MULHERES
23/02/2018 17:04 -03 | Atualizado 25/02/2018 10:54 -03

Por que você precisa conhecer Simone de Beauvoir para além de 'O Segundo Sexo'

Com o seu "ninguém nasce mulher, torna-se", Beauvoir abalou as normas e padrões de normalidade em 1949.

Ícone do pensamento filosófico feminista e uma das principais representantes do movimento existencialista francês do século XX, Simone de Beauvoir nasceu em Paris, em 9 de janeiro de 1908.
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Ícone do pensamento filosófico feminista e uma das principais representantes do movimento existencialista francês do século XX, Simone de Beauvoir nasceu em Paris, em 9 de janeiro de 1908.

Não é exagero afirmar que O Segundo Sexo é a obra que originou o feminismo contemporâneo e traçou o caminho para a teoria de gênero e para que o mundo enxergasse uma nova concepção do papel da mulher na sociedade. Também não é exagero dizer que este é o livro mais conhecido -- e lido -- da filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir.

"Ninguém escreveu algo que foi tão importante quanto, não só para as mulheres da minha geração, mas para as mulheres de hoje também", constata Mirian Goldenberg, antropóloga e professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) em entrevista ao HuffPost Brasil. "Todos os livros dela são muito atuais, porque falam da condição feminina, que é universal, que não é datada", aponta.

Com o seu "ninguém nasce mulher, torna-se", Beauvoir abalou as normas e padrões de normalidade à época. Não à toa o livro foi excomungado pela igreja em 1956, quando as traduções impulsionaram a difusão das ideias dela -- que provaram que tudo aquilo que "se torna" pode ser desconstruído.

Mas o que poucos sabem é que a obra de Beauvoir vai muito além do clássico O Segundo Sexo. Entre os compilados de cartas que já escreveu, romances e contos está sua pouco conhecida trilogia autobiográfica.

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A escritora francesa Simone De Beauvoir, em 1953, lendo em sua mesa de estudos em sua casa, em Paris.

Memórias de uma moça bem-comportada, A força da idade e A força das coisas são os livros em que Beauvoir descreve as memórias de si mesma ainda como uma filósofa e feminista em construção. "Quem lê consegue enxergar a vida pelos olhos da Simone; ter a visão dela do dia a dia, entender como foi a construção da filósofa que ela se tornou", aponta Ana Carla Sousa, editora dos livros dela no Brasil pela Nova Fronteira que, em abril deste ano, lançará o box "Memórias" com uma reedição da trilogia em parceria com a Amazon.

A trilogia de Beauvoir

O primeiro volume da autobiografia de Beauvoir chama-se Memórias de uma moça bem-comportada, que pode ser entendido como um relato vívido de sua infância e adolescência dentro de uma família burguesa respeitável no começo do século XX. O livro é marcado pela rebeldia dela contra a opressão da Igreja e da família, que fomentam a emancipação de uma menina apaixonada por livros e pela vida. Ela escreve:

Por que resolvi escrever? Temia a noite, o esquecimento; o que eu vira, sentira, amara, era-me desesperante entregá-lo ao silêncio. Comovida com o luar, desejava logo uma caneta, um pedaço de papel e saber utilizá-los. Escrevendo uma obra tirada da minha história, eu criaria a mim mesma de novo e justificaria minha existência.

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Em "A Força da Idade", o livro traz um panorama sobre a construção dos anos decisivos na formação literária, filosófica e política da intelectual francesa.

No segundo volume, A força da idade, retrata sua vida dos 21 aos 36 anos, ou seja, de 1929 até 1944, um momento particular da trajetória da filósofa. Segundo Goldenberg, o "livro é uma ode à liberdade": "Ela escolheu inventar um vida por ela mesma, diferente do modelo do que se vivia naquela época e que ainda se vive hoje, inclusive. Apesar da guerra, do nazismo, do fascismo, ela se reinventa como mulher, como escritora, enfim. Tudo é sobre a ideia de liberdade, mas também sobre felicidade".

Para Beauvoir, 1929 foi um ano marcante. Foi quando ela decidiu morar sozinha, começou sua parceria com Sartre, começou a trabalhar como professora e a ganhar o próprio dinheiro. Ela decidiu não casar, não ter filhos. "É neste momento, quando ela se emancipa economicamente, quando ela sai de casa, quando ela decide viver uma vida diferente com o Sartre é que ela descobre que ela era completamente feliz. Ela era livre", aponta a antropóloga.

Nada nos limitava, nada nos definia, nada nos sujeitava; nossas ligações com o mundo, nós é que as criávamos; a liberdade era nossa própria substância.Simone de Beauvoir, sobre seu relacionamento com Sartre em 'A força da idade'.

O livro também traz um panorama sobre a construção dos anos decisivos na formação literária, filosófica e política da intelectual francesa e delimitando a época áurea do existencialismo francês. Já a terceira parte de suas memórias, A força das coisas, inicia-se na chamada "Paris da Libertação". É o fim da Segunda Guerra Mundial, a França está liberta do poder hitlerista, e a Europa está pronta para recomeçar. Beauvoir também recupera histórias de viagens que fez da Espanha à Austria e expõe o cotidiano da intelectualidade francesa da época.

Estávamos livres. Nas ruas, as crianças cantavam (...) e eu repetia para mim mesma: Acabou, acabou.Simone de Beauvoir em 'A força das coisas'.

É neste terceiro livro também que Beauvoir relata sua visita ao Brasil. "Ela fala muito das viagens que ela fez em A força da idade. Ela veio com Sartre e boa parte da estadia dela aqui foi guiada por Jorge Amado. Quer dizer, três ícones juntos, né? Ela leva um bom pedaço do livro falando sobre essa visita", detalha a editora Ana Carla Sousa.

O resultado desta viagem foi a primeira publicação de O Segundo Sexo no Brasil. Em 1960, Beauvoir e Sartre viviam o auge de seu sucesso como escritores e filósofos e participavam ativamente do cenário político mundial. Ambos vieram ao Brasil após uma visita a Cuba. Aproveitando a ocasião, a editora Difusão Europeiado Livro, que já tinha publicado dois romances dela no País, aproveitou a oportunidade e lançou 2 volumes do clássico de Beauvoir, na tradução de Sérgio Millet.

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Uma foto de arquivo datada de 21 de setembro de 1960 dos intelectuais franceses Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.

E a publicação do livro deu às brasileiras a argumentação precisa para responder aos argumentos das diferenças biológicas que justificavam a superioridade masculina. "Pertenço à geração de mulheres para as quais os livros de Simone de Beauvoir, especialmente O segundo sexo e Memórias de uma moça bem comportada, tiveram uma importância decisiva", escreve Maria Lygia Quartim de Moraes, professora do Departamento de Sociologia do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da Unicamp em artigo para a Boitempo.

"[Os livros] Ajudaram a nomear um mal-estar difuso e a entender a situação da mulher como produto da história e da sociedade. Mais do que isso, a experiência de Simone e seu pacto amoroso com Sartre exerceram um fascínio extraordinário. Simone não queria ter filhos, nem criar família, tampouco viver como uma burguesa acomodada", completa.

Para ler Simone de Beauvoir

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"Os Mandarins" é um dos romances mais famosos de Simone de Beauvoir. Nele, ela descreve a atmosfera febril da França entre 1944 e 1948: as repercussões da guerra e a agitação intelectual.

Para a antropóloga Mirian Goldenberg, ler Beauvoir é algo fundamental: "Eu li Simone de Beauvoir pela primeira vez quando eu tinha 16 para 17 anos. Estava entrando na faculdade e li O Segundo Sexo e foi fundamental para a minha vida".

Segundo ela, para quem quer conhecer a filósofa, o ideal é começar pelo clássico O Segundo Sexo, mesmo. "É uma síntese de tudo o que ela vai falar em todas as obras dela e é o livro mais importante para a libertação das mulheres", afirma.

Mas, depois, para quem quer mergulhar na obra completa da filósofa, a trilogia autobiográfica é o ideal -- além de ler os romances que ela já publicou como Os Mandarins (foto acima) que também tem um caráter autobiográfico.

"Eu li também muitos artigos sobre ela, sobre o casal; existem algumas entrevistas disponíveis no Youtube que são maravilhosas, mas isso eu deixaria para depois". E dá a dica: "Primeiro eu mergulharia na obra dela para depois ver os filmes, as entrevistas, porque aí dá um outro patamar de conhecimento."