MULHERES
28/02/2018 06:00 -03 | Atualizado 28/02/2018 13:09 -03

O selo editorial dos anos 1990 que só publicava livros feministas no Brasil está de volta

'Rosa dos Tempos' foi criado por Rose Marie Muraro e publicou clássicos do movimento feminista brasileiro e mundial em 1990.

Rose Marie Muraro autografa seu livro "Os seis meses em que fui homem", em meados dos anos 2000.
Arquivo Pessoal
Rose Marie Muraro autografa seu livro "Os seis meses em que fui homem", em meados dos anos 2000.

Duas mulheres importantes para a evolução do feminismo no Brasil, Rose Marie Muraro e Ruth Escobar, há mais de 15 anos, se uniram para ampliar as vozes das mulheres brasileiras por meio da literatura. Ambas acreditavam que com educação era possível transformar um mundo guiado pela opressão às mulheres. Em 1990, juntas, as escritoras fundaram um selo editorial chamado "Rosa dos Tempos", dedicado exclusivamente à temática feminista que, em 2018, está de volta.

"Só existe um editor homem trabalhando com a gente. Todas as demais são mulheres", conta Ana Lima, editora-executiva da Editora Record, que é uma das responsáveis pelo retorno do selo, em entrevista ao HuffPost Brasil. O time é composto por 3 editoras-executivas, Ana Lima, Ana Paula Costa e Andreia Amaral, 2 gerentes de marketing, Rafaella Machado e Livia Vianna, e Roberta Machado, que é diretora comercial e vice-presidente da empresa.

O projeto de Muraro e Escobar tornou-se realidade, no passado, com o apoio da jornalista Laura Civita, da socióloga Neuma Aguiar e do fundador e então editor da Record, Alfredo Machado. No entanto, depois de 2005, e com 170 livros lançados -- que hoje estão de catálogo -- , o selo acabou esquecido. Segundo Lima, o fato de ter um time essencialmente feminino trabalhando em conjunto neste momento possibilitou que a ideia de retomar o selo feminista se tornasse realidade.

"Essa conversa [de retomar o Rosa dos Tempos] começou a virar uma constante. Toda hora a gente esbarrava em algum material interessante que seria bom publicar de qualquer forma, mas que, com o selo, teria uma visibilidade diferente", constata Lima.

E a ideia começou a tomar corpo em outubro do ano passado. Juntas, as editoras começaram a trabalhar em cima do antigo catálogo, o logo foi reformulado, uma seleção de livros que serão reeditados foi feita, assim como a aquisição de publicações inéditas no Brasil. E sim, todos são livros escritos por mulheres e para mulheres.

"A história das mulheres em vários campos foi abafada. Existe toda uma história da medicina de mulheres, de mulheres cientistas e ninguém fala sobre isso porque não há interesse. E não interessa porque não foi priorizado. Assim como foi priorizada uma história branca, foi priorizada uma história masculina", afirma a editora-executiva.

Para Roberta Machado, vice-presidente e diretora comercial da Record, além de uma demanda de mercado, retomar o selo é contribuir ainda mais para o debate sobre direitos das mulheres: "Ficou bacana, porque montamos um modelo bem 'feminino' de gestão. A 'Rosa' é totalmente colaborativa, sem hierarquia, com editoras de perfis distintos, todas motivadas e unidas pelo objetivo que é gerar o melhor conteúdo para contribuir pro debate, sempre".

Feminismo em Comum - Para todas, todes e todos, da filósofa Márcia Tiburi, foi o primeiro livro publicado pelo selo, lançado em janeiro deste ano. Em 2018, serão publicadas oito obras. Para o primeiro semestre, já estão em produção os livros O mito da beleza, de Naomi Wolf; Mamãe&Eu&Mamãe, de Maya Angelou, e A terra das mulheres, de Charlotte Perkins Gilman.

Em parceria com o Instituto Rose Marie Muraro, sediado na Glória, no Rio de Janeiro, cada exemplar publicado pelo selo será enviado à biblioteca mantida pela instituição.

"O relançamento do selo Rosa dos Tempos é importante porque sua criação foi para dar voz as mulheres. Foi a primeira editora dedicada aos diversos temas que são importantes para o desenvolvimento das mulheres e consequentemente para a sociedade. É importante também manter viva a história de duas mulheres guerreiras [Rose e Ruth]", completa Tonia Muraro, diretora-executiva do Instituto e filha de Rose Marie Muraro, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Quem foi Rose Marie Muraro

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Arquivo/Instituto Cultural Rose Marie Muraro
A escritora e editora Rose Marie Muraro, uma das líderes do movimento feminista no Brasil.

Uma das maiores representantes do movimento feminista no Brasil, Rose Marie Muraro morreu em junho de 2014, aos 83 anos, após complicações de um câncer na medula óssea que já tratava há dez anos. A autora de Os seis meses em que fui homem (1993) e Por que nada satisfaz as mulheres e os homens não as entendem (2003), escreveu mais de 44 livros ao longo de sua carreira.

Em 1999, ela contou sua história na autobiografia Memórias de uma mulher impossível. Nele, ela conta como aprendeu desde cedo a lutar contra as dificuldades, físicas e sociais, com força e determinação em meio às limitações. Muraro nasceu praticamente cega, e somente aos 66 anos conseguiu recuperar parcialmente a visão com uma cirurgia. Estudou Física, foi escritora e editora de livros, assumindo a responsabilidade por publicações polêmicas e contestadoras.

"O homem também tem que se rever. É natural, com a mulher se liberando, que o homem tenha ficado perdido, entregado os pontos. Mas mulher autoritária é o mesmo que mulher submissa. O objetivo (do feminismo) é integrar homem e mulher, e só se pode integrar dois sujeitos", disse Rose Marie Muraro em entrevista à Folha de S. Paulo, em 1999.

Após a morte da intelectual, o Instituto Cultural Rose Marie Muraro foi criado para resguardar o legado dela e garantir às futuras gerações o direito de conhecer sua história. Enquanto viva, ela trabalhou arduamente para abrir espaço para "cabeças pensantes se reunirem e se aliarem em um objetivo comum para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa".

"Nossa missão hoje é continuar proporcionando este espaço principalmente para as mulheres, mas homens também, que tenham como objetivo uma sociedade mais humana e menos desigual", afirma Tonia que, também afirma que, no momento, a Instituição busca novas possibilidades de gestão para conservar o espaço e o acervo daprimeira biblioteca especializada em estudos de gênero do Brasil.

Segundo Tonia, sua mãe finalizou sua última obra pouco antes de falecer, em que retrata sua "impossível história de amor". "Tenho uma vontade muito grande de lançar este livro inédito pelo ICRM e agora, se for possível, com o selo da Rosa dos Tempos. Acho que Rose e Ruth estão conspirando a nosso favor".