MULHERES
01/03/2018 10:59 -03 | Atualizado 01/03/2018 10:59 -03

Shirley Manson tem muito a dizer sobre mulheres na música (e ela não tem medo de falar)

Vocalista do Garbage, em entrevista ao HuffPost, fala sobre o machismo no mundo da música, novos projetos para a banda, e sobre o movimento #MeToo.

Joseph Cultice

Shirley Manson teve uma noite de sábado "fodona". Enquanto a gente estava jogado no sofá assistindo Netflix, a cantora do Garbage fazia um dueto com Fiona Apple – que estava usando uma camiseta denunciando o presidente da associação das gravadoras americanas, Neil Portnow, autor de uma declaração recente alegando que as mulheres do mundo da música precisar "aparecer". Manson e Apple cantaram um cover de "You Don't Own Me" (você não é meu dono), de Lesley Gore.

Mas não chega a ser surpresa: quase tudo o que Manson faz – de vender milhões de discos a dizer ao mundo o que ela está sentindo em cada momento – é foda.

Ela recentemente conversou com o HuffPost por telefone para falar sobre sua performance já lendária com a Apple, a resposta da indústria da música ao movimento #MeToo, a resistência contra a cultura da juventude acima de tudo e a morte de Dolores O'Riordan, que a levou a pensar em sua própria mortalidade.

Como você foi parar no palco com Fiona Apple no sábado à noite e por que vocês decidiram fazer um cover de "You Don't Own Me"?

Shirley Manson: Boa pergunta. Anna Bulbrook, que é a cabeça por trás do Girlschool LA, entrou em contato comigo ano passado, participei de uma sessão de perguntas e respostas e me apaixonei por ela, pela sua atitude e pela iniciativa. Ela me procurou de novo este ano e perguntou se eu queria participar de um coral só de mulheres, acompanhado por um quarteto de cordas também feminino, e eu disse sim na hora. Achei que seria extraordinário. Ela queria que eu cantasse umas músicas do Garbage e depois disse: "Também quero que você faça um cover". Roxy, a filha de Duke [Erikson], que é do Garbage, tinha sugerido que a banda tocasse "You Don't Own Me", e por algum motivo a gente não tinha feito isso ainda. Então, quando apareceu esse evento e Anna perguntou que cover eu queria fazer, eu disse: "Ah! 'You Don't Own Me' seria perfeito!" Achei que era a música do momento, e não estava errada, no fim das contas.

Anna sempre incentiva a atração principal de cada noite a ter um convidado especial e perguntou o que eu achava de Fiona Apple. Eu disse: "Seria incrível, mas duvido que ela diga sim". [Fiona] é muito difícil de achar e não participa de eventos assim, do nada. Achei que ela não fosse se interessar e fiquei muito surpresa quando lá pela meia-noite do dia seguinte recebi uma mensagem de Anna dizendo: "Você não vai acreditar, mas Fiona está dentro!" Comecei a gritar. Tenho muita admiração por ela como pessoa, mas também acho que ela é a voz da sua geração – pelo menos a voz branca da geração dela. Foi uma experiência extraordinária e vou guardá-la com carinho para sempre.

O que você achou da camiseta de Fiona e o que pensa da demanda de que Neil Portnow renuncie à presidência da associação das gravadoras depois dos comentários que ele fez?

Como todo mundo, adorei a camiseta. Ela tinha me mandado uma foto naquele dia, perguntando: "O que você acha? Tou pensando em usar hoje", e eu disse: "Claro, porra! Adoro!" Amo o espírito punk rock dela, amo que ela tem coragem para botar em prática o que pensa. Sempre admirei esse tipo de posição. Fui 100% a favor.

Sobre Neil Portnow, acho que ele deveria renunciar. Acho que ele mostrou quem realmente é. Mostrou o que pensa. Acho que ele é sexista e misógino, e já deu para ele. É muito simples. E acho que todas as outras artistas pensam como eu – se não pensarem, não entendem o que está acontecendo.

Tenho procurado muitas mulheres na música recentemente, e muitas – ou pelo menos seus assessores de imprensa – não querem falar sobre os movimentos #MeToo ou Time's Up. Um assessor literalmente me disse que sua cliente não queria "mexer nesse vespeiro". O que você acha que está por trás desse tipo de resposta?

As mulheres querem se distanciar [dessas discussões] pelo mesmo motivo que as mulheres sempre quiseram se distanciar de qualquer declaração ou movimento feminista: têm medo de ser tachadas de "lésbicas peludas" e acreditam que isso vai arruinar suas carreiras. Elas têm medo da percepção que os outros terão delas porque disseram a verdade. E, infelizmente, as mulheres continuam sendo punidas por falar e por mostrar coragem. Basta olhar para Azealia Banks ou Rose McGowan, elas são sempre são tachadas de loucas, mas são elas que estão falando as verdades que ninguém quer ouvir, então são descartadas e rotuladas como malucas. Aí, conforme passam os meses, começamos a entender o que elas disseram, quando tudo nos é apresentado numa embalagem mais bonitinha.

Algumas semanas atrás, ouvi uma comentarista dizendo na CNN que a indústria da música não passou pelo mesmo tipo de ajuste de contas que acontece no cinema porque as mulheres de mais de 40 em Hollywood seriam menos descartáveis – e têm mais poder – do que nunca e estão usando esse poder para falar. Do lado da música, a indústria está muito mais obcecada com juventude e com jovens cantoras, e as artistas hesitam em causar por medo de perder oportunidades ou até mesmo suas carreiras.

Acho que os motivos são mais complexos. Para começo de conversa, as mulheres de Hollywood são muito mais ricas e representadas por agentes poderosos, então elas são mais poderosas em todos os sentidos. Elas têm sindicato. Se você é músico, está sozinho, pulando de galho em galho na expectativa de que te levem a sério e tem pouquíssimo apoio. As mulheres da indústria da música, portanto, têm medo de perder suas carreiras e têm de se proteger. Todo mundo viu o que aconteceu alguns anos atrás com a pobre Kesha.

Se ela viesse a público com a mesma história hoje em dia, acho que seria tratada de modo muito diferente e o caso teria outro desfecho. Mas ela foi deixada à própria sorte e retratada como uma louca descontrolada. Acho que isso fez muitas mulheres pensarem duas vezes antes de se manifestar. Alice Glass [do Crystal Castles] foi muito corajosa e não teve muito apoio. E Jessicka Adams, do Jack Off Jill, também falou e não recebeu muito apoio. Então não é que pouca gente esteja se manifestando – o fato é que a histórias não vão para a frente.

Você tem alguma história parecida na indústria da música?

Não tem mulher que tenha passado a vida sem enfrentar algum tipo de assédio, sexismo, toque ou agressão sexual. É tão comum. Acho que, a menos que seja muito sério, as mulheres aprenderam – ou foram ensinadas, e sublinho essa parte – a dar risada e pensar: "Bom, não é tão sério. Estou sendo dramática. Foi ruim, mas não tem nada demais". E é só quando você fica mais velha que começa a ter mais agência que imagina: "Quando aquele puto daquele rei dos assessores encostou no meu peito quando estávamos sendo fotografados por causa do disco de ouro eu devia ter chutado as bolas dele em vez de rir". Você fica irritada consigo mesma por não ter resolvido certas coisas na época. Acontece o tempo todo.

Certa vez você disse: "Acompanho Patti Smith desde a primeira hora, Chrissie Hynde, Marianne Faithful – todas essas mulheres que continuam ativas na música e conseguiram escapar da jaula da objetificação". Mas, de certo modo, sempre achei que uma das partes mais poderosas de sua persona fosse o fato de você ser sexualizada, mesmo que em seus próprios termos. Você era um objeto – e portanto objetificada --, mas era a autora daquele objeto, ou seja, tinha controle da objetificação ou, pelo menos, dos modos e meios pelos quais sua imagem estava sendo criada e transmitida.

Concordo em parte. Com certeza brinquei com minha sexualidade, e a objetificação tinha limites estabelecidos por mim. Sempre evitei uma sexualização explícita. Sempre incluí algo agressivo ou não-atraente – como quando coloquei a mão na boca no [vídeo de "I Think I'm Paranoid", abaixo]. Foi deliberado. Aprendi com minhas heroínas que objetificação, sexualização e ser considerada sexy e linda são um perigo. Eu evitava. Raspei a cabeça no terceiro disco, para horror da indústria. Mas até um certo ponto eu sabia o que estava fazendo porque, se as mulheres não se manifestam de vez em quando, estão condenadas a ser algo que os homens querem comer, e isso no fim das contas vai destruir sua carreira, porque ninguém – não importa quantos facelifts fizer ou o que você injetar no rosto -- ninguém consegue manter a vitalidade da juventude. Não dá para fingir, não dá para comprar, não importa o que você bote no corpo, é impossível manter-se jovem. É como água nas suas mãos. Simplesmente escorre. E aí o que resta? Então sempre digo para as meninas: "Você tem de ter um segundo ato". Porque, se não tiver, não tem terceiro nem quarto ato.

Conversei com Tori Amos sobre o uso que ela fez da palavra "menopausa" em um show de improviso que ela fez alguns anos atrás e como era radical ouvir uma mulher – uma rockstar, ainda por cima – usar esse termo tão publicamente e com tanto orgulho. Ela ficou puta com os dois pesos e duas medidas quando pensamos em mulheres que atingem uma certa idade. De repente, elas não podem mais ser sexuais, enquanto os homens ainda são viris e potentes.

Passei por momentos assim na minha vida, quando fiquei mais velha e percebi que estava sendo criticada por causa da minha idade, mas tive sorte de entender que, quando era jovem, me disseram quem eu deveria ser. Então consegui resistir. Agora que estou mais velha, me dizem que eu deveria agir como uma mulher mais velha, e também estou resistindo. Não tenho vergonha de ser velha. Não tenho vergonha de ter sabedoria, de controlar minha força. Há um sistema patriarcal para manter as mulheres mais velhas e mais poderosas no seu lugar. Sei que estou usando esses termos generalistas e dramáticos, e não estou certa de que é sempre consciente, mas acho que é do que estamos falando aqui. Acho que as mulheres têm de parar de ouvir o que lhes dizem. Assim como os homens não são diminuídos pela idade – pelo contrário --, as mulheres têm de aprender isso. E depende de nós.

Quando as pessoas te dizem como agir na sua idade, o que elas dizem? O que esperam de você?

As pessoas dizem coisas do tipo: "Você não deveria mostrar a língua! Você é uma mulher adulta!" Ah, vai se foder. "Você não deveria raspar a cabeça, não fica bonita." Vai à merda. "Você não pode pintar o cabelo de rosa, você tem mais de 50 anos!" Vai se foder! [risos] A lista é interminável. "Você não pode usar saia curta, você tem mais de 50 anos!" Sim, posso. As mulheres têm agência além de serem comíveis. O problema é que educamos as meninas desde cedo que elas devem sentir orgulho por ser bonitas, por ouvir que são bonitas e sexy e por chamar a atenção dos homens. As mulheres têm de se libertar disso – e depende da gente.

Recentemente escrevi sobre Cardi B, que se envolveu numa polêmica porque não sabia que "queer" poderia ser usado como ofensa contra a população LGBTQ. Ela disse que a responsabilidade de educá-la sobre o que é OK e o que não é era dos queers. Como homem queer, argumentei que o fardo da educação não deveria ser só nosso. Qual é sua posição? Educar as pessoas sobre essas questões é um fardo ou você aceita isso como sua responsabilidade na vida e vai continuar fazendo sua parte da melhor maneira possível?

Acho que é minha responsabilidade e vou continuar fazendo o melhor, porque as pessoas não sabem o que não sabem. Se você não sabe, como é que vai se educar sobre o racismo nos Estados Unidos, sobre homofobia, sobre sexismo? Consigo imaginar o que é não querer ter de carregar o fardo de educar os outros sobre minha sexualidade – seria um saco! --, mas, ao mesmo tempo, uma pessoa como Cardi B acha que é boa pessoa.

Com certeza. Não acho que ela seja intolerante do mal. Só desinformada.

Sim. Ela é uma menina que quer ser educada, e espero que haja professores generosos para ampliar os horizontes dela, ampliar as experiências. Ela é tão nova – e reverenciamos a juventude há tanto tempo que esquecemos o que significa ser jovem. Ser jovem é não saber [risos]. E essa é o poder da juventude! É isso o que a torna tão poderosa e, ao mesmo tempo, tão vulnerável. Acho que esquecemos do nosso papel e do nosso dever como adultos. Temos uma geração inteira de jovens que não quer envelhecer. Tá de brincadeira? Qual é a alternativa? Morrer jovem? O que tem de bom nisso? Então ensino com prazer, mas também tenho fome de aprender. Continuo aprendendo coisas novas todos os dias. Nos últimos anos foi chocante perceber como sou inocente. Fico chocada por não reconhecer, por exemplo, o racismo extremo que existe no mundo inteiro. E eu não reconhecia! E algumas mulheres incríveis poderiam ter me eviscerado por causa disso, mas preferiram me educar. Por isso, sou muito grata a elas.

Você conversa sobre isso com os caras da banda?

Não falamos muito sobre isso, mas também não tenho os visto tanto assim. Falo sobre isso com todo mundo. Acho que está na boca de todo mundo, para ser sincera. Todo mundo que tem cérebro está chocado com o tsunami de relatos sobre agressões sexuais que temos ouvido. Quando você descobre que uma em cada três mulheres e um em cada sete homens sofre algum tipo de agressão sexual durante suas vidas – é um absurdo, tem de acabar. Tem de acabar.

Fui atacado sexualmente no ano passado, e levei nove meses até conseguir contar para alguém – e depois escrevi sobre minha experiência --, mas não teria feito isso sem a inspiração das mulheres do movimento #MeToo.

Li seu relato e quero te oferecer condolências e aplaudi-lo por vir a público. Acho maravilhoso que tanta gente esteja se manifestando – o movimento #MeToo em particular me tocou. Acho muito forte as pessoas encontrando sua voz por causa dele, e acho que ajuda na cura – mas me pergunto: para onde vamos depois? Tem de haver ação por trás do movimento, porque as estatísticas são chocantes e inaceitáveis. Mas não sei exatamente que ação é essa. Acho que tem a ver com a educação das nossas crianças. Como educamos as meninas para ocupar mais espaços e encontrar suas vozes? Como ensinamos aos meninos que eles não podem encostar em quem quiserem?

Você está certa. Temos de lidar com o problema subjacente: entender o que significa ser homem e ser mulher – e as consequências desse entendimento. Enquanto não conseguirmos lidar com isso, vamos só replicar uma geração depois da outra.

Eu diria que tirar o estigma de falar no assunto é um passo enorme na direção certa. Com uma geração inteira assistindo o que está acontecendo, a esperança é que ela não cometa os mesmos erros da minha geração, que tinha medo de falar. E isso nos traz de volta a uma pessoa como Fiona Apple, que, com Tori [Amos], estão entre as primeiras artistas de destaque a falar com coragem, numa época em que não contavam com a irmandade de ninguém.

O mundo era diferente 20 anos atrás. Era diferente um ano atrás. Também faz um ano que Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos. Você deixou muito claro o que pensa dele no passado. O que acha hoje?

Na verdade, decidi que não vou mais falar dele. Não vou entregar meu poder para essa pessoa, que incentiva intolerância e ódio e só está obcecado em colocar mais dinheiro no bolso de quem já é rico. Não posso gastar mais um minuto sequer da minha vida entregando minha energia para ele.

Acho que isso é admirável – e saudável. Falando de saúde, sou obcecado com o fato de que, quando seus fãs fazem algo que te irrita, você diz exatamente o que está pensando. Não consigo imaginar outro artista que diga "vai se foder" pros fãs – adoro. É uma coisa que acontece no calor do momento? Você pensa: "Talvez não devesse ter reagido assim?" Ou é mais: "Foda-se! É assim que eu me sinto!"

Não vou ser policiada por ninguém só porque eles gastaram dinheiro num CD. Não os forcei a comprar o CD. Eles compraram por vontade própria. E só porque você compra nossa música ou nos ouve na porra do Spotify não significa que você seja dono de nada meu ou dos meus pensamentos. Não deixei que meus pais mandassem em mim, com certeza não vou deixar que estranhos mandem em mim [risos].

Me fale do que pensou da morte de Dolores O'Riordan. Vi que, quando ela morreu, em janeiro, você deu os pêsames nas redes sociais. Vocês se conheciam? Eram amigas?

Não a conhecia e nunca tive o prazer de encontrá-la, mas éramos como navios se cruzando na noite: muitas vezes tocando nos mesmos festivais, em noites diferentes. Sei que tínhamos muitos fãs em comum. Quando "Linger" estava no auge da popularidade, estávamos gravando nosso primeiro disco, então lembro bem ela, amava a voz. Acho que o que me pegou quando soube da morte foi: "Oh, agora eles são da minha geração. É isso". Quando Bowie morreu, também fiquei muito abalada, porque ele foi o primeiro rockstar por quem me apaixonei e me obcequei, ele teve influência enorme na minha música e no meu estilo. Foi uma grande perda para mim, e lembro de pensar: "Nossa geração é a próxima". Mas, quando Dolores morreu, pensei: "Estava certa". Dá medo.

Te fez pensar na sua própria mortalidade?

Claro! Claro que sim. Não acredito que cheguei a esse ponto tão rápido. Uma hora você é jovem e a coisa do momento, todo mundo fala de você, e de repente nossa geração está morrendo. Puta que o pariu!

O Garbage recentemente gravou uma versão de "Starman" para o tributo a David Bowie produzido por Howard Stern. Para saber mais sobre a banda e sobre Shirley Manson, visite o site oficial da banda e siga-os no Twitter e no Facebook.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.