ENTRETENIMENTO
21/02/2018 14:27 -03 | Atualizado 21/02/2018 14:50 -03

‘The Post’: Os atuais desafios da imprensa e como eles afetam o debate político

Indicado ao Oscar, longa-metragem de Steven Spielberg ressalta o valor do jornalismo livre na era Trump.

Divulgação/Fox
Meryl Streep (à esq.) e Tom Hanks interpretam Kay Graham e Ben Bradlee em drama que concorre ao prêmio de Melhor Filme neste ano.

O filme The Post — A Guerra Secreta aborda um momento decisivo e icônico na história da imprensa norte-americana: o jornal The Washington Post, no início dos anos 1970, decidiu publicar o conteúdo dos Papéis do Pentágono, um documento sigiloso de milhares de páginas sobre a participação dos Estados Unidos na política do Vietnã.

Os papéis, basicamente, provam que por muitos anos o governo soube que perderia a guerra contra os vietnamitas, mas ainda assim, enviou soldados às trincheiras para morrer. Enquanto isso, a Casa Branca mentia para os americanos, dizendo que o conflito estava ganho.

Katharine Graham (interpretada por Meryl Streep), a primeira mulher a ser publisher do jornal, e o editor Ben Bradlee (Tom Hanks) chancelaram a publicação de reportagens sobre o documento mesmo diante de retaliações do então presidente, Richard Nixon.

O republicano nunca foi, digamos assim, o maior entusiasta da imprensa — ele já havia amordaçado o New York Times, que começou a reportar sobre os papéis antes do Post, com uma liminar na justiça.

"The Post é um ótimo lembrete sobre o valor de uma imprensa livre e vem em uma época em que ela está cerceada não apenas nos Estados Unidos, mas em várias partes do mundo", conta ao HuffPost Brasil a colunista de mídia do Washington Post, Margaret Sullivan.

O conteúdo do documento comprometia tanto a gestão Nixon (1969–1974) quanto as anteriores, de John F. Kennedy (1961–1963), Dwight D. Eisenhower (1953–1961) e Harry S. Truman (1945–1953).

Em uma disputa na Suprema Corte contra ambos os jornais, a Casa Branca saiu perdendo, o que impulsionou a cobertura feita pelo NYT, pelo Post e por diversos outros jornais. Na ocasião, a mais alta corte norte-americana decidiu resguardar a liberdade da imprensa para prestar seu serviço à sociedade: reportar sobre as questões que lhe dizem respeito.

Divulgação/Fox
Na redação: em cena de 'The Post', jornalistas acompanham atentos à cobertura dos Papéis do Pentágono feita pela TV.

Pouco tempo depois, o jornal de Washington fez uma série de reportagens sobre o escândalo de Watergate, em que o comitê de Nixon espionou o Partido Democrata, de olho nas próximas eleições. O presidente acabou renunciando.

O filme de Spielberg traça nítidos paralelos entre as gestões Nixon e Trump. O atual presidente dos EUA, desde sua campanha eleitoral, deslegitima o trabalho da imprensa, muitas vezes classificando-a como "desonesta".

"A retórica anti-imprensa de Trump tem, de fato, um efeito prejudicial ao solapar os fundamentos básicos da democracia", diz Sullivan.

A ONG Repórteres sem Fronteiras mostra os EUA em 47º lugar em seu ranking de 2017, em um levantamento de 180 países. Os EUA caíram duas posições em relação a 2016, ano em que o republicano foi eleito.

"O presidente qualificou a imprensa como 'inimiga do povo americano' inúmeras vezes, em ataques verbais contra jornalistas", diz o relatório da RSF. "Também tentou restringir o acesso à Casa Branca de várias organizações de imprensa, em represália a artigos e reportagens críticos de sua administração."

Embora seja particularmente enfática sobre a gestão Trump, a ONG pondera que a gestão Obama também deixou a desejar em termos de liberdade de imprensa e garantia ao acesso à informação. A RSF avalia que a gestão do democrata "declarou guerra a delatores que revelaram informações sobre suas atividades, movendo mais processos do que jamais se viu em todos os antigos governos somados".

Nixon e Trump podem até ter semelhanças — mas os desafios do jornalismo mudaram com o passar dos anos. Na transição do consumo de mídia impressa para digital no final do século 20, os veículos de jornalismo têm sofrido brusca queda em suas receitas. O esquema do modelo de negócios, baseado principalmente em anúncios, foi "furado" pela publicidade digital.

Para Sullivan, o principal desafio hoje é encontrar um modelo bem-sucedido. "Especialmente para o jornalismo local, o que mais depende de anúncios impressos", diz.

Outro problema, defende a colunista, é a desconfiança dos consumidores de informação. A causa disso é, em parte, a quantidade de desinformação que circula na internet e os ataques sem fundamento que a credibilidade da imprensa sofre.

Sem dúvida, a ampla disseminação das "fake news" — mentiras ou informações distorcidas veiculadas principalmente nas redes sociais, como se fossem conteúdos de jornalismo profissional — tem tirado o sono das redações.

Divulgação/Fox

No início deste mês, a Folha de S.Paulo, um dos maiores jornais diários do Brasil, anunciou que deixaria de usar o Facebook para compartilhar notícias. O motivo é o algoritmo da rede, que "passou a privilegiar conteúdos de interação pessoal, em detrimento dos distribuídos por empresas, como as que produzem jornalismo profissional".

A Folha argumenta que a atitude da rede social pouco colabora com o debate público, pois o algoritmo "reforça a tendência do usuário a consumir cada vez mais conteúdo com o qual tem afinidade, favorecendo a criação de bolhas de opiniões e convicções, e a propagação das 'fake news'".

Neste cenário, o Washington Post segue com sua tradição de boas investigações. O jornal, inclusive, tem um departamento exclusivo para checagem e identificação de possíveis inverdades.

"Checagem, exatidão, equilíbrio e apoio à alfabetização midiática são os melhores antídotos à desinformação", propõe Sullivan.

"Nós podemos ajudar as pessoas a entenderem como nós trabalhamos. Transparência é cada vez mais importante, para que os consumidores de notícias façam seus próprios julgamentos a respeito de nossa credibilidade, em vez de simplesmente acreditarem cegamente."

A colunista sugere que chegou a hora de deixarmos de usar o termo "fake news", pois no debate político há quem se aproprie dele para solapar qualquer notícia que contrarie sua agenda.

"Vamos chamar a 'mentira' de 'mentira'. Vamos chamar a 'pegadinha' de 'pegadinha'. Chamar uma teoria conspiratória pelo seu nome correto", escreveu a jornalista. "Até porque, para começar, 'fake news' é um termo impreciso", pois pode ter significados diferentes para pessoas diferentes.

É a colaboração que o jornalismo deve fazer no atual momento em que tanto mentiras quanto as "pós-verdades" foram assimiladas aos debates. "Ficar o mais próximo possível da realidade verificável — a verdade — é a nossa melhor resposta a isso", diz a colunista.

Desde que se concretizou em 2016, a eleição de Trump, pelo menos em parte, tem sido frequentemente atribuída à propagação das fake news.

Natalia Viana, co-diretora da agência jornalismo investigativo Pública, conta que, no Brasil, a imprensa tem seus desafios particulares porque a sociedade brasileira viveu mudanças radicais nos últimos 20 anos.

"Tivemos um crescimento enorme da escolaridade, divisão de renda, acesso à internet", explica. "Em 2013, tivemos um momento catártico em que a população saiu para as ruas em grandes manifestações. Naquela ocasião, a imprensa tradicional jogou um papel dúbio. Os três principais jornais do País chegaram a pedir por violência policial e, depois, com o apoio das manifestações, teve que mudar seu discurso. Isso teve um impacto na percepção da população a respeito da mídia."

A cobertura feita pelos grandes veículos, conta Viana, também foi bastante contestada na época do impeachment de Dilma Rousseff (PT).

"Não dá para você dissociar a visão da população sobre esses veículos sem olhar o contexto do Brasil, que é um país cada vez mais polarizado, mas com características muito próprias."

Segundo a jornalista, a imprensa tradicional no Brasil tem vivido uma profunda crise de respeitabilidade, modelo e distribuição. Os novos veículos, os nativos digitais, enfrentam o desafio de se consolidarem, tornarem-se sustentáveis e conseguir permanência e impacto.

"Os desafios de ambos são bem diferentes, mas ao mesmo tempo, esses dois grupos têm um desafio em conjunto, que é o questionamento [que tem sido feito] ao valor do jornalismo e, mais do que isso, o valor da verdade."

Viana diz que Trump foi eleito principalmente porque os democratas se afastaram muito da realidade do povo norte-americano, e não apenas por causa das fake news. E, sem dúvida, a circulação delas aumentará ainda mais no Brasil nas eleições deste ano — isso é algo que já aconteceu nas duas últimas, de 2016 e 2014.

O papel das redes sociais nesse cenário, para a jornalista, é assimilar as críticas que têm sido feitas a elas, mas o que dificulta esse processo é o fato de o debate não ser público.

"São poucas as organizações que têm regulamentação, então não é uma decisão tomada pela sociedade em conjunto. O Facebook é uma empresa que tem grande influência sobre o debate público e toma as decisões sozinha. Acho louvável, por outro lado, que as redes sociais tenham buscado soluções. E as redações também."

No longa com Meryl Streep e Tom Hanks, os jornalistas lidam com outras questões, mas o objetivo de Kay Graham e Ben Bradlee atravessa décadas, gestões presidenciais e transformações tecnológicas: reportar a verdade, doa a quem doer. E ponto.

The Post — A Guerra Secreta está em cartaz nos cinemas brasileiros desde 25 de janeiro. Tem 116 minutos de duração, classificação indicativa 12 anos e distribuição da Universal.

Veja abaixo o trailer e os prêmios que o filme já venceu ou aos quais foi indicado.

Indicações ao Oscar:

  • Melhor Filme (Amy Pascal, Spielberg e Kristie Macosko Krieger);

  • Melhor Atriz (Streep).

Já venceu:

  • National Board of Review — Melhor Filme, Atriz (Streep) e Ator (Hanks);

  • American Film Institute (AFI) — Filme do Ano.

Outras indicações:

  • Globo de Ouro — Melhor Filme de Drama, Direção (Spielberg), Atriz em Drama (Streep), Ator em Drama (Hanks), Roteiro (Josh Singer e Liz Hannah) e Trilha Sonora (John Williams);

  • Critics' Choice — Melhor Filme, Direção (Spielberg), Atriz (Streep), Ator (Hanks), Roteiro Original (Singer e Hannah), Trilha Sonora (Williams), Montagem (Michael Kahn e Sarah Broshar) e Elenco;

  • Sindicato dos Produtores (PGA) — Melhor Filme (Pascal, Spielberg e Krieger).

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