POLÍTICA
04/03/2018 07:35 -03 | Atualizado 04/03/2018 09:26 -03

Rede se distancia da proposta de nova política em 2 anos de partido

Ex-filiados reclamam de centralização das decisões e de retaliação após posicionamento contrário ao impeachment de Dilma Rousseff.

Mudança de postura de Marina Silva, em relação ao impeachment de Dilma Rousseff, pegou os filiados de surpresa.
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Mudança de postura de Marina Silva, em relação ao impeachment de Dilma Rousseff, pegou os filiados de surpresa.

Um partido que se propôs a renovar a política e furar a bolha das velhas práticas dos caciques partidários. Pouco mais de 2 anos após a Rede Sustentabilidade obter o registro da Justiça Eleitoral, a legenda chega à primeira eleição nacional com um bancada reduzida no Congresso Nacional e críticas às decisões internas da sigla.

Ex-filiados à Rede relataram ao HuffPost Brasil, alguns de forma anônima, dificuldades enfrentadas no dia a dia, como centralização das decisões, aversão ao diálogo com movimentos considerados "satélites do PT" e retaliações a posições de esquerda e a filiados contrários ao impeachment de Dilma Rousseff.

Às vésperas da votação na Câmara, em abril de 2016, a ex-ministra Marina Silva, porta-voz da Rede, declarou seu apoio ao afastamento da petista, mas liberou os parlamentares para votar. A bancada de 4 deputados federais se dividiu. Miro Teixeira (RJ) e João Derly (RS) foram a favor e Alessandro Molon (RJ) e Aliel Machado (PR), contra. Os dois últimos saíram do partido na última segunda-feira (26). No Senado, Randolfe Rodrigues (AM) votou contra o impeachment.

Na avaliação de Samuel Braun, porta-voz da Rede no Rio de Janeiro até setembro de 2017, quando se desfiliou, esse foi um momento crucial de ruptura no partido. De acordo com ele, houve um mudança de postura de Marina Silva que pegou os filiados de surpresa. "Eu vi a Marina falando 'eu sou contra [o impeachment]. Para mim não tem nenhuma prova'. E não teve fato novo nenhum depois", afirmou à reportagem.

Apesar de ser chamada de porta-voz, na prática, Marina exerce a função de presidente do partido. O outro porta-voz, Zé Gustavo, fica com questões administrativas. Já os diretórios são chamados pela Rede de "elos".

Com a influência da ex-ministra, metade do partido passou a apoiar a saída de Dilma em uma reunião interna. De acordo com Braun, antes da fala de Marina, cerca de 80% dos filiados eram contra.

Ex-coordenador executivo nacional de ativismos e movimentos sociais da sigla, Braun conta que após esse processo, o clima ficou insustentável. De acordo com ele, uma parte dos filiados contrários ao impeachment foi "constantemente ofendida em todas as reuniões" e incitada a sair. O relato foi confirmado à reportagem por outros ex-filiados.

Quem lidera esse movimento interno do partido é a Heloísa Helena [presidente da Fundação Rede Brasil, ex-integrante do PT e o PSol]. Ela toma a frente e diz que isso é um 'puxadinho do PT' e outros termos chulos como 'puxador de saco do [ex-presidente] Lula' e isso criou um clima insustentável dentro do partido.

A divisão também teve reflexo no processo de escolha do líder da banda na Câmara. Havia uma pressão dentro do partido para que se optasse por um perfil mais discreto na tribuna. Deputado federal no primeiro mandato, João Derly assumiu a função no início de 2017.

A crítica à postura em relação ao impeachment também é citada na carta de desfiliação de 7 membros do diretório nacional da legenda que deixaram a Rede em outubro de 2016. O texto é assinado por intelectuais como o antropólogo Luiz Eduardo Soares, um dos fundadores do partido.

Ao se posicionar em favor do impeachment, a Rede minou sua interlocução com o campo no qual nasceram seus ideais, ao menos aqueles expressos em sua carta de fundação.

A resistência a qualquer conduta ligada ao PT também é reflexo da postura do partido na campanha presidencial de Marina em 2014, quando a candidata sofreu duros ataques de petistas. Na época, a Rede ainda sofria o impacto de ter tido o registro negado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 2013.

O aval da Justiça Eleitoral só foi dado em setembro de 2015. Sem ter conseguido viabilizar a própria sigla, Marina se tornou vice de Eduardo Campos (PSB) e assumiu a cabeça da chapa com a morte do candidato, em agosto de 2014.

Parlamentares que permanecem na Rede negam que tenha havido qualquer tipo de retaliação. "O Impeachment foi debatido em reuniões de partido. Ninguém foi obrigado a votar a favor. A Rede é um partido que defende a liberdade", afirmou ao HuffPost Brasil o deputado Miro Teixeira.

O mesmo foi reforçado pelo senador Randolfe Rodrigues. "Não teve nenhuma retaliação ao impeachment", disse à reportagem. Ele destaca que o partido apoiou a candidatura de Alessandro Molon à prefeitura do Rio em 2016 mesmo após ele ter votado contra o afastamento de Dilma.

Questionado se o momento do impeachment trouxe incômodos dentro do partido, Zé Gustavo, porta-voz da Rede minimizou. "Não foi na Rede. Foi em todo o Brasil", afirmou ao HuffPost.

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Marina se tornou vice de Eduardo Campos (PSB) e assumiu a cabeça da chapa com a morte do candidato, em agosto de 2014.
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Rede se afasta dos movimentos sociais

Se a proposta inicial era fugir da política tradicional e dar voz a movimentos sociais, na prática não é o que tem sido percebido dentro da Rede. Responsável pela articulação da sigla com os movimentos, Braun vê um distanciamento nesse ponto. Ele conta que não foi aprovada uma proposta de reservar um percentual do Fundo Partidário para o funcionamento dos elos setoriais da legenda, como Juventude, Negros e LGBT.

Também foi descartada um medida que previa que decisões em qualquer instância - municipal, estadual e federal - deveriam ocorrer após um debate com esses movimentos. "Se a gente conseguisse lá na época fazer valer isso, a gente não poderia reclamar que o partido não tentou furar a bolha que a legislação impõe", afirmou.

Em seu manifesto, a Rede critica a falta de representação da sociedade nas decisões públicas adotada por grandes partidos.

"São graves os problemas relacionados ao desgaste e ao descrédito da política, dos políticos e do sistema de representação, sobretudo porque afastam grande parcela da sociedade das decisões públicas, quando não a leva ao alheamento e total indiferença às decisões políticas. Permanecem hegemônicas as velhas práticas políticas que vêm do colonialismo, do populismo, do racismo, do totalitarismo e outras formas de dominação e corrupção que ainda configuram uma cultura arraigada e difícil de mudar. O processo de construção da nossa república ainda está incompleto."

Outro entrave apontado para o diálogo com os movimentos é uma postura de Heloísa Helena contrária a entidades que remetem ao PT, partido ao qual a ex-senadora foi expulsa em 2003.

De acordo com Braun, Heloísa barrou aproximações com movimentos sociais consolidados como o MST (Movimentos dos Sem Terra) e a UNE (União Nacional dos Estudantes) por considerá-los "linha auxiliar do PT", o que isolou o partido.

"Por mais que você diga 'não somos de esquerda nem de direita', você faz um recorte ideológico com o qual você consiga conversar com movimentos à direita que você julga isentos dessa ligação e não conversa com movimentos da esquerda porque você considera eles instrumentalizados pelo PT. Esse distanciamento acabou fazendo que a Rede se isolasse profundamente do que ela se propôs, que era ser uma rede de movimentos", afirma o ex-coordenador de movimentos sociais.

De acordo com o ex-filiado, Heloísa é a "pessoa mais influente do partido" depois de Marina. Ela é responsável pelo projeto de campanha da Rede ao Palácio do Planalto e indicou nomes em cargos-chave da sigla. "Heloísa tem hoje o controle burocrático", afirmou.

Ao HuffPost, a ex-senadora afirmou que tem "o grandes e honrados amigos" em movimentos como o MST e a UNE. "Com eles continuaremos em muitas lutas, nas trincheiras de resistência ou nos campos de batalhas", afirmou, por mensagem. Sobre o PT, Heloísa chamou de traição a conduta da cúpula dos governos de Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva.

Considero a cúpula palaciana do PT (nos governos Lula-Dilma, óbvio) como um clássico caso de traição de classe, de subserviência ao capital, de roubos aos cofres públicos para favorecimento do capital, de roubo aos direitos dos trabalhadores.

A presidente da fundação não respondeu diretamente sobre eventuais retaliações a filiados da rede contrários ao impeachment e lamentou ataques à Marina Silva.

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Heloísa Helena e Marina Silva em evento da Rede em 2013; ambas são ex-integrantes do PT.

A Rede sobre o governo de Michel Temer

O distanciamento da esquerda e estrutura hierarquizada da Rede, apesar do discurso de diálogo, são apontadas por ex-filiados como movimentos conexos e levam a outra crítica, sobre a falta de enfrentamento ao governo de Michel Temer.

Esse é um dos pontos abordados na carta de desfiliação dos 7 intelectuais, que citam uma "agenda regressiva de reverter as poucas conquistas sociais". "A Rede não se posicionou sobre qualquer das grandes questões nacionais – sequer foi capaz de formular uma crítica fundamentada ao governo Temer", diz o texto.

Integrantes da legenda com posturas marcadamente progressistas foram orientados a ter uma postura mais discreta em sua atuação política, de acordo com relatos feitos à reportagem.

Em 2 anos o partido virou uma estrutura absolutamente vertical e quem tem o controle dessa verticalidade implementa o cunho ideológico que prefere.Samuel Barun

Em seu manifesto, a sigla afirma que é um "instrumento contra o poder das hierarquias que capturam as instituições democráticas e, ironicamente, fazem delas seu instrumento de dominação".

Culpa da legislação

Na avaliação de Zé Gustavo, a rigidez da legislação eleitoral brasileira responde a parte das críticas. "O arcabouço legal brasileiro não dá maleabilidade para que a gente possa atuar da maneira que a gente estava esperando. Ainda que a gente possa nos comportar internamente, juridicamente isso puxa a gente para um outro lugar", afirmou ao HuffPost.

Ele destaca ainda o tempo necessário para se estruturar um partido e o conturbado contexto político do País. "Tem uma coisa da dinâmica da formação da instituição, que acontece a médio e longo prazo. Nesse meio, nós estamos convivendo num contexto político brasileiro bastante duro, bastante aguçado e que gera divergências", completou.

Questionado sobre o posicionamento da Rede em relação ao governo Temer, o porta-voz afirma que a visão polarizada influencia a percepção das pessoas. "Essa forma de política binária em que você é a favor ou contra algo já instituído é muito complexo para nós, que temos um entendimento muito além dessa questão", afirmou.

Ele cita como exemplo a reforma trabalhista, em que a legenda era a favor da revisão legislativa e as ressalvas à proposta foram contempladas na medida provisória editada por Temer em novembro de 2017. Quanto ao teto de gastos, a Rede defendia que o limite fosse 50% do crescimento do PIB, em vez do congelamento.

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Ao lado de Marina, o porta-voz da Rede Zé Gustavo acredita na ampliação do partido nas eleições deste ano.

Rede quer ampliar participação em 2019

Primeira eleição nacional da Rede, 2018 tem um desafio adicional: atingir a cláusula de barreira. Para ter acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de rádio e televisão a partir do próximo ano, legendas terão de eleger pelo menos 9 deputados em 9 unidades da Federação. A outra opção é ter 1,5% dos votos válidos nas eleições de 2018 para a Câmara dos Deputados, distribuídos em pelo menos 9 estados, com pelo menos 1% dos votos válidos em cada um.

Após perder 2 parlamentares, a meta da Rede é chegar a 18 deputados federais. No Senado, a aposta é chegar a 5 integrantes, de acordo com o senador Randolfe Rodrigues.

Nos estados, a estratégia da sigla é lançar pelo menos um candidato majoritário, seja senador, governador ou vice-governador. No Executivo, as apostas são Miro Teixeira no Rio, João Batista Mares Guia em Minas Gerais, Marlon Reis no Tocantins, Dr. Emerson em Sergipe e Audifax Barcelos no Espírito Santo.

No Distrito Federal, Chico Leite está entre tentar o governo local e uma vaga no Senado. Já Professor Minoru irá concorrer a senador pelo Acre, estado de Marina.

Com uma fatia modesta do Fundo Partidário e com falhas apontadas por ex-aliados, a Rede mantém o discurso do diálogo e afirma que aposta na lealdade e na transparência para atrair candidatos.

"O que a gente promete dentro do partido, a gente cumpre. Se a gente diz que não vai ter nenhuma possibilidade estrutural para trazer a pessoa, mas que vai garantir que essa pessoa vai poder ser candidata, é lealdade", afirmou Zé Gustavo ao HuffPost.

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