POLÍTICA
05/03/2018 12:45 -03 | Atualizado 05/03/2018 19:56 -03

O 1° dia de aula do ‘golpe de 2016’ na UnB

UnB troca sala de ‘disciplina do golpe’, mas professor chama de ‘alvoroço artificial’

Protesto contra o impeachment de Dilma Rousseff em setembro de 2016.
NurPhoto via Getty Images
Protesto contra o impeachment de Dilma Rousseff em setembro de 2016.

No 1º dia de aula da disciplina que chama o impeachment de Dilma Rousseff de golpe, a UnB (Universidade de Brasília) tomou medidas de segurança para prevenir eventuais perturbações. A sala destinada para a matéria foi trocada e o professor responsável, Luis Felipe Miguel, deixou claro que quem não estava matriculado não poderia ouvir a aula.

"A UnB não contempla a possibilidade de aluno que não esteja regularmente matriculado. Não existe a categoria aluno ouvinte", afirmou o professor no início da aula na manhã desta segunda-feira (5). A reportagem não pôde acompanhar a aula. De acordo com Luis Felipe Miguel, há uma preocupação da universidade para que as aulas ocorram da maneira "mais tranquila possível".

Ao final da aula, abordado pela imprensa, o professor não quis comentar o assunto. "Isso é um alvoroço artificial e vou dar minha aula normalmente como sempre fiz", afirmou. Nas redes sociais, Luis Felipe chamou a reação à disciplina de "ameaça de censura".

De acordo com relatos de alunos matriculados, o professor fez a chamada perguntando a cada pessoa o nome e pediu que a aula não fosse gravada "por questões de segurança". Ele disse ainda que a ementa (resumo que descreve a disciplina) foi "deturpada".

O clima da primeira aula foi tranquilo e o conteúdo se resumiu a apresentar conceitos históricos do que é um golpe. Estudante de História, Aline Nóbrega, 34 anos, disse que a turma participou pouco e que não houve qualquer tumulto. "O professor deixou bem à vontade para qualquer tipo de oposição de pensamento até no sentido de avaliação mesmo", afirmou. A matéria terá 5 avaliações.

Ministro da Educação é investigado por Comissão de Ética

Após a divulgação do conteúdo da disciplina, o ministro da Educação, Mendonça Filho, solicitou à AGU (Advocacia-Geral da União), ao TCU (Tribunal de Contas da União) e ao MPF (Ministério Público Federal) apuração de improbidade administrativa no caso da disciplina chamada "Tópicos Especiais em Ciência Política 4: O golpe de 2016 e a democracia".

Em reação, a Comissão de Ética da Presidência abriu processo contra Mendonça, após denúncia feita pelo ex-reitor da UnB José Geraldo Sousa. De acordo com a UnB, a universidade não foi notificada sobre uma eventual apuração de improbidade administrativa.

A ementa proposta pelo professor teve o aval do Instituto de Ciência Política (Ipol). Em nota, o instituto afirmou que as unidades acadêmicas têm "autonomia para propor e aprovar conteúdos, em seus órgãos colegiados". "Além disso, a referida disciplina é optativa, não integrando a grade obrigatória de nenhum curso. A UnB reitera seu compromisso com a liberdade de expressão e opinião - valores fundamentais para as universidades, que são espaços, por excelência, para o debate de ideias em um Estado democrático", diz o texto.

Universidades públicas na Bahia, Amazonas, Paraíba e em Campinas também decidiram ofertar disciplinas similares.

Segurança na disciplina do golpe

Prevista para ser ministrada no Pavilhão João Calmon, no campus Asa Norte, a aula foi transferida para o prédio do Instituto de Ciência Política, em frente. Os alunos foram informados da mudança por meio de um e-mail do Ipol, de acordo com uma aluna matriculada.

Segundo a UnB, a sala foi trocada porque o prédio do Ipol abrigaria melhor eventuais protestos, apesar de não ter previsão de qualquer ato nesse sentido. A reportagem não viu qualquer manifestação. A medida foi decidida após reunião na reitoria sobre o tema.

Além de aluno regular, a universidade prevê a categoria de "aluno especial", mas nesse caso é preciso autorização do professor e matrícula na matéria, de acordo com a assessoria de imprensa.

As 50 vagas para a disciplina estavam esgotadas em um primeiro momento, de acordo com o sistema eletrônico da universidade. Outras 40 pessoas estavam na fila de espera, mas na manhã desta segunda, havia 9 vagas disponíveis. De acordo com a UnB, a diferença se deve ao fato de ainda estar na fase de ajuste.

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