MULHERES
20/02/2018 06:00 -03

Gloria Steinem: 'Pela primeira vez na história estão acreditando nas mulheres'

Se ela está preocupada com uma reação contrária? Nem um pouco. “Eles que se danem”, disse a ícone feminista durante conferência sobre o empoderamento das mulheres.

Bloomberg via Getty Images
Activist Gloria Steinem during the 2018 Makers Conference in Hollywood on Feb. 6.

LOS ANGELES ― Gloria Steinem está sabendo de nossos receios sobre uma possível reação contrária ao movimento #MeToo. Ela não está nem um pouco assustada com essa ideia.

Quando o HuffPost falou com ela por alguns minutos durante a conferência Makers, em Hollywood, a ícone feminista de 83 anos estava evidentemente feliz e esperançosa com o movimento global, que está levando mais e mais mulheres a relatar suas histórias de assédio sexual, agressão e estupro. Em consequência dessa onda, vários homens poderosos já perderam seus empregos em função de acusações que receberam crédito.

Steinem disse que as mulheres sofrem essas coisas desde sempre.

"Não há nada de novo nisso exceto pelo número de denúncias, que é importantíssimo. A coisa virou uma espécie de tsunami", disse Steinem ao HuffPost. "O que é profundamente diferente agora é que este é um movimento majoritário."

O que é crucial, ela disse, é o seguinte: "Pela primeira vez na história, as pessoas estão acreditando nas mulheres".

Com o aumento do número de denúncias de erros de conduta sexual, estamos ouvindo mais e mais queixas de vários homens e mulheres preocupados com a possibilidade de uma reação contrária ao movimento #MeToo, que poderia sufocar a discussão.

Perguntada se essa possibilidade a preocupa, Steinem foi direta.

"Eles que se danem", ela disse, rindo.

É difícil se preocupar com a possibilidade de uma reação contrária estando na conferência Makers, onde 500 mulheres e homens se reuniram por três dias para discutir o empoderamento feminino (a Makers pertence à empresa-mãe do HuffPost, a Oath). A conferência deste ano foi a quarta desse tipo e, à luz do #MeToo, o clima era de urgência.

Um painel de mulheres da Time's Up, uma coalizão de artistas de Hollywood dedicados a combater o assédio e os erros de conduta, abriu o evento na segunda-feira com um chamado às armas. A hashtag do evento – sempre há uma hashtag – foi @RaiseYourVoice (@LevanteSuaVoz).

Vivien Killilea via Getty Images
Sheryl Sandberg (far right) speaks onstage with David Smith and Laphonza Butler.

Os oradores abrangeram desde estrelas do mundo corporativo, como a executiva operacional chefe do Facebook, Sheryl Sandberg, e a CEO do Stitch Fix, Katrina Lake, até nomes políticos legendários como Pat Schroeder, passando por Marcia Clark, célebre por ter sido a promotora chefe no julgamento de O.J. Simpson por homicídio.

Sindicalistas falaram de assédio sexual em fazendas e restaurantes.

Acadêmicos e outros falaram da necessidade urgente de interseccionalidade e do reconhecimento de que as mulheres enfrentam não apenas sexismo, mas também racismo, discriminação de classes e outros tipos de discriminação.

Os temas debatidos foram de tópicos profundamente pessoais a outros altamente técnicos. Bozoma St. John, diretora de marca da Uber, evitou com elegância discutir problemas que sua empresa está enfrentando, falando em vez disso do sofrimento de lidar com a morte de seu bebê – que nasceu com apenas seis meses --, seguida pela perda trágica de seu marido. Ela fez uma pausa no meio do relato, e seus olhos se encheram de lágrimas. O recinto ficou em silêncio, e as pessoas esperaram ela recomeçar a falar.

Já tinham sido derramadas lágrimas antes no mesmo dia quando Betty Reid Soskin, 96 anos, a guarda florestal mais velha do mundo, falou de sua vida e de como é sobreviver a todo o mundo que você conhece.

"Estou na extremidade da vida. Sei que a vida agora ficou muito preciosa. Não apenas os meses e os dias, mas até as horas, agora. E eu não queria que fosse de outra maneira", ela disse. Muitas pessoas na plateia tiveram que procurar lenços para enxugar as lágrimas.

Outras pessoas aproveitaram o tempo na conferência para falar de ideias práticas para ajudar a combater o sexismo, um problema onipresente.

Sheryl Sandberg e a co-fundadora do LeanIn anunciaram um novo programa intitulado MentorHer, uma crítica direta ao movimento de reação contrária ao @MeToo, em que mais homens parecem estar com medo de ficar a sós com mulheres.

"Essa não é a resposta. Isso é inaceitável", disse Sandberg. "Precisamos acabar com o assédio sexual agora e para sempre e precisamos investir mais nas mulheres, não menos."

"Se quisermos que este momento resulte em transformações reais, tem que ser ao nível de políticas públicas", disse Sandberg ao HuffPost depois de sua palestra.

No último dia da conferência, Hillary Clinton fez um discurso que foi transmitido ao vivo de Nova York.

Foi impossível sair da conferência sem sentir esperança de que agora, mais que nunca, as mulheres estão falando sua verdade e sendo ouvidas.

"As mulheres estão falando a verdade sobre suas vidas", disse Clinton em sua transmissão. "Vamos fazer o que for preciso para que o mundo nunca mais seja o mesmo."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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