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20/02/2018 21:04 -03 | Atualizado 23/02/2018 21:22 -03

Jovens negros do Rio que gravaram manual de sobrevivência temem intervenção federal

"A intervenção é só a ponta de um iceberg de vários direitos que estão sendo relativizados. Por isso que estamos assustados."

Eduardo Carvalho, Spartakus Francisco e AD Junior produziram vídeo com manual de sobrevivência em abordagens de policiais e militares.
Reprodução/Facebook
Eduardo Carvalho, Spartakus Francisco e AD Junior produziram vídeo com manual de sobrevivência em abordagens de policiais e militares.

Três jovens negros produziram um manual de sobrevivência para homens como eles, que são alvo de violência policial em comunidades e favelas do Rio de Janeiro. O HuffPost Brasil conversou com AD Junior, do canal Descolonizando, com o youtuber Spartakus Francisco, do Spartakus Vlog, e com o jornalista Eduardo Carvalho sobre a rotina que eles denunciaram em vídeo e sobre como a intervenção federal, em debate no Senado, pode impactar a vida deles.

"A gente sobrevive há muito tempo. Essa intervenção não vai mudar a nossa vida. Vamos continuar vivendo com medo e doentes. Doenças não só físicas, mas psicológicas por ter medo de viver", compartilha AD Junior.

O vídeo produzido pelo trio chama atenção para o contexto de violência vivida não só por quem "mora no asfalto", mas também para os "inocentes que moram em comunidades cariocas".

Entre as recomendações, eles alertam que jovens negros não devem sair de casa sem documento, precisam avisar sempre os amigos aonde estão indo e devem estar sempre com o celular carregado caso necessitem ligar para alguém ou gravar algo que seja necessário.

"Muita gente achou que era um vídeo de humor ou de deboche, porque a gente fala de coisas tão óbvias que não parece sério. Beira o irônico, principalmente porque algumas recomendações são tão necessárias. Eu, que moro na favela, se comprar um Iphone hoje, é óbvio que vou andar com o cupom fiscal. Simples. Parece irônico, mas não é. Isso que choca as pessoas. Porque beira ao irreal ter que usar a nota fiscal em todos os lugares", argumenta Edu Carvalho.

No vídeo, o trio faz referência a casos simbólicos de violência em que as vítimas, por serem negras, tiveram os seus direitos violados, como no caso do ator Diogo Cintra, espancado após seguranças do metrô negarem ajuda, e do catador Rafael Braga, detido em junho de 2013 sob a posse de garrafas de detergentes.

Para Spartakus Francisco, o pior dos cenários é se a presença de militares nas favelas cariocas legitimar uma série de violências "que sempre existiram, mas que são pouco expostas".

Só em 2016, 4.424 pessoas foram mortas por violência policial no País, de acordo com os dados do Fórum de Segurança Pública. Para a organização Human Rights Watch, a violência policial é um problema crônico do Brasil.

"A intervenção é só a ponta de um iceberg de vários direitos que estão sento relativizados. Por isso que estamos assustados", compartilha Spartakus em entrevista ao HuffPost Brasil.

Os direitos dos cidadãos em abordagens policiais

De acordo com Spartakus, o objetivo do vídeo não era criticar o trabalho dos policiais, mas colocar em debate uma discussão que é silenciada.

"As redes sociais são as nossas ferramentas para democratizar e levantar informações. Porque a mídia tradicional nem sempre consegue isso, simplesmente porque são conteúdos produzidos por pessoas que não têm essa vivência. Com o nosso trabalho, a gente quer alertar a população sobre os seus direitos. E quem não concorda com isso simplesmente é porque não tem noção dos seus privilégios, não tem noção que existe uma realidade muito mais dura para além daquela que vive."

Com a repercussão do post, o jornal Extra, um dos principais do Rio de Janeiro, dedicou uma página da edição desta terça-feira (20) para um infográfico sobre como agir durante as operações militares.

"O Brasil só vai mudar quando a gente mudar a estrutura de como enxergamos o preto no Brasil. Você vai colocar a polícia na boca da favela para sinceramente fazer o quê?", questiona AD Junior.

Para Eduardo, o efeito do decreto legislativo na segurança dos moradores de favela é preocupante. "A intervenção vai piorar a situação. Eu vivo aqui; a Rocinha teve aparato militar em setembro. A gente presenciou situações de abuso de poder, de violação de direitos, muitas casas foram reviradas", acusa.

Nesta semana, o governo anunciou que a intervenção federal no Rio demandará mandados de busca e apreensão coletivos. Ou seja, a Justiça poderá autorizar essas operações policiais em uma área bem abrangente. Assim, comunidades inteiras podem ser alvo de busca e apreensão.

De acordo com o ministro da Defesa, Raul Jungmann, essa não é uma carta branca para as Forças Armadas, mas sim um mecanismo de atuação para o caso de deslocamentos de criminosos pela geografia da favela.

"Quem é branco acha que o negro não discute racismo em casa"

Se para alguns as recomendações dos ativistas parecem absurdas, para quem convive com a violência policial elas não passam de um hábito.

"Quando eu fiz 18 anos, meu pai não me parabenizou com um carro. Ele me deu um recado: a partir de agora anda com um documento porque eles podem te prender e a gente não quer perder você. São essas as conversas que temos dentro de casa", afirma AD Junior.

Para o ativista, o vídeo surpreendeu por ter exposto "conversas e preocupações que geralmente só aconteciam no privado".

"Isso não é mimimi de pobre. As pessoas não sabem as dores dessas conversas", compartilha.

Intervenção federal no Rio

O presidente Michel Temer nomeou o general Walter Souza Braga Netto interventor na segurança pública do estado do Rio, de modo que todas as forças de segurança, incluindo polícias Civil e Militar e o Corpo de Bombeiros Militar, ficam subordinadas a ele. O secretário de Segurança do estado, Roberto Sá, foi afastado, e o governador Luiz Fernando Pezão não tem mais ingerência sobre questões de segurança no Rio.

Braga Netto é comandante militar do Leste desde setembro de 2016 e foi um dos responsáveis pelo plano de segurança para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

De acordo com Temer, a medida extrema foi tomada "porque as circunstâncias assim exigem". O presidente afirmou que o crime organizado quase tomou conta do estado do Rio de Janeiro. "É uma metástase que se espalha pelo País", afirmou em pronunciamento ao assinar o decreto.

Na última década, o Rio teve 12 missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), regime que concede provisoriamente poder de polícia aos militares. O pedido é feito pelo governo estadual, diferente da intervenção, que parte do Executivo federal.

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