobre desafios que as mulheres enfrentam – desde os mais corriqueiros aos mais complexos. "Eu tive um timing bom na internet sem saber e comecei a falar de uns troços que não estavam falando, mas estavam sentindo. E quando uma fala, todas falam. Quando uma fala, todas sentem que podem falar."

Ocupar esse lugar acabou sendo espontâneo para Jout Jout. "Eu estava fazendo meus vídeos e começaram a falar que eu era feminista... Falavam 'vai estudar, você é feminista' e fui estudar e falei 'nossa, sou mesmo'. É engraçado porque todos os meus vídeos são sobre feminismo, mas nenhum é sobre isso, e ele está em tudo. Não tem como... Vou fazer um vídeo sobre comprar comida, por exemplo, e vai entrar o feminismo ali de algum jeito." Assim, levantando e discutindo algumas questões cotidianas mesmo, Jout Jout conseguiu criar uma forte e fiel rede de seguidores e de apoio.

O vídeo "Não Tira o Batom Vermelho", publicado em 2015, em que ela fala sobre relacionamentos abusivos, foi o primeiro grande exemplo dessa atuação. Com mais de 3 milhões de visualizações, ajudou mulheres – e homens também – a perceber que estavam nessa situação. "Você fala sobre relacionamento abusivo e as pessoas têm vergonha de falar que estão em um, mas veem nos comentários do vídeo as pessoas falando que passaram por isso e pensam: 'graças a Deus que tem mais alguém'."

Se você sente que está sozinha e só você vive aquilo, só você tem aquela realidade, você fica mais vulnerável. Quando você junta [outras mulheres] e divide sua experiência, isso dá força. A gente vai juntas e, juntas, a gente vai mais forte.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Cheia de anéis, Jout Jout sempre oferece uma mão para suas fãs e seguidoras.

Criar essa identificação acaba trazendo confiança e ajudando muita gente a se aceitar e a lidar melhor com suas questões. Tem ali uma mão — cheia de anéis — estendida para você. "Se você sente que está sozinha e só você vive aquilo, só você tem aquela realidade, você fica mais vulnerável e, quando junta [outras mulheres], você divide sua experiência e vê gente que compartilha daquilo e isso já relaxa e depois dá uma força. Dá um gás, a gente vai juntas e, juntas, a gente vai mais forte."

E a força do seu trabalho também está em desconstruir padrões e questionar algumas regras sociais de como viver e se comportar. "É o tempo todo [gente] falando que não pode... E não pode por quê? Você está ali vivendo e de repente pensa que não pode fazer alguma coisa e aí você não faz. Acho que o exercício é pensar 'por que não pode?'. Às vezes você pensa e faz sentido. Mas não pode falar palavrão porque você é menina? Para e pensa que pode e aí fala: caralho. Toda vez que vem 'não pode' tem que pensar."

Foi assim que Jout Jout sempre fez. O fim de seu namoro com Caio, que continua seu parceiro de trabalho, traduz o que ela pensa. Os dois continuaram amigos após o fim do relacionamento, em 2016, e isso ainda surpreende os fãs e seguidores da youtuber. "Perguntam como a gente consegue, falam que somos evoluídos... As pessoas já partem do princípio que elas não vão conseguir. Que palhaçada é essa? A gente também tem esse padrão... Terminou namoro tem que afastar, não vai dar certo. Acho que as pessoas se subestimam. Viu em alguma novela que era difícil? Nos filmes parece difícil ser amigo do ex-namorado? Vai lá e vê o que você acha."

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Em casa, cercada de plantas, Jout Jout nega ser boa em redes sociais, apesar de trabalhar com elas.

Quão revolucionária estou sendo se metade dos brasileiros não está me ouvindo?

Apesar de ser acompanhada por milhões de seguidores toda semana, Jout Jout se sente confortável com o quanto compartilha sobre seu dia a dia e intimidade. "Não me sinto exposta porque não fico falando tanto da minha vida... O que 'me dou' é ali no vídeo e vamos nos contentar com isso porque eu não sou boa de redes sociais, apesar de trabalhar com isso. 'Não sou boa de redes sociais, disse a youtuber Jout Jout.' (risos)"

E será que ela pode se arriscar em outra plataforma? A influenciadora respira fundo com a pergunta, fica em silêncio por uns bons segundos e não descarta ir para a TV. "Se fizer sentido, iria. Metade da população brasileira não tem acesso à internet. Vou fazer meu rolê onde metade do Brasil nem consegue me acessar? Quão revolucionária estou sendo se não estão me ouvindo?"

Pode não ser o Brasil todo, realmente, mas é bastante gente. E Jout Jout nem pensa que tem tanto mérito assim. Para ela continua aquela coisa de conversa boa no café da manhã. "Acho que não sou uma pessoa com ideias inovadoras, acho que falo obviedades, que as pessoas já sabem, mas elas esquecem porque a gente é orientada a esquecer. Aí eu falo e a pessoa pensa: 'nossa, total'. Acho que sou uma alertadora. Falo: 'ei gente, vamos voltar aqui'."

Com sorte, depois desse café, até a hora do almoço, muita gente vai ter voltado. Ou pelo menos pensado melhor sobre uns troços. Uns troços aí que todos sentimos.

Caroline Lima/Especial para HuffPost Brasil
Com bom humor, Jout Jout diz que seu mérito é falar apenas obviedades que foram esquecidas pelas pessoas.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Diego Iraheta

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil