COMPORTAMENTO
22/02/2018 11:32 -03 | Atualizado 27/02/2018 11:21 -03

O que acontece com o seu cérebro em situações de medo e insegurança?

"O medo se torna um problema de saúde mental quando o que era para ser temporário persiste. Vivemos em um eterno estado de alerta."

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Uma pessoa exposta ao perigo de violência constante e a eventos traumáticos aumenta a chance de desenvolver um problema de saúde mental.

Ansiedade e medo são emoções normais e esperadas, tanto na existência humana quanto na de animais. Esses são instintos primitivos que têm um sentido de existir, já que quando estamos com medo, invariavelmente estamos mais em alerta ao que acontece em nosso entorno. No estado de alerta, são ativadas respostas fisiológicas que nos preparam para enfrentar um perigo, seja lutar contra um grande animal ou resistir a uma situação de violência.

Mas você sabe quando o medo e a ansiedade se tornam um problema de saúde mental?

De acordo com psiquatra Pedro Pan Neto, pesquisador da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), essas reações devem ser temporárias. Se elas persistem, tornam-se fobias e acabam por desencadear transtornos mentais.

"Uma pessoa exposta ao perigo de violência constante e a eventos traumáticos aumenta a chance de desenvolver um problema de saúde mental. O estresse é muito subjetivo e tem relação com a vulnerabilidade de cada pessoa", explica o psiquiatra em entrevista ao HuffPost Brasil.

Como o seu corpo reage em uma situação de medo e estresse?

Do ponto de vista cerebral, neurotransmissores como a serotonina e a adrenalina participam desse processamento.

Outra região importante que é ativada é a estrutura do hipotálamo e da amígdala cerebral.

No corpo, o coração começa a bater mais forte, ocorre a falta o ar e é impossível controlar a respiração.

Tudo isso se torna um ciclo vicioso em uma cadeia de eventos fisiológicos, com direito a boca seca e a formigamento em todos os membros.

Para recuperar o equilíbrio em momentos de estresse, Pedro Pan Neto aconselha focar em técnicas de respiração e relaxamento.

(Respire devagar: Inspirando e expirando)

O Brasil tem a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo e o quinto em casos de depressão, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde.

Para o psicólogo social Fabio Iglesias, pesquisador da UnB (Universidade de Brasília), o aumento da violência em grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro, está diretamente ligado ao recrudescimento desses quadros de ansiedade.

"As pessoas permanecem em um estado de alerta constante. E um dos efeitos disso é que a gente acaba sendo muito agressivo com as outras pessoas. Você se prepara para reagir sempre de uma maneira negativa em relação ao outro", argumenta Iglesias.

Para Iglesias, o medo do crime, muito mais que o crime em si, é que é responsável por gerar um problema social.

"Basta examinar: quantas vezes você foi assaltado ou sofreu qualquer tipo de ação criminal? Certamente foram algumas vezes, muito mais do que você gostaria, mas poucas vezes. Agora, quantas vezes você sentiu medo de ser assaltado? De que modo isso permeia a sua rotina? De que forma isso influencia como você se coloca no mundo, desde a escolha da sua roupa até o lugar que você vai frequentar?", questiona.

Em 2017, a violência no Rio de Janeiro foi comparada a situações vividas em guerras. Foram mais de 6 mil mortes violentas, de acordo com os dados do Instituto de Segurança Pública. No total, 7 em cada 10 moradores do Rio afirmaram querer deixar a capital por conta da violência.

Para o psicólogo, os números assustam, mas ainda são pouco compreendidos frente aos efeitos que isso tem em nosso comportamento e em nossa saúde.

Por exemplo, quem vive em constante estado de tensão sofre mais do coração, tem maior predisposição a doenças respiratórias e de estresse, explica o psicólogo social. Outro comportamento observado é a escalada de agressividade urbana.

"Muitas vezes você tem mais pequenos problemas de agressão entre as pessoas do que propriamente os casos de disparos da arma do bandido, mas isso não é contabilizado. É o caso das brigas de trânsito, por exemplo. Em sociedades pacíficas você não tem tantos motivos para que o outro seja tão agressivo com você."

Pilar Olivares / Reuters
Intervenção federal no Rio de Janeiro.

O suporte social e a vigilância no controle do medo

Mas como conviver com a escalada de violência? Para o psicólogo, o suporte social é o melhor antídoto para a sensação de medo. "Nós precisamos criar vínculos para nos sentirmos seguros", comenta.

Em Morte e Vida das Grandes Cidades, Jane Jacobs traz o conceito de "os olhos das ruas" para defender que o planejamento urbano tem impacto direto na redução da criminalidade. Ações aparentemente simples como o corte de árvores, a manutenção de jardins e a disposição de bancos para as pessoas sentarem tornam as ruas mais vivas, com a presença dos desconhecidos-conhecidos, e, invariavelmente, mais seguras.

"O crime geralmente ocorre em um lugar movimentado, porque gera anonimato, ou num lugar muito ermo, porque não é visível. No lugar que é vigiado, controlado, seja pelo porteiro ou pelas pessoas ocupando as ruas, geralmente não ocorre o crime. Porque a pessoa que vai cometer o crime se sente exposta e constrangida", argumenta Fabio Iglesias.

A prevenção por meio da análise do ambiente físico não é nenhuma novidade, explica o psicólogo social.

No início dos anos 90, Rudolph Giuliani, o então prefeito de Nova York, adotou a política da tolerância zero ao crime. Baseada nas premissas da psicologia social, a política não se tratava de ser intolerante apenas com os bandidos, mas de reprimir qualquer tipo de infração na cidade, até mesmo jogar lixo no chão.

"A ideia por trás da ação era de que se a população tivesse a percepção de que está tudo em ordem, o bandido pensaria duas vezes antes de cometer um crime. Se você tem uma percepção de manutenção do espaço e da vigilância natural, você fortalece o controle da criminalidade", acredita Iglesias.

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