COMIDA
18/02/2018 10:21 -03 | Atualizado 20/02/2018 15:53 -03

Dieta restritiva não funciona e pode facilitar ganho de peso, alerta nutricionista

Sophie Deram, autora de 'O Peso das Dietas', explica por que você nunca deveria restringir o que come se seu plano é emagrecer.

"Nova dieta seca 3 kgs em uma semana"

"Dieta do suco pode emagrecer até 10 kgs em um mês"

"Turbine o metabolismo e o coloque ao seu favor com esta dieta"

Não deve ser a primeira nem a última vez que você vê chamadas como estas. As dietas estão em todo lugar e dão a impressão de que emagrecer é realmente fácil — pois é só seguir o que elas ditam, certo?

Se você já caiu nessa, provavelmente deve saber (bem lá no fundinho) de uma coisa que nem todas as revistas femininas e nutricionistas querem te contar: dietas não funcionam.

Claro que você emagrece quando segue dietas que cortam as calorias, os carboidratos e gorduras. Porém, também não é surpresa que você recupere esses quilos nos meses ou anos seguintes. Estudos mostram que 95% das pessoas que perdem peso com dietas restritivas (aquelas que diminuem drasticamente a quantidade e calorias do cardápio diário) voltam a engordar — e, às vezes, ganham mais peso do que tinham antes de começar a dieta.

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E quem são os 5% que não voltam a ganhar peso? Qual é o segredo deles? Uma parte destas pessoas foi pesquisada por um bom tempo pela ciência e, adivinhem só, o resultado não é nada animador.

"Parte do grupo que não fracassou na dieta desenvolveu transtorno alimentar. Fazer dietas não só pode te engordar, mas também desencadear transtornos psicológicos. Quase todos os casos de transtorno alimentar começam com dietas restritivas", alerta a nutricionista Sophie Deram, doutora em Endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e autora do best-seller O Peso das Dietas.

Deram é especialista em tratamento de Transtornos Alimentares pelo AMBULIM – Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo - e uma das profissionais de saúde mais críticas às dietas. Para ela, o regime não ajuda o paciente a perder peso. Pelo contrário: nos torna mais obsessivos com o que comemos enquanto nosso corpo faz de tudo para recuperar essa perda de peso.

"Quem faz dieta engorda depois de alguns meses. É o famoso efeito sanfona. Isso é comprovado e acontece em todo o mundo, não só no Brasil. Se alguém perde peso de forma rápida, ele recupera depois de alguns meses", afirmou a nutricionista em entrevista ao HuffPost Brasil.

Deram explica que, quando uma pessoa passa por uma dieta, ela passa a ficar obcecada por comida. Nesse momento de restrição alimentar, acontecem duas importantes mudanças no cérebro: o apetite aumenta e continua aumentando até dois anos após a dieta, e o metabolismo diminui. "Seu cérebro faz você comer mais e gastar menos. É o sistema de sobrevivência do corpo, e às vezes, ele faz armazenar ainda mais", explica.

Além do seu corpo literalmente trabalhar "a favor de sua sobrevivência" e fazer de tudo para engordar você novamente, seu relacionamento com a comida também muda. Dietas fazem pensar em comida o tempo todo, pois você foca no que pode e não pode comer e tem medo e culpa ao cair em tentação.

"A gente começa a usar a comida como recompensa para nossas emoções. Você come quando está triste, quando está feliz, quando está entediado. Este é o melhor jeito de engordar: você restringe tanto os alimentos e, quando finalmente os come, faz exageros e ganha tudo que você perdeu."

A bola de neve da dieta

Como se tudo isso não bastasse, há outro agravante: a cada dieta que você faz, mais difícil é emagrecer novamente. É só se lembrar da sua primeira dieta e o quanto você emagreceu com ela. Você já tentou fazê-la novamente? Quantos quilos perdeu? Provavelmente não teve o mesmo êxito como na primeira vez.

Isso também é "culpa" do seu corpo. Segundo Deram, quanto mais se faz dieta, mais difícil é perder peso, pois nosso cérebro tem memória e aciona os mesmos mecanismos:

"A gente se culpa do fracasso, em vez de culpar a dieta que não funciona. Se tivesse uma dieta que funcionasse, ninguém mais seria gordo ou faria mais de uma [dieta]. A gente se sente pior quando engorda e tenta novamente, não dá o mesmo efeito e a gente entra em uma verdadeira tortura física, muito longe da saúde. A pessoa toma remédio, faz jejum intermitente de maneira agressiva, se machuca tentando emagrecer rápido. É de utilidade pública: dietas não funcionam a longo prazo. O corpo não deixa perder peso rapidamente."

As benditas regras de alimentação

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As dietas não só trazem restrições, como também impõem regras. "Faça seis refeições ao dia", "coma a cada três horas", "tenha o 'Dia do Lixo'". O problema dessas instruções é que elas lembram as pessoas constantemente da comida e mudam seu relacionamento com a alimentação.

É no que acredita Beth Rosen, nutricionista americana que também é contra dietas restritivas.

"Todos nós nascemos com um 'kit de instruções' interno e único, que te diz quando você está com fome e quando você está saciado. Por exemplo, um bebê que está com fome chora e, quando está satisfeito, ele rejeita o leite. Dietas e regras extremas de alimentação confunde nossas 'instruções' internas e fazem que a gente perca a habilidade de ouvir quem mais importa: nós mesmos."

A nutricionista defende que todos nós temos um "ponto de equilíbrio" entre o nosso peso e bem-estar. Quando restringimos nossa alimentação na tentativa de perder peso, nosso corpo não aceita e começa a trabalhar para voltar ao estado original. Para isso, ele pode armazenar uns quilos extras como uma "precaução" em eventuais dietas futuras. Ironicamente, o ato de fazer mais dietas e restringir alimentação faz nosso corpo elevar esse ponto de equilíbrio, aumentando sempre os quilos extras em caso de a pessoa voltar a sentir fome.

Se você costuma fazer dieta e não tem mais o mesmo peso que costumava ter, é porque provavelmente seu corpo reajustou seu "ponto de equilíbrio" para cima.

O problema não está só nas dietas. Está nas prateleiras

Se você já fez dieta, provavelmente aderiu (ou adere) a produtos light e diet. Apesar de estarem relacionados à alimentação saudável e pouco calórica, estes produtos estão longe de ajudar no controle do peso.

Nos anos 90, cientistas relacionavam o aumento da gordura corporal com a gordura presente nos alimentos. Então qual foi a melhor solução? Retirar ou diminuir a gordura, pois se você não come gordura, você não engordaria.

Porém, um produto sem gordura é um produto sem sabor, o que não é bom para o paladar. A alternativa da indústria, então, foi remover a gordura e adicionar açúcar (carboidrato), que é menos calórico que a gordura (enquanto um grama de gordura tem 9 calorias, um grama de carboidrato tem apenas 4). No final das contas, comemos produtos light sem gordura, mas com mais açúcar.

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O problema é que estudos mostram que comer mais açúcar engorda mais do que comer gordura. "Eles têm um produto que tem menos calorias, mas não te faz emagrecer. Não é uma troca que faz o corpo emagrecer", resume a nutricionista Sophie Deram.

Além de comprovadamente não emagrecer, esses alimentos podem ter um efeito reverso. "Pessoas que comem produtos light e diet não ficam saciadas da mesma maneira e acabam comendo mais do que se comessem um produto integral. Além disso, a pessoa pode ficar frustrada com o sabor, que não será igual ao original, e como recompensa e busca por satisfação, acaba comendo mais", acrescenta Deram.

Sem dieta, qual é a solução?

A resposta para um emagrecimento saudável, segundo Deram, não se vende na indústria ou farmácias: é a moderação.

"A gente deveria fazer como nossos avós faziam: ter uma rotina alimentar e uma rotina de atividade física constante", aconselha Deram. "Quando estiver na hora do almoço, parar tudo o que estiver fazendo para comer. Coma alimentos saudáveis, coma comida caseira ou fresca. Não coma pensando na próxima refeição e, quando estiver comendo, preste atenção no que está ingerindo, sem distrações como a TV, computador ou celular."

Outra dica da nutricionista é abolir a ideia do "corpo perfeito" e deixar de seguir as influencers fitness das redes sociais. "O Instagram é o grande detonador do transtorno alimentar. As pessoas ficam seguindo 'musas fitness' que dão dicas de saúde, só que elas não têm formação e, às vezes, sofrem destes transtornos. Segui-las acaba com a saúde, pois é impossível ter esse padrão de beleza."

"Elas mostram um corpo que não é real. Um corpo que é extremamente trabalhado, muito longe de algo saudável. Uma mulher saudável precisa ter 20% de gordura corporal, diferente do homem que fica entre 10% e 15%. Especialmente em mulheres alguns hormônios precisam de gordura para ser produzidas e esses hormônios são muito importante na sexualidade: fertilidade e libido. A perda de gordura pode alterar o equilíbrio do corpo e as funções sexuais. Essas blogueiras que têm 10%, 7% de gordura não estão saudáveis. A melhor pessoa para dizer quando está com fome e quando está saciada não é essa influencer, é você mesmo. A pessoa precisa retomar a conexão dela com o corpo e respeitar seus limites."

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Por fim, ela dá três dicas "chaves" para controlar o peso, se você quer emagrecer:

  1. Não faça dieta restritiva. Seu corpo vai trabalhar para você recuperar tudo de novo.
  2. Coma alimentos verdadeiros. Dê prioridade total aos produtos in natura, que você encontra nas feiras. Lembre-se do que seus avós comiam: legumes, frutas, saladas, carnes e o bom arroz e feijão. Diminua o consumo de industrializados.
  3. Cozinhe. Sim, você pode se assustar, mas a melhor prevenção contra obesidade é a comida caseira.

É preciso lembrar que antes de iniciar qualquer mudança em seu hábito alimentar, é importante procurar um nutricionista para fazer seu acompanhamento. Ele analisará sua saúde e saberá as verdadeiras necessidades de seu corpo.

Afinal, você não acha que está mais que na hora de fazer as pazes com seu corpo?