MUNDO
05/03/2018 07:00 -03 | Atualizado 05/03/2018 15:15 -03

5 anos da morte de Chávez: O relato de um venezuelano refugiado no Brasil

‘Minha vida na Venezuela antes de Maduro era normal como a de muitos jovens. Sonhava em estudar, trabalhar, ter uma família, como todo mundo.'

Henry Romero / Reuters
Hugo Chávez morreu em 5 de março de 2013.
Todos os dias sonho em voltar ao meu país.

O desejo do jornalista venezuelano Jesus Leonardo Córdoba, 28 anos, é o mesmo de aproximadamente 40 mil venezuelanos que migraram para o Brasil.

O fluxo migratório iniciado em 2015 é apenas uma das consequências da crise na Venezuela, aflorada após a morte de Hugo Chávez, há exatos 5 anos.

Ao ser eleito presidente, em 1998, Chávez adotou políticas de transferência de renda, apoiou programas de inclusão social e conseguiu conquistar enorme popularidade no País. Foi responsável ainda por uma política dura contrária aos Estados Unidos.

Se reelegeu em 2000 e 2006, tendo conseguido superar uma tentativa de golpe em 2002, que o afastou do poder por 3 dias.

A crise econômica que o país vive hoje, sob regime de Nicolás Maduro, teve início em 2009, causada pela queda no preço petróleo, maior riqueza dos venezuelanos.

Maduro, que era vice de Chávez, assumiu o poder em 5 de março de 2013, quando anunciou a morte de Chávez em decorrência de câncer.

Aquele foi o último ano em que o país registrou crescimento na economia. A Venezuela atual está irreconhecível em comparação a que Chávez deixou.

O desencontro de informações e o extremo controle dos meios de comunicação deixam o resto do mundo sem saber exatamente o que acontece no país. Como descreve o jornalista Jesus Leonardo Córdoba, em alguns casos nem os próprios venezuelanos sabiam o que se passava: "enquanto nas ruas estavam tendo gás lacrimogêneo e disparos de armas de fogo, a televisão passavam desenhos".

Ao HuffPost Brasil, o venezuelano Jesus Leonardo Córdoba, 28 anos, que é um dos refugiados acolhidos pela ONG Estou Refugiado, fez um relato sobre o que mudou no país neste período. Leia a íntegra.

"Cheguei ao Brasil dia 26 de outubro do ano passado. Cheguei em condições que chegam muitos venezuelanos em Roraima, apenas com a minha roupa, pouca roupa e poucos artigos pessoais. Lamentavelmente, não tem como construir uma vida profissional agora na Venezuela, é preciso recorrer a imigração organizada ou a uma imigração desorganizada. Uma fuga do País.

Cheguei só com os meus pertences pessoais, pouca roupa, nenhum dinheiro e pouca certeza do que esperar, onde dormir, do que comer. Meu caso não é único, é de muitíssimos.

A primeira noite, na rodoviária de Boa Vista, dormi no chão. Logo consegui um abrigo da ONG Fraternidade Sem Fronteira.

Minha vida na Venezuela antes de Maduro era uma vida normal como a de muitos jovens. Meu sonho e minha expectativa eram estar no meu próprio país, estudar, trabalhar, formar uma família, ter uma casa, filhos, carro, como todo mundo sonha, como todo mundo espera.

Meu sonho e minha expectativa eram estar no meu próprio país, estudar, trabalhar, formar uma família, ter uma casa, filhos, carro, como todo mundo sonha, como todo mundo espera.

Infelizmente, o país estava bem turbulento e as condições não era favoráveis, Quando Chávez morreu e Maduro assumiu o poder começaram vários protestos, isso foi o início de 2014. Aí o governo de Maduro incluiu nas suas políticas o contra-ataque aos protestos que estavam ocorrendo na grande maioria do país. Morreram pelo menos 50 pessoas. Muitas mulheres grávidas com disparos na cabeça. Mortes que nunca foram investigadas, casos que nunca foram resolvidos.

Marco Bello / Reuters
Caracas, capital da Venezuela, em 20 de maio de 2017.

Sabíamos do que ocorria apenas pelas redes sociais porque os meios de comunicação não transmitiam. Enquanto nas ruas estavam tendo gás lacrimogêneo e disparos de armas de fogo, a televisão passava desenhos. O cerco aos meios de comunicação foi muito bárbaro, foi bastante brutal. A partir daí o governo tomou os protestos como uma espécie de desculpa querendo justificar a crise econômica.

Enquanto nas ruas estavam tendo gás lacrimogêneo e disparos de armas de fogo, a televisão passava desenhos.

A crise econômica causada pelo próprio governo, pelo controle de câmbio, pelas políticas adotadas, pelo controle excessivo, controle de preços etc... O salário mínimo subiu em um ano pelo menos 10 vezes, quando a inflação subiu muito mais.

Hoje um salário mínimo na Venezuela compra apenas 2 quilos do melhor arroz. A população que recebe um salário mínimo representa quase 75%. Então, começou a diáspora venezuelana, em Roraima, na Colômbia, em todos os países que fazem fronteira com a Venezuela. Em nosso país não temos as condições mínimas, então chegamos aqui como podemos. Muitos de nós a pé, em carona, em 5 meses, sem beber água, com criança, gente na terceira idade.

Todos os dias sonho em voltar ao meu país, para casa e em estar com meu pai e minha irmã, que estão lá, mas lamentavelmente penso que de alguma maneira tenho que estar aqui. Tenho que melhorar minhas condições de vida, ajudar a minha família sobretudo. E tenho que estar aqui enquanto a situação do meu país não muda, tenho que estar aqui e vou planejar a minha vida pelo menos no curto prazo aqui no Brasil."

Venezuelanos na Colômbia