ENTRETENIMENTO
16/02/2018 14:58 -02 | Atualizado 16/02/2018 16:02 -02

Por que ‘The Good Place’ é a série perfeita para se discutir a era Trump

A infindável lista de famosos bordões da série nos dá uma linguagem para falar sobre a realidade política dos EUA. Estamos literalmente no inferno, mas, pelo menos, podemos dizer isso com um sorriso.

"Bem-vindos! Está tudo bem."

É o que diz o cartaz diante de Eleanor Shellstrop (Kristen Bell) na primeira cena da série The Good Place, da Netflix. Sentada numa sala de espera, ela é levada a um escritório onde um homem chamado Michael (Ted Danson), aparentemente a autoridade local, diz a ela que está morta. De fato, Eleanor morreu após ser atingida por um caminhão – que puxava o outdoor de uma pílula para disfunção erétil – e aterrissou no Além. Mais especificamente, no Bom Lugar, uma versão não confessional do que poderia se chamar de "Paraíso".

Só tem um problema: Eleanor não é a advogada de direitos humanos angelical que Michael pensa que é. Durante a vida, ela vendia remédios falsos para idosos doentes por telefone. Por isso, Eleanor começa a pensar que na verdade deveria ter sido enviada ao Lugar Ruim. Alguém trocou as bolas. Ah, e ela não pode xingar ninguém: neste bairro do Bom Lugar, as obscenidades que todos dizem são transformadas em termos foneticamente parecidos – "fudeu" vira "fedeu", por exemplo –, já que, aparentemente, os bem-comportados moradores não usam palavrões.

Para quem se liga em memes, deve ter ficado claro desde o primeiro momento que algo cheirava mal no Bom Lugar. O "Everything is fine" (Está tudo bem), com essa forma ansiosa e ligeiramente defensiva de tranquilizar os recém-chegados, quase repete o "This is Fine" (Tá tudo bem), um meme que nasceu com o webcomic "Gunshow", do cartunista K.C. Green, em 2013. No quadrinho, um cachorro fica sentado entre as chamas, indiferente, enquanto a casa onde ele está pega fogo.

"Tá tudo bem", diz o cachorro. "Tranquilo, tudo vai ficar bem."

Tudo então piora rapidamente, passando de "bem" para "talvez não tão bem" e, finalmente, para "catastrófico" em The Good Place. (Se você ainda não assistiu à série, avisamos que este texto contém spoilers importantes). Ali, Eleanor encontra sua alma gêmea, Chidi, que foi professor de ética e filosofia moral, e seus vizinhos, a socialite insegura Tahani e o monge budista Jianyu. Eleanor logo descobre que Jianyu representa outro caso de identidade equivocada – ele é, na verdade, Jason, um criminoso pé-de-chinelo e DJ "amador profissional" da Flórida. Mas Eleanor acaba se abrindo para Chidi, que se propõe a ensinar ética para ela e Jason, a fim de que ambos sejam pessoas boas o bastante para ficarem lá. O estresse de mentir para Michael tortura a mente da jovem o tempo todo.

No final da primeira temporada, porém, tudo muda. Michael é na verdade um demônio que passou todo esse tempo torturando os quatro humanos. O ambicioso experimento foi ideia dele, que esperava com isso fazer com que Eleanor, Chidi, Tahani e Jason atormentassem uns aos outros durante milhares de anos. Eles nunca haviam estado no Bom Lugar – como a própria Eleanor disse, em sua incrível revelação: "Este é o Lugar Ruim!"

E assim nascia um meme.

No liberal Twitter, o rosto malicioso e o dedo em riste de Kristen Bell, posicionados acima das palavras "Este é o Lugar Ruim", serve como uma resposta onipresente, que pode ser aplicada a quaisquer das más notícias que vêm da Casa Branca atualmente. A frase tem uma veia cômica, que é ao mesmo tempo moderada e extrema: estamos literalmente no inferno, mas vamos dizer isso com um sorriso.

É natural que uma sitcom forneça memes para nossa nova era, nossa presidência tipo reality show e nosso cenário político distópico. Séries são essencialmente veículos de difusão de memes. Como forma artística, o seriado não se distingue por sua narrativa, pela evolução dos personagens, o suspense ou a complexidade; é repetitivo, reconfortante e repleto de arquétipos. Sua verdadeira virtude é apresentar os mesmos elementos de novas maneiras, uma e outra vez.

As melhores séries nos fornecem um vocabulário para falarmos de nossas vidas – sobretudo nossas vidas cotidianas. Produções como Seinfeld, The Office e Friends foram encenadas em cenários minúsculos, apenas grandes o bastante para representar dilemas das amizades, gozações no local de trabalho e triângulos amorosos. Elas nos dão modelos platônicos para diversas questões específicas do nosso dia a dia: uma paquera no escritório é muito Jim e Pam; uma colega de trabalho sempre preocupada em resolver os problemas dos demais é uma Leslie Knope; e Ross e Rachel deram um tempo (talvez). As séries também nos presenteiam com frases memoráveis, como "Eu fiz isso?", "Foi o que ela disse" e "blá blá blá".

Mas, numa época em que a angústia política e existencial marca tão intensamente nossa vida pública e privada, os GIFs de "Friends" simplesmente não bastam. Para os intermináveis e angustiantes diálogos sobre nossa desastrosa presidência e o aumento da violência supremacista branca, precisamos de mais do que um anódino "argh!" de um grupo de amigos que frequentam um café. Precisamos de memes sobre a perda da esperança e da inocência, e sobre nosso dilema de tentarmos ser melhores pessoas, embora vivendo num mundo terrível que basicamente merecemos. É isso o que The Good Place oferece – pelo menos para os espectadores do lado liberal do espectro.

Dado o abismo entre a esquerda e a direita em 2018, isso talvez seja o máximo que um programa de TV possa conseguir. Em julho, Todd VanDerWerff afirmou que as sitcoms tradicionais, focadas na família e filmadas com múltiplas câmeras, como The Carmichael Show e Mom, talvez sejam a salvação de nosso discurso político, já que incorporam as rivalidades políticas em sua comédia. "Todas elas olham para uma América profundamente dividida e encontram espaço para o humor. São programas com uma roupagem moderna da série Tudo em Família que aproveitam qualquer discussão entre esquerda e direita como uma oportunidade para apontar o ponto fraco de ambas", ele escreveu. A afirmação de VanderWerff's parte do princípio de que o diálogo político entre esquerda e direita ainda não foi por água abaixo. Mas foi. Infelizmente, a conversa hoje ocorre sobretudo dentro da esquerda e da direita. Aqueles que acham que o presidente Donald Trump é uma ameaça iminente ao país têm pouco a dizer aos que acreditam que ele está recuperando a grandeza da América.

Para os telespectadores do primeiro grupo, The Good Place é uma alegoria assustadoramente realista de sua percepção sobre os EUA de hoje. Assustadora, claro, porque sua trama é bastante irrealista para uma comédia de situação. Este é um gênero amplamente encenado em cubículos de escritório, salas de estar, bares e lanchonetes. Mas The Good Place é filmado no Além. Isso me soava tão artificial que me recusei a vê-la até que a primeira temporada já estava na metade. Não podia conceber a possibilidade de um The Office (Além). Em vez disso, contudo, ela seria mais uma " – uma comédia cheia de suspense onde muita coisa está em jogo (o eterno tormento), as mudanças e reviravoltas são emocionantes e o resultado é sempre o mesmo: eles estão no Lugar Ruim.

Que comédia pode ser um alter ego melhor para um mundo onde cada novidade na investigação sobre a Rússia e cada novo tuíte presidencial geram uma enorme agitação – mas logo nos colocam exatamente onde estávamos antes, com um racista imbecil como presidente e uma plataforma sociopata do Partido Republicano definindo a agenda?

Para muitos espectadores de esquerda – especificamente, pessoas que não votaram nem pediram votos para Hillary Clinton, pessoas que não queriam estragar o Dia de Ação de Graças falando de política com seus parentes racistas, pessoas brancas em geral –, existe também uma sensação de culpabilidade refletida em The Good Place. Nós somos o motivo pelo qual estamos aqui. A principal forma de tortura de Eleanor é sua consciência de que não merece a felicidade eterna. Ela foi uma fraudadora egoísta, insensível com todo mundo que encontrava e abertamente amoral. Está desesperada por ficar no Bom Lugar e por tentar merecê-lo, mesmo que de forma irregular, mas sabe que foi a arquiteta de sua própria desgraça.

Ainda assim, com certa rebeldia, Eleanor acha que tampouco merece muito ir para o Lugar Ruim. "Fui uma pessoa normal", diz ela, sem esperança. "Eu deveria poder passar a eternidade num lugar normal." O castigo, como a presidência de Trump, parece desproporcional para o crime.

The Good Place já seria relevante simplesmente por oferecer uma boa dose de comentários oportunos, por refletir assustadoramente a era Trump sem se envolver diretamente com ela. Mas a série não apenas oferece comentários; é um ponto de partida para que tenhamos conversas duras e apropriadas. Seu formato de série o torna perfeitamente adequado para formular uma linguagem que podemos usar para falar de política.

Sitcoms se baseiam em simplicidade e repetição. E, de certo modo, The Good Place subverte essa expectativa com seu cenário inspirado em Lost e sua narrativa cheia de suspense. Mas a série transforma a repetição em algo evidente: toda vez que o experimento de Michael falha e os humanos descobrem que estão no Lugar Ruim, ele dá um reboot e começa tudo de novo desde o início (na segunda vez, o cartaz diz "Bem-vindos! Tudo está ótimo!"). Num dos episódios, vemos Eleanor, Chidi, Tahani e Jason passando por dezenas de reinícios, cada um deles terminando do mesmo jeito: "Este é o Lugar Ruim!" Numa peça de teatro, só veríamos essa revelação uma vez; numa sitcom, nós precisamos vê-la de novo e de novo. A repetição ad absurdum transforma o horror em algo bobo, reapresentando uma revelação dramática como um bordão.

E esses bordões são quase paródias de slogans das sitcoms. "The Good Place" as reduz a um tom perfeitamente insosso: "Este é o Lugar Ruim"; "what the fork?" (em vez de "what the fuck?"); "está tudo bem". É exatamente essa suavidade que desfere o golpe. ("Este é o abismo do implacável tormento!" não teria exatamente o mesmo impacto). Mesmo os xingamentos mais vibrantes, como "Holy motherforking shirtballs" (que substitui "Holy motherfucking shitballs", puta que pariu) – conseguem parecer bobinhos, nada mordazes. A simplicidade suavizada de boa parte do vocabulário torna os singulares memes da série – como a obsessão de Jason com Blake Bortles, o quarterback do Jacksonville Jaguars, ou a proliferação de lojas de frozen yogurt – ainda mais contundentes.

Os memes resultantes se encaixam perfeitamente em nosso interminável julgamento público sobre o que os EUA têm feito. Os scripts de The Good Place reproduzem exatamente o tipo de diálogo que muitos da esquerda estão tendo agora todo dia, ou mesmo toda hora: uma conversa entre pessoas com defeitos que querem melhorar e ir para o Lugar Bom, mas que muitas vezes diferem quanto à maneira de conseguir isso. Não é de admirar que o quarteto da série se transformou no arquétipo de Sex and the City da era Trump. O purista ético Chidi, a astuta Eleanor, o sem noção do Jason e Tahini, que não é tão altruísta quanto parece, representam os impulsos dominantes de qualquer debate de #resistência.

Sem chance de fuga, claro, todos perderíamos a cabeça. A série parecia correr o risco de desembocar numa tediosa sucessão de reboots, mas rapidamente contornou esse problema oferecendo uma lufada de esperança. Boa parte da segunda temporada gira em torno de uma complicada aliança entre Michael, cujos funcionários estão a ponto de dedurá-lo ao chefe caso seu experimento de tortura seja descoberto de novo, e os humanos, que não querem que suas memórias sejam apagadas.

Michael promete que pode levá-los finalmente ao Bom Lugar – uma oferta que, como vimos num recente episódio, foi uma mentira deslavada. Ele não pode fazer isso. Cada caminho rumo ao Paraíso parece falhar. Michael inclusive faz aparecer magicamente um balão de ar quente com uma escala de avaliação da bondade moral que, segundo ele, levará os justos ao Bom Lugar. Mas logo admite que é um embuste.

Nada mais parecido à presidência de Trump, cujas consequências parecem catastróficas, mas cujas soluções rápidas – o impeachment, a 25a Emenda da Constituição dos EUA [que prevê que um presidente pode ser removido se descumprir os deveres do cargo] – nos escapam pelas mãos enquanto tentamos segurá-las. Parece haver desespero em todas as partes, pois a ofensiva avança em todas as direções. O presidente e seus aliados lançaram ataques políticos e verbais contra imigrantes, negros, mulheres, transgênero, pobres e jornalistas. Não podemos falar disso só como uma guerra contra os direitos reprodutivos da mulher ou contra a rede de seguridade social – é uma guerra contra tudo que os progressistas defendem.

Perdemos especificidade e nuance no turbilhão do trumpismo. O que ficou é uma sensação de bem versus mal, de esquerda contra direita. Também perdemos fé em nossa capacidade de melhorar as coisas através dos canais habituais. Exigir que o presidente tenha decência não muda nada, assim como a queda na sua aprovação. Pior: escândalos que teriam demolido líderes anteriores praticamente já não têm nenhum impacto. O momento requer um meme que seja igualmente maniqueísta e sisífico – não podemos falar de nenhuma outra maneira. Existe um Lugar Bom e um Lugar Ruim. Aí descobrimos que estamos no Lugar Ruim e não sabemos como sair daqui.

O meme a-ficha-caiu da série, "Este é o Lugar Ruim", também revela a farsa das epifanias recicladas que temos hoje. "Uau, Trump é um racista!", exclamamos, após ler as mensagens vazadas em que ele supostamente se referiu à maioria dos países africanos e ao Haiti como "lugares de merda". Isso ainda é chocante para muita gente, mas já tivemos essa mesma epifania antes – quando ele sugeriu que a maioria dos imigrantes mexicanos eram estupradores e criminosos, quando ele propagou a teoria da conspiração segundo a qual Barack Obama não havia nascido nos EUA e quando ele foi investigado por discriminação racial em seus empreendimentos imobiliários nos anos 70.

Já tínhamos consciência disso e não abordamos o problema adequadamente. Então Trump continua aí, mais poderoso do que nunca e com as mesmas práticas racistas. Uma e outra vez, percebemos que estamos no Lugar Ruim. E, novamente, essa percepção não pode nos salvar. Levantamos todas as manhãs e ainda continuamos aqui.

E sabe de uma coisa? Existem demasiadas sorveterias de frozen yogurt – na série e no mundo real. Esse deveria ter sido o primeiro sinal de que algo deu muito errado.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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