LGBT
23/02/2018 06:00 -03 | Atualizado 25/02/2018 11:03 -03

Por dentro do monólogo comovente de Michael Stuhlbarg em 'Me chame pelo seu nome'

Chore conosco. Como diz o professor Perlman, “a natureza tem jeitos inesperados de localizar nosso ponto mais fraco”.

Atenção: Este texto contém spoilers de Me chame pelo seu nome

Se você já ouviu comentários sobre alguma cena específica de Me chame pelo seu nome, devem ser ou sobre a cena em que Timothée Chalamet faz sexo com um pêssego ou sobre "o monólogo".

As pessoas que conhecem o filme ou o livro elogiado de André Aciman sobre o qual o filme é baseado vão entender essas alusões. Afinal, 2017 foi o ano em que transar com frutas virou mainstream. Mas, por mais que eu adoraria passar as próximas 1.200 palavras falando daquele pêssego suculento, vamos falar do monólogo. Aquele monólogo belíssimo.

É o momento culminante do filme: o monólogo do professor Perlman (Michael Stuhlbarg), pai de Elio (Chalamet), de 17 anos, que se apaixona por um estudante pós-graduando chamado Oliver (Armie Hammer) durante um verão lindo e doloroso na casa de campo italiana de sua família. Elio acaba de se despedir de Oliver, e Perlman o consola com palavras escolhidas com delicadeza e que provocam a inveja de todo jovem queer que já ansiou ouvir de seu pai ou sua mãe que "as coisas vão melhorar".

O diretor Luca Guadagnino e o roteirista James Ivory reproduziram quase integralmente o monólogo do texto de Aciman, retirando apenas algumas sentenças. Mesmo trechos de texto em que Aciman apresenta a ambientação da cena estão presentes nas orientações do roteiro, guiando a conversa à medida que ela se desenrola sobre um sofá na sala de trabalho de Perlman. Por exemplo: "O tom dele diz: não precisamos falar disso, mas não vamos fazer de conta que não sabemos do que estou falando", aparece no romance e também no roteiro.

O discurso de Stuhlbarg é exemplificado à perfeição pelas seguintes palavras (a pontuação e as maiúsculas são do roteiro):

Quando menos esperamos, a Natureza tem maneiras inesperadas de localizar nosso ponto mais fraco. Lembre-se de uma coisa: estou aqui. Neste exato momento você talvez não esteja querendo sentir nada. Talvez você nunca quisesse ter sentido nada. E talvez não seja a mim que você vai querer falar dessas coisas um dia. Mas é óbvio que você sentiu alguma coisa, sim.

Vocês tiveram uma amizade linda. Talvez mais que uma amizade. E eu invejo você. A maioria dos pais, se estivesse em meu lugar, torceria para isso tudo acabar, rezaria para seu filho acabar se endireitando. Mas eu não sou um pai assim. Em seu lugar, eu diria: se há uma dor, cuide dela com carinho. E, se há uma chama, não a apague. Não seja brutal com ela. Arrancamos tanta coisa de nós mesmos para nos curarmos mais rapidamente das coisas que aos 30 anos já estamos falidos e temos menos a oferecer cada vez que começamos com uma pessoa nova. Mas insensibilizar-se para evitar qualquer dor – que desperdício!

Dois trechos que foram extirpados do texto de Aciman: "A abstinência pode ser uma coisa terrível quando ela não nos deixa dormir, e ficar assistindo a outros nos esquecerem em menos tempo do que gostaríamos de ser esquecidos não é melhor que isso". E: "A maioria de nós não consegue deixar de viver como se tivéssemos duas vidas a viver. Uma é a maquete ou o protótipo da vida, a outra é a versão pronta, e há também todas as versões intermediárias."

Em entrevista que deu antes do lançamento limitado do filme em novembro — Me chame pelo seu nome teve lançamento comercial amplo no último 19 de janeiro, alguns dias antes de receber quatro indicações ao Oscar, incluindo a indicação ao troféu de melhor filme —, Stuhlbarg me contou que fez o monólogo em duas versões. Sua primeira versão foi mais emotiva, mais cheia de sentimento; a segunda, aquela que Guadagnino escolheu, "com razão", foi "um pouco mais direta".

Lido no papel, o monólogo soa muito literário – apropriado para um acadêmico como o professor Perlman, estudioso de antiguidades gregas, mas difícil de ser apresentado por qualquer ator com uma cadência natural.

"Nunca se sabe como um texto vai ficar quando tentamos absorver todo seu peso", disse Stuhlbarg. "Acho que não houve uma opção consciente da minha parte de fazer o discurso ter tom menos professoral. Acho que o texto já cuida disso. Minha preocupação foi fazer que soasse verdadeiro e fazer parecer que Perlman estava escolhendo suas palavras com cuidado. Dito por outro ator, teria sido diferente. Acho que a linguagem fala por si só. Tentei fazê-la viver em mim ao longo das cinco semanas e pouco que tivemos, porque rodamos o filme em ordem cronológica. Eu queria ouvir o texto na minha cabeça, do jeito que pensava que poderia ser dito."

Durante a cena do monólogo, a câmera se concentra sobre Stuhlbarg quase o tempo todo. Ele bate com um cigarro no cinzeiro que tem em seu colo e pega um copo de uísque para cortar o silêncio entre sentenças. Às vezes olha para baixo, como se estivesse refletindo sobre suas próprias recordações de juventude, mas na maior parte do tempo olha nos olhos de Elio, cheios de lágrimas. "Elio fica pasmo, tentando apreender tudo isso", observa o roteiro, mais ou menos como a narração feita na primeira pessoa no romance. "Eu não conseguia nem começar a entender tudo isso. Estava pasmo", diz Elio no livro.

"Como você vive sua vida é algo que só você pode decidir", Perlman prossegue, enquanto a música suave de piano começa a ser ouvida. "Lembre-se de uma coisa: nosso coração e nosso corpo nos são dados apenas uma vez. E, antes de você se dar conta do que aconteceu, seu coração já está cansado. Quanto a seu corpo, chega um momento em que ninguém mais olha para ele, muito menos quer chegar perto dele. Neste momento você está sentindo tristeza. Dor. Não mate isso, não mate junto com isso a alegria que você sentiu."

Uma pausa. Elio faz que sim com a cabeça, absorvendo os conselhos.

"Talvez a gente nunca mais volte a falar disso", prossegue seu pai. "Mas espero que você nunca sinta raiva de mim porque falamos. Se algum dia você quiser falar comigo e sentir que a porta está fechada, ou não está suficientemente aberta, eu terei sido um pai terrível."

Na boca de Stuhlbarg, as palavras de Perlman são pura poesia – vestígios de uma vida vivida plenamente e orientação para uma vida ainda não tocada pela sabedoria da idade adulta.

A cena reflete as intenções de Guadagnino para o filme. Stuhlbarg contou que, antes do início da filmagem, "ficamos todos sentados em volta da mesa de jantar do diretor e lemos o roteiro juntos. Foi apenas esse o ensaio que alguns de nós fizemos. Guadagnino disse: 'Quero que seja uma história de amor, de luz, de alegria e curtição, que remeta àqueles verões idílicos que tivemos na juventude, se tivemos sorte. Nossos olhos se abriram e talvez tenhamos nos apaixonado de modo mais profundo'. Essa ideia contagiou o modo como contamos a história e transformou a filmagem numa experiência cheia de alegria, de uma maneira que eu jamais teria imaginado que pudesse ser."

Stuhlbarg, que aparece em dois outros filmes candidatos ao Oscar de melhor filme (A forma da água e The Post – a guerra secreta), não recebeu a indicação ao Oscar que merece, e Me chame pelo seu nome teve retornos apenas medianos nas bilheterias, apesar de ser tão fartamente elogiado.

Mesmo assim, a cena com que Stuhlbarg encerra o filme é uma verdadeira master class de atuação e roteiro. É o que diferencia este filme da maioria das histórias sobre gays, em que os personagens são julgados ou punidos (por seus pais, pares, cônjuges, mentores ou agressores) por sua sexualidade. Cada pausa delicada no monólogo é medida para captar o otimismo do filme. É algo que ao mesmo tempo nos parte o coração e nos infunde esperança.

"Adorei a história e fiquei muito grato por ser convidado a participar dela", disse Stuhlbarg. "Ela parece estar encontrando muito eco, estar sendo muito relevante e estar emocionando as pessoas. E é tudo o que podemos esperar, porque realmente nunca sabemos o que vai acontecer quando fazemos alguma coisa. A história teria sido narrada diferentemente por outro diretor – teria sido uma história diferente. Acho Luca um mestre e acho que ele articulou magistralmente a história que ele quis contar."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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