MUNDO
02/03/2018 14:42 -03 | Atualizado 02/03/2018 17:30 -03

Michael Wolff: 'Trump está louco e é burro'

Ao HuffPost, autor do polêmico 'Fogo e Fúria', livro que disseca a Casa Branca, traça perfil de Trump.

CARLOS PINA

Um dos homens que mais enfureceu Donald Trump nos últimos meses espera impassível, sentado no sofá enquanto pede um café, aguardando o início da entrevista. É o contraponto perfeito à hiperatividade e ao descontrole do presidente dos Estados Unidos. O jornalista Michael Wolff (Nova Jersey, 1953) pode supor que Trump não queira que seu livro Fogo e Fúria seja lido. Exatamente por isso, a obra, que relata o que aconteceu nas entranhas da Casa Branca nos primeiros meses da administração Trump, tem sido um dos lidos e vendidos nos EUA.

Para escrever o livro (que lhe pode render estimados US$7 milhões), Wolff fez mais de 200 entrevistas, entre elas com o próprio presidente. "Trump disse que tudo que saiu no livro é falso, mas isso não faz mais que confirmar que o que está no livro é a verdade", Wolff retruca tranquilamente. Na operação titânica de tradução ao espanhol – 380 páginas foram traduzidas em apenas 40 dias--, a editora Península está lançando Fuego y furia nesta terça-feira. Não se pode permitir que a fúria se acalme e o fogo se apague.

Trump afirma que só falou com você uma única vez e apenas por alguns minutos.

É mentira total. Estive cara a cara com Trump por três horas durante o período de transição presidencial. Quero deixar claro que literalmente tudo o que Trump comentou sobre este livro é uma mera recriação da realidade. É o que acontece com a maioria das coisas que ele fala.

Tira-se do livro uma certeza: que Trump vive em outro mundo, numa realidade paralela.

Isso mesmo. Ele não reconhece o contexto. É um homem sem controle sobre seus impulsos. Ele vive o aqui e o agora. Aquilo que ele sente em um momento dado é o que ele acredita ser a verdade.

Desde antes de ele ser eleito presidente já se repetia como mantra a frase de que "Trump é Trump" para justificar tudo o que ele faz ou fala. Mas quem é Trump na realidade?

Não sei se a frase "Trump é Trump" é usada tanto para justificar quanto para explicar o que acontece. O que ela significa é que ele vive numa realidade paralela, ele não se sente amarrado à lógica, à verdade, à experiência. Tem sido assim, em parte, por toda sua vida, e tem funcionado para ele: pensar que ele sempre tem razão e que sua realidade é aquilo que ele pensa que é, contra o que a verdade realmente é. Imagino que seja fácil fazer isso se você herdou uma fortuna e se seus negócios se convertem no negócio das ilusões. Isso acaba convertendo você em pura ilusão. A chamada "realidade" de Trump não é realidade: ele não foi um homem bem-sucedido, não foi um empresário imobiliário de sucesso, ele nem sequer é um homem rico no nível que se dizia que era. Não era importante para ele que ele não fosse nada disso: bastava fingir. Em termos de marketing, ele se converteu no melhor ator de um reality show.

Perguntei a Trump qual era sua meta e ele me disse que era tornar-se o homem mais famoso do mundo.

A ideia surpreendente de Fogo e Fúria é que nem Trump nem sua equipe queriam ganhar as eleições. Que o objetivo final era que a derrota eleitoral os deixasse mais famosos, mais poderosos. É uma tese que a priori não faz muito sentido.

Durante a campanha perguntei a Trump qual era sua meta, e ele próprio me disse que era tornar-se o homem mais famoso do mundo. Candidatar-se numa eleição presidencial é uma maneira muito eficaz de converter-se no homem mais famoso do mundo, inclusive economicamente, é uma forma bastante barata de consegui-lo, já que outras pessoas lhe dão seu dinheiro para você alcançar essa meta. Assim, em termos de marketing do "mundo Trump", foi uma ideia muito boa. A vitória na eleição expôs o fato de que ele não estava preparado, que não tinha nem a experiência nem a formação necessária, que nem sequer havia feito as coisas como deveria: não se havia protegido contra tudo que ficaria exposto se ele ganhasse as eleições, como suas relações financeiras com a Rússia, seus problemas com mulheres, etc. O mais curioso disso tudo é que de repente se deu uma brincadeira cósmica de mau gosto que afetou a todo o mundo, inclusive o próprio Trump.

As pessoas em torno de Trump não estavam preparadas para a vitória, não tinham contatos em Washington e careciam de experiência política. Como foram os cem primeiros dias da administração Trump?

O problema era que o mundo estava em suas mãos. Jamais se poderia identificar as pessoas que o cercavam como uma equipe de primeiro nível, mas, em termos relativos, eram profissionais. A desilusão que enxerguei neles nos sete primeiros meses do governo, quando estive ali, estava ligada ao fato de que tínhamos uma pessoa que não sabia nada sobre nada, que não estava em posição de tomar decisões, que de fato não tomava decisões, que não ouvia, que era incapaz de canalizar informação. Mesmo assim, de forma muito literal, era a pessoa que estava por cima, que centralizava tudo. Era o Deus Sol.

CARTLOS PINA

Como foi possível que um candidato que dois meses antes das eleições foi ouvido numa gravação dizendo que, se você é famoso, "pode agarrar as mulheres pela xoxota", tenha se convertido no presidente dos Estados Unidos? Na Espanha isso é muito difícil de entender.

Também nos Estados Unidos é difícil entender. Não existe quase nenhuma lógica política que o explique. Todos que estavam em volta de Trump pensavam que ele não ia ganhar a eleição, e a revelação dessa conversa foi o que garantia definitivamente que em hipótese alguma ele sairia vencendo. Para tentar encontrar uma certa lógica, a gravação provocou assombro e o repúdio expresso dos meios de comunicação, do establishment político e cultural e de todos os centros de poder tradicionais. De alguma maneira isso confirmou para seus seguidores que Trump era o homem deles, um político que não tinha nada a ver com o establishment. Essa é a única coisa que me ocorre. Deve haver alguma explicação, mas não sei qual é.

O empresário Tom Barrack disse a respeito de Trump que ele não está louco, mas é burro. Você concorda?

Na realidade, Barrack disse que Trump não apenas está louco como também é burro (risos). Sim, concordo, Trump está louco e é burro.

Reince Priebus, o ex-chefe de gabinete de Trump, acaba de denunciar o caos e a desorganização da Casa Branca durante os meses em que ele ocupou o cargo. "Pegue tudo o que você ouviu sobre isso e multiplique por 50", ele disse.

É verdade, e isso mostra que eu retratei Trump de maneira correta e precisa. De qualquer modo, a realidade não é melhor que o retrato que eu tracei.

A conivência com a Rússia, o conflito com a Coreia do Norte, seus problemas com as mulheres... Todos esses fatores podem acabar com a presidência de Trump?

Sim, tudo isso pode acabar com ele. Se você o olha do alto, e esse é um aspecto que constata seu despreparo para ser presidente, tudo o persegue. Acho que desde o início de sua carreira política já se percebia que ia acontecer um tremendo acidente de trem. Estamos no trem e já estamos vendo o muro pela frente, mas não sabemos se ele está longe ou perto. O que enxergamos claramente é que em algum momento o trem vai bater de frente contra o muro.

Trump tinha talento para jogar com a mídia.

Você acaba de dizer que tudo persegue Trump. E é justamente essa uma das principais queixas que o presidente faz em relação aos meios de comunicação: diz que o criticam por tudo, quer ele faça algo bem, mal ou mais ou menos. Até que ponto a mídia entrou nessa dinâmica, a mídia que em um primeiro momento encarou Trump mais como uma piada?

Essa é uma ótima pergunta, e a resposta não está clara de maneira alguma. Já ficou claro que existe uma relação simbiótica entre Trump e a mídia, porque Trump tinha talento para jogar com a mídia, para manipulá-la. Esse jogo se baseava no "conflito, conflito, conflito". Quanto mais conflitos você cria, mais atenção recebe. É uma ideia que, na realidade, é contra-intuitiva na política. Antes, o objetivo da política era procurar um consenso e diminuir os conflitos na medida do possível. Era o que queriam os eleitores e era o propósito da política. Trump rejeitou essa ideia. Ele é a expressão perfeita da equação "conflito + mídia = atenção". E isso significa triunfo político, o que é a coisa mais louca de todas.

EFE

Que papel desempenha a família Trump – Melania, Ivanka e Jared Kushner – no dia a dia da administração?

Ivanka e Jared são os dois principais assessores do presidente. Esse é outro aspecto do absurdo e caos desta administração. Além de eles não terem experiência política, o fato de serem parentes garante o caos na Casa Branca, porque não é possível ter nenhum tipo de estrutura de gestão profissional. Quase todos os altos assessores do presidente reconheceram esse problema desde o primeiro momento. Mas o pior é que eles não têm experiência. Com relação à sua esposa, essa é outra coisa "trumpiana" muito óbvia: a relação deles é claramente o que aparenta ser. Ou seja, Melania e Trump não têm relação. Ele a apresenta orgulhosamente como sua mulher troféu. Eles já viviam separados, algo que é possível quando você é um magnata imobiliário, mas os quartos na Casa Branca são muito menores e eles estão tendo que passar mais tempo juntos. Isso talvez crie uma situação explosiva.

Ivanka Trump poderia vir a ser a primeira presidente mulher dos Estados Unidos?

[Gargalhadas] Isso é totalmente ridículo, mas provavelmente menos ridículo que a ideia de que Donald Trump chegaria a ser presidente dos Estados Unidos. Se Ivanka o conseguir, pelo menos ela terá um pouquinho de experiência.

Você seria capaz de dizer algo de positivo sobre Trump?

Sim, que ele é um bom vendedor.

Quero dizer algo positivo sobre ele como presidente dos Estados Unidos.

Sim, sim, de alguma maneira essa é uma qualidade: o presidente dos EUA também precisa ser bom vendedor. Seu problema é que ele não apenas vendedor. Ele só se interessa por você se pensa que você vai poder ajudá-lo a fechar uma venda. Mas, se ele não for obter benefícios suficientes com você ou se você fizer resistência a ele, ele não se importa com você. Para ele, nesse caso você não passa de uma merda.

CARLOS PINA

Existe hoje alguma possibilidade de Trump provocar uma guerra?

Vou te dar outra perspectiva. Ir à guerra é muito complicado. É preciso mobilizar todo um governo. Você precisa de muita informação, há muitos dados, é necessário prestar muita atenção... Sabemos que Trump está rodeado de generais e que, se lhe apresentam um Power Point, ele deixa o recinto porque se entedia demais. Temos certa segurança por saber que travar guerra é complicado e chato.

Mas se a única coisa com que ele se importa é seu ego, seu eu, a fama, que jeito melhor pode haver de reforçar seu ego que entrando em uma guerra?

Sim, entendo isso, mas a realidade é que a guerra é complicada. E você consegue o mesmo benefício apenas ameaçando: com isso você já consegue a atenção. O fogo e a fúria.

Vargas Llosa disse que ler meu livro é uma perda de tempo? Eu nunca consegui terminar um livro dele. Já tentei.

Trump tem duas obsessões: a Coreia do Norte e a China. Qual é a pior e qual pode desestabilizá-lo?

Nenhuma das duas são obsessões para ele, acho que nem sequer despertam seu interesse. A China era a obsessão de [o ex-assessor] Steve Bannon, não a de Trump. Todos esses aspectos interessam tão pouco a ele, estão tão distantes de sua realidade limitada... é verdade, não lhe interessam nada, nada mesmo.

Trump é uma pessoa mentalmente capacitada para ser presidente dos Estados Unidos?

[Silêncio] Não posso responder essa pergunta, não sou capacitado. Mas posso descrever o que vi. E, quando você fala com ele, percebe que seu discurso não tem nexo nenhum. É realmente alarmante.

Mario Vargas Llosa escreveu que ler seu livro é uma "perda de tempo".

Uma perda de tempo?

Sim, que seu livro está cheio de fofocas e bobagens.

Nunca consegui terminar um livro de Vargas Llosa. Tentei, fiz força, mas não consegui.

PENÍNSULA

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Espanha e traduzido do inglês.