MULHERES
02/03/2018 19:06 -03 | Atualizado 04/03/2018 10:12 -03

Mônica completa 55 anos, e nós conversamos com a Mônica de verdade

"O papel da Mônica foi fundamental em uma época que as mulheres não tinham voz."

Há 55 anos, era publicada a primeira tirinha da Mônica.
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Há 55 anos, era publicada a primeira tirinha da Mônica.

Ela é mandona, por vezes brigona, mas é impossível não morrer de amores por ela. Há 55 anos, em 3 de março de 1963, a Mônica era apresentada ao público em uma tirinha de história em quadrinhos publicada no jornal Folha de S.Paulo. Desde então, a personagem tem sido referência para uma geração de meninas.

"O papel da Mônica foi fundamental em uma época que as mulheres não tinham voz. Na ocasião em que ela foi lançada, as pessoas precisavam muito da presença dela nas tirinhas. Antes, a turma só tinha personagens masculinos. A Mônica sempre foi uma personagem que deixou bem claro que brigaria por seu espaço. E conseguiu né? Para a gente é muito gostoso saber que ela é uma personagem empoderada desde os anos 60", compartilha Mônica de Sousa, filha do ilustrador Mauricio de Sousa, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Inicialmente, Mônica tinha um papel secundário dentro das histórias protagonizadas por Cebolinha e sua turma. Mas com o tempo ela caiu no gosto do público por sua personalidade forte e as suas trapalhadas. Em 1970, ela já tinha uma revista só sua. Mais de 50 anos depois de seu lançamento, o sucesso e a importância da Turma da Mônica extrapolam os gibis.

Divulgação/Mauricio de Sousa Produções
Mônica faz primeira aparição em tira do Cebolinha na Folha, em 1963.

Hoje, a menina do vestido vermelho que vive agarrada no coelho de pelúcia azul é a cara de um projeto importante sobre representatividade feminina, o Donas das Ruas. Lançado em 8 de março de 2016, o movimento busca usar a força da Mônica e das outras personagens para reforçar a autoestima de todas as meninas.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Mônica de Sousa avalia como tem sido cuidar do legado do pai. Ainda, ela fala sobre a responsabilidade da Turma da Mônica na luta pelos direitos da mulher no Brasil.

HuffPost Brasil: Como você se sente ao ser a inspiração de uma das personagens mais longevas dos quadrinhos do Brasil?

Mônica de Sousa: Eu sinto muito orgulho de ter sido a filha que inspirou a personagem. O mérito é dele [Mauricio de Sousa] de ter colocado essa característica minha que eu já começava a dar sinais lá pelos 2 ou 3 anos. E é engraçado que a minha filha também é igualzinha à Mônica. Eu nem acreditava nessas coisas, até a minha filha nascer. Mas é isso; tem as meninas que são mais briguentas, que brigam mesmo pelo seu espaço. Tem aquelas que são mais meigas, e todas elas precisam conviver e ser respeitadas numa boa.

Quando a Mônica foi apresentada ao público, houve influência do feminismo para compor as características principais da personagem, que é muito forte, cheia de personalidade?

O papel da Mônica foi fundamental para uma época em que as mulheres não tinham tanta voz. Na ocasião em que ela foi lançada, que foi os anos 60, eu acho que as pessoas precisavam muito da presença dela. Antes, a turma só tinha personagens masculinos. A primeira tira foi lançada em 59, e a Mônica nasceu em 63. Meu pai era cobrado por personagens mulheres.

A Mônica sempre foi uma personagem que brigou pelo seu espaço. E conseguiu né? Para a gente é muito gostoso saber que ela é uma personagem empoderada desde os anos 60. Não só a Mônica, mas todas as personagens do Mauricio de Sousa são empoderadas e têm uma autoestima muito boa. Isso influencia as meninas que as leem. Não é só com a Mônica que elas se identificam, tem umas que se identificam mais com a Magali, com a Rosinha, com a Marina.

Essas personagens têm essa autoestima elevada e isso é porque elas não seguem nenhum padrão. As meninas que se identificam com cada uma delas precisam estar tranquilas de que elas também não precisam seguir o padrão x ou y. Elas precisam acreditar na força delas, na competência delas e no que elas gostam de fazer. Outro ponto importante é que em nenhum caso elas se sentem ameaçadas pelos meninos.

Como tem sido a experiência de preservar o legado de Mauricio de Sousa?

O nosso projeto Donas da Rua é um bom exemplo de como esse legado tem se transformado. Ele não é contra meninos, mas é em defesa de uma sociedade mais justa para que os meninos e as meninas tenham as mesmas oportunidades.

O Donas da Rua nasceu do fato de a gente ter essa personagem forte e após a minha experiência na ONU Mulheres, em que eu assisti diversas palestras. Vivemos em um mundo que é marcado pelas diferenças entre homens e mulheres, meninos e meninas. E é quase que nossa obrigação tentar mudar um pouquinho essa realidade.

As meninas ouvem constantemente que elas não são capazes, e a gente tem que mudar esse discurso. Elas são capazes de tudo que elas quiserem. Precisamos incentivá-las.Mônica de Sousa

As meninas ainda se sentem menos que os meninos em função do que elas veem na História, porque quem conta a História são os homens. Muitas vezes os personagens masculinos são representados como aqueles que deram certo e esquecem de mostrar todas as mulheres que fizeram e fazem parte da História. As nossas meninas precisam dessas referências em todas as áreas.

Turma da Mônica abre exposição em homenagem ao Dia Internacional da Mulher

Em apoio à Semana de Arte HeForShe, a Mauricio de Sousa Produções inaugurou uma exposição no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, em São Paulo. São 18 painéis estampados com as meninas da Turma da Mônica interpretando personalidades que se destacaram em campos como artes, esportes e ciências.

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