LGBT
26/02/2018 06:00 -03 | Atualizado 26/02/2018 10:45 -03

Como o novo filme de Desiree Akhavan quer problematizar ‘terapias de reversão sexual’ na adolescência

A atriz diz que o filme 'The Miseducation of Cameron Post', premiado no festival de Sundance, deveria ser o “maior pesadelo” do governo norte-americano.

Forrest Goodluck, Sasha Lane e Chlöe Moretz em “The Miseducation of Cameron Post”.
Cortesia do Festival de Sundance
Forrest Goodluck, Sasha Lane e Chlöe Moretz em “The Miseducation of Cameron Post”.

O tipo de filme que trata da passagem da adolescência para a vida adulta vive um momento especial, com razão.

Depois do sucesso de Ladybird: A Hora de Voar e Me chame pelo seu nome, vem The Miseducation of Cameron Post (A deseducação de Cameron Post, em tradução livre), de Desiree Akhavan, que levou o grande prêmio do júri na edição de 2018 do Festival de Cinema de Sundance em janeiro. Apesar de ainda não ter distribuidor, o apelo do filme nos dias de hoje é aparente: a história adolescente envolve a realidade da chamada "terapia de conversão sexual", uma prática pseudocientífica desacreditada que alguns dizem ter sido apoiada pelo vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence. (Pence deu declarações durante a campanha eleitoral de 2000, sugerindo apoiar a terapia de conversão, mas um porta-voz afirmou em 2016 ser "patentemente falso" que Pence "tenha apoiado ou defendido" a prática.)

O filme acompanha Cameron Post (Chlöe Grace Moretz), uma jovem de 17 anos que é mandada pela por sua tia a um acampamento chamado God's Promise (promessa de Deus) depois de ser surpreendida no ato com sua melhor amiga, Coley (Quinn Shepard) no banco de trás do carro de um amigo no dia do baile de formatura.

O God's Promise é mantido por uma dupla de irmãos conservadores, o pastor Rick (John Gallagher Jr.) e Lydia Marsh (Jennifer Ehle), e se especializa em terapias para "curar" adolescentes que "sentem atração por pessoas do mesmo sexo".

Cameron encara não só seus próprios desejos, mas os dilemas dos outros participantes do tratamento, incluindo Jane Fonda (Sasha Lane, estrela de O Regresso), o jovem da tribo Lakota Adam Red Eagle (Forrest Goodluck, também de O Regresso) e a fanática por futebol americano Erin (Emily Skeggs, de Uma Tragicomédia em Família). Com uma mistura surpreendente de comédia e drama, o filme de Akhavan trata das pressões que os jovens enfrentam para se conformar com os ideais impenetráveis de adultos equivocados.

Cameron Post é baseado em um romance de 2012 escrito por Emily M. Danforth. O livro conta a história de Cameron, uma menina que tem 12 anos na década de 1990 e está tentando entender o fato de que é homossexual. Apesar de a adaptação para o cinema se concentra em Cameron aos 17 anos, a mensagem é a mesma: sim, a terapia de conversão é real e, sim, ela ainda existe hoje.

Durante o festival, conversei com Chlöe Grace Moretz e Sasha Lance para falar sobre histórias de passagem à vida adulta nos tempos da Presidência de Donald Trump e o que o ajuste de contas em Hollywood significa para a nova geração de atores. Infelizmente, antes de nossa entrevista, um assessor me informou que Moretz não está respondendo perguntas sobre o controverso filme I Love You, Daddy, dirigido e estrelado pelo comediante Louis C.K., que admitiu ter assediado mulheres. Em uma entrevista prévia com a revista Variety, Moretz disse: "Eu poderia falar só da minha experiência, mas acho mais importante falar do movimento como um todo".

Veja o que Moretz disse sobre o "movimento como um todo" abaixo:

John Parra via Getty Images

"The Miseducation of Cameron Post" foi meu filme predileto do festival. O que vocês acharam quando o viram pela primeira vez?

Sasha Lane: Tenho muito orgulho. Acho que acertou em todas as mensagens, no tom. Foi incrível. Adorei assistir. Dá nervoso ver-se na tela, mas depois de alguns minutos eu pensei: "Mano, esse filme é demais".

Chlöe Grace Moretz: Sim, o filme é incrível.

No set vocês sentiam que o filme teria tanto impacto?

SL: Eu meio que sabia, especialmente porque estávamos filmando na época da eleição, então tinha essa sensação de, puta merda, estamos realmente fazendo esse filme, e ele é muito relevante. Teve isso. Mas vendo de novo, pensei: "Uau, o filme é realmente incrível".

CM: Nós viramos as personagens, e as personagens viraram nós. Filmamos em 23 dias. Foi muito rápido. Nos jogamos de cabeça e demos tudo.

Sendo atrizes jovens em Hollywood, como foi pegar papeis tão dinâmicos como Cameron e Jane?

SL: Acho que Jane Fonda era a mãezona do grupo, e sempre fui assim com minha família e meus amigos. Foi legal ter essa mentalidade de manter todo mundo no mesmo barco. É um papel legal. Muito reconfortante.

CM: Foi muito diferente das outras coisas que fiz na minha carreira, e isso foi importante porque foi meu primeiro filme depois de uma pausa de um ano na carreira. Queria muito fazer algo que fosse próximo de mim [Nota do editor: Moretz tem dois irmãos gays], que me permitisse mostrar algo que ainda não tinha mostrado na tela. E, ao mostrar esse lado na tela, acho que abri minha cabeça para outras partes da minha vida emocional, minhas perspectivas.

Foi assustador se jogar nessa personagem, Chlöe? Algumas cenas são muito cruas e muito diferentes do que estamos acostumados a ver de você.

CM: Com certeza. Você tenta se jogar de cabeça e, se pensar demais nas cenas que vai gravar, acho que pode perder o ponto.

SL: Tem de ser destemido, ir lá e fazer.

CM: Isso. Não pensar, só atuar com base na emoção e no sentimento. E foi fácil, especialmente com Ashley Connor, nossa diretora de fotografia. Quase todas as cenas eram só com ela, a câmera e a gente.

SL: E ela te dava espaço.

Como foi a preparação? Você ficou surpresa ao saber que ainda existe terapia de conversão?

CM: Foi um choque para todos. Mesmo depois de ler o roteiro, provavelmente entramos no Google. Tipo: "Isso é real?"

SL: Depois de saber um pouco mais, você ainda está tipo: "Isso é verdade, acontece mesmo?" São muitas emoções. Você sente muita empatia. É uma merda. Mas o que esse filme mostra é meio que uma outra perspectiva, em que essas pessoas [os conselheiros] realmente acham que estão fazendo alguma coisa. Que estão realmente ajudando essas pessoas. Você começa a pensar nisso também. Meio que fode com suas ideias.

CM: Tivemos a sorte de conhecer várias pessoas que passaram por isso, ouvir as histórias. A verdade é que muitas dessas histórias, e o que eles disseram ter passado, eram pesadas demais para colocar [no filme]. Eles contaram coisas mais pesadas do que tem no filme, e o que está lá já é realmente muito, muito pesado. De novo, é dar-se conta de que não são histórias de 15 anos atrás, são histórias de quatro anos atrás, dois anos atrás, um ano atrás. Hoje, a terapia de conversão é ilegal em somente nove Estados neste país, e só é ilegal para menores de idade. New Hampshire, há duas semanas, votou contra a proibição [Nota do editor: o projeto de lei que proibia a terapia de conversão foi derrotado por um voto na Assembleia Legislativa do estado, no mês passado.] A realidade é que Mike Pence é nosso vice-presidente, Donald Trump é nosso presidente, e o governo não está lutando pelos direitos da população LGBTQ.

Vocês acham que o filme vem num bom momento por causa dessa realidade?

SL: Ele é relevante e tem impacto. As pessoas conseguem se conectar com ele.

CM: Acho que uma das resenhas tinha o título: "Este filme é o maior pesadelo de Mike Pence". E é isso aí, deveria ser mesmo. Deveria ser o maior pesadelo deste governo.

Filmes de Hollywood deveriam testar os limites do governo?

CM: 100%

Você acha que a indústria do cinema está tentando fazer isso – contar histórias que tocam em pontos e questões importantes no mundo de hoje?

CM: De certas maneiras, sim. E, de muitas outras maneiras, não.

SL: Acho que estão tentando.

CM: Mas ainda é difícil lutar. Depende de que parte da indústria você está falando. Há estúdios, serviços de streaming, filmes independentes. A conversa acontece mais [nos filmes independentes], e isso é importante. Mais comunicação.

A realidade é que Mike Pence é nosso vice-presidente, Donald Trump é nosso presidente, e o governo não está lutando pelos direitos da população LGBTQ.

Sundance, especialmente este ano, parece destacar filmes que estão querendo dizer algo a respeito da nossa realidade. Enquanto, como você diz, dos grandes estúdios você vê filmes de super-heróis e pensa... não é muita coisa.

CM: Você pensa, hmmmm, os papeis de gênero ainda são uma confusão!

SL: Tipo, do que é que estão falando?

CM: De nada!

No movimento Time's Up, vocês veem mais colegas vindo a público para testar os limites e lutar não só por seus próprios direitos, mas pelos direitos de outras atrizes?

CM: Acho que as pessoas estão sendo responsabilizadas.

SL: Essa é a principal força [por trás do movimento].

CM: E a comunicação. Você jamais contaria sua história para as pessoas alguns anos atrás, porque você pensava: "Me sinto sozinha". Mas acho que perceber que você não está sozinha – os maiores atores e atrizes dessa indústria, os menores atores e atrizes dessa indústria, todos temos uma história. Todo mundo passou por coisas parecidas. E perceber isso dá uma sensação de apoio. Também te permite mostrar solidariedade e dizer: "Vai se f... F...-se o sistema. Vamos mudar. E que rolem as cabeças". AS cabeças têm de rolar, mesmo que seja por causa do silêncio [vozes]. Mesmo que você não tenha feito nada, deveria ter de perder a posição por ter ficado em silêncio, porque sabia.

As mulheres que vieram a público estão preparando o caminho para vocês, a nova geração de Hollywood? Ou vocês acham que estão no mesmo grupo, abrindo caminho para quem é ainda mais jovem?

CM: Acho que estamos no mesmo barco.

SL: Todo mundo está se manifestando, não acho que tenha a ver com idade.

CM: De certo modo, os mais jovens estão falando primeiro porque tem muita gente que não teria falado, pois cresceram em uma parte da indústria que era muito mais silenciosa. Agora, o fato de que todos estão se manifestando dá mais coragem para as atrizes dizerem: "Eu também. Foi isso o que aconteceu comigo no passado. Mas nunca senti coragem suficiente para reconhecer".

O que adoro no filme, também, é que ele é feito por mulheres – diretora, diretora de fotografia, editora, roteirista. Como foi fazer parte dessa comunidade feminina, que esperamos que se expanda para mais sets em Hollywood?

SL: Me senti fodona. Especialmente porque meus dois outros filmes também foram feitos por mulheres. Participar de algo que tinha mulheres na direção e na fotografia foi tipo: "Vamos continuar assim!" É uma sensação ótima.

CM: É onde você quer estar a essa altura na indústria. Se você não estiver tomando a decisão consciente de trabalhar com diretores mais conscientes, especialmente diretoras mulheres, está cometendo um erro. É algo em que todo mundo deveria estar pensando e certamente estava em primeiro plano para a gente.

Robby Klein via Getty Images
Sasha Lane 

Como vocês encontram papeis e ampliam suas fronteiras na indústria?

SL: Para mim, é puro sentimento. Tenho de sentir. Se leio um roteiro e não gosto ou não sinto conexão com ele, não faço. Acho que escolho bem.

CM: Para mim, tem mudado com o tempo, sabe? Quando você é mais jovem, meio que faz todo tipo de papel, para ganhar experiência e tentar coisas diferentes. Só uns dois anos atrás que dei um passo para trás e pensei: "O que quero fazer? Com quem quero trabalhar?"

E vi essa discrepância enorme na indústria a respeito de diversidade, em todos os fronts – atrás das câmeras, na frente das câmeras – e fiquei realmente nervosa. Em tantos filmes de estúdio que eu vinha fazendo, entrava nessas brigas, por uma diretora mulher ou um elenco mais diverso. E percebi – por que tenho de brigar por isso? Não deveria ser uma batalha! O fato de ter de dizer: 'Por que você não fez testes com X, Y e Z? Por que não está considerando esse diretor?" E eles nem estavam pensando no assunto. Pensei: "OK, vou dar uma pausa". Foi uma decisão consciente de ser proativa, trabalhando com diretoras, e funcionou a meu favor.

O que vocês esperam que esse filme desperte não só para quem assistir, mas também para as pessoas de Hollywood?

SL: Que conversem, que sintam. Repetimos sempre: comunicação, comunicação, comunicação. Conhecimento, nova perspectiva, despertar.

CM: Exatamente, conhecimento. Às vezes você é colocado em certas circunstâncias quando é jovem, ou nasce em uma família na qual parece não se encaixar. Não aceite as coisas como elas são – você pode encontrar sua própria vida. Você pode criar a vida que quer levar. Você nunca está sozinho. Você pode encontrar pessoas que vão preencher seu coração. E esses relacionamentos são muito importantes no seu crescimento. Esse apoio. Isso é muito aparente no filme e te pega.

Também ter isso em primeiro plano na sua cabeça, pensando: "Essa questão é gigante". Procure no Google, busque as estatísticas. Se você passar por terapia de conversão, tem oito vezes mais chances de tentar suicídio; três vezes mais chances de usar drogas ilegais; três vezes mais chances de contrair HIV. Essas estatísticas são reais e inegáveis, basta procurar no Google. O fato de que as pessoas podem assistir isso, e não é como tomar remédios, basta procurar no Google e se educar – isso tem impacto.

É um filme sobre a transição para a vida adulta, com uma mensagem poderosa. Foi isso o que te atraiu?

CM: É a mesma reação à autoridade que todo mundo passa na adolescência, mas de repente você joga terapia de conversão no meio, e o fato de ser gay e jovem. Mas, no fundo, não importa se você seja gay ou hétero ou de onde vem, pode entender e ser capaz de criar empatia.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.