ENTRETENIMENTO
15/02/2018 17:59 -02 | Atualizado 18/02/2018 11:40 -03

'Pantera Negra': A origem e a importância do 1º super-herói negro mainstream

Criado nos anos 1960, primeiro longa-metragem solo do personagem (finalmente!) chega aos cinemas.

Divulgação/Marvel/Sal Buscema

Quando o Pantera Negra surgiu nos quadrinhos, a Guerra Fria fazia a sociedade viver com o medo de um possível conflito nuclear e, de ambos os lados da Cortina-de-Ferro, uma intensa disputa tecnológica fazia a ciência avançar. Nos Estados Unidos, o movimento dos direitos civis protagonizado pelos negros confrontava um racismo (ainda) não superado pelo país.

Em julho de 1966, o personagem criado por Stan Lee (roteiro) e Jack Kirby (arte) fez sua estreia na história em quadrinhos Fantastic Four #52: ele aparece na capa como "o sensacional Pantera Negra!".

No enredo, o super-herói surpreende o Quarteto Fantástico ao presenteá-lo com uma nave e um convite para conhecer Wakanda, o país da África Oriental que ele comanda como rei. O verdadeiro nome do super-herói é T'Challa.

Em Wakanda, uma nação fictícia, tradições tribais e tecnologia futurista tanto convivem em paz quanto se complementam como partes de uma só sociedade. O país desenvolveu-se a partir de seu principal recurso, o vibranium, também fictício.

Segundo o mito wakandan, a queda de um meteoro levou o metal alienígena ao território do país (o escudo do Capitão América foi feito com vibranium, um elemento recorrente no universo Marvel). Capaz de absorver todo tipo de vibrações de som, logo o metal passou a ser visto como altamente valioso e tornou-se objeto de tentativas de exploração. O cientista Ulysses Klaw tentou roubar vibranium de Wakanda e, no processo, o pai de T'Challa, o rei T'Chaka, foi morto por um dos capangas de Klaw.

T'Challa consegue expulsar o cientista do país e assume o lugar do pai como Pantera Negra, dando continuidade à tradição. Os wakandans, então, decidem esconder-se do restante do mundo, guardando apenas para si uma das tecnologias mais avançadas do mundo, vinda da profunda pesquisa realizada com o vibranium. T'Challa estuda em outros países para se tornar cientista.

Um herói negro

Divulgação/Marvel/Jack Kirby
Capa de 'Fantastic Four' #52 desenhada por Jack Kirby (1917-1994), lenda das HQs de super-heróis.

Ao estrear naquele gibi do Quarteto Fantástico, o Pantera Negra se tornou o primeiro super-herói mainstream negro. No início dos anos 1960, a Marvel apostava em personagens como o Quarteto, X-Men e Homem-Aranha para tentar sair de uma má fase financeira. Enquanto isso, os quadrinhos viviam a icônica Era de Prata, em que artistas como Lee e Kirby transformaram os super-heróis em figuras complexas, que vivem conflitos em alguma medida próximos da realidade dos leitores.

Os mutantes de X-Men, por exemplo, traziam consigo a angústia e a privação de populações marginalizadas, como a negra e LGBT, em uma metáfora sobre discriminação e intolerância.

Foi por meio desses personagens que se consolidou na Marvel a valorização da representatividade de setores sociais oprimidos. O roteirista Don McGregor tem uma marca particular nesse processo: ele ressignificou a revista Jungle Action ao colocar o Pantera Negra como o protagonista da publicação.

Segundo o livro Marvel Comics: A História Secreta (LeYa, 2013), do jornalista norte-americano Sean Howe, a Jungle Action, surgida nos anos 1950, trazia histórias de personagens brancos explorando terras africanas e salvando os personagens negros de ameaças ou sendo ameaças para eles. Nos anos 1970, McGregor, consternado com a situação, tomou as rédeas da revista e definiu o Pantera Negra como seu personagem principal, acompanhado por um elenco todo negro.

Naquela década, os quadrinhos de super-heróis já viviam a Era de Bronze, em que se aproximaram ainda mais de questões sociais, abordando temas como dependência química, violência urbana e poluição. Em parceria com o artista Rich Buckler, McGregor deu início a uma aclamada fase do super-herói. O roteirista criou Erik Killmonger: um dos principais antagonistas do Pantera Negra, Killmonger é um revolucionário vingativo que tenta tomar o poder em Wakanda por meio de um golpe de estado. Ele é um adversário à altura de T'Challa, em intelectualidade, treinamento físico e conhecimento político.

Outros personagens negros da Marvel, como Luke Cage, Tempestade e Blade, surgiam e se destacavam; em Jungle Action #50, T'Challa chega a ser capturado pela Ku Klux Klan e preso a uma cruz em chamas.

Depois de participar de aventuras com outros heróis da Marvel, como Demolidor, Capitão América e Vingadores, o Pantera Negra teve, entre 1998 e 2005, Christopher Priest — o primeiro editor negro da história do mercado de quadrinhos — no comando de um dos ciclos mais elogiados de histórias do herói, publicadas no selo Marvel Knights, dedicado às narrativas mais sombrias.

A passagem de Priest pelos gibis do Pantera Negra foi marcada pelo senso de humor de Everett K. Ross, um atrapalhado agente branco do governo com a responsabilidade de vigiar o protagonista. Na abordagem de Priest, T'Challa foi tratado de verdade como um rei — e, em um consenso entre leitores, pela primeira vez como um legítimo protagonista de boas histórias.

Divulgação/Marvel/John Byrne e Dan Adkins

Priest também apresentou aos leitores as Dora Milaje — um grupo de amazonas das forças especiais de Wakanda —, reforçou a imagem do país como uma nação de cultura e tecnologia singulares, se aprofundou em sua vida política e nos desafios de T'Challa para ser eficiente em seus múltiplos papéis de monarca, super-herói, cientista e diplomata humanitário. Antes considerado negligenciado, hoje o ciclo assinado por Priest tem ótima reputação e é visto como uma leitura essencial para entender o Pantera.

Após a fase de Priest, o cineasta Reginald Hudlin — indicado ao Oscar por produzir Django Livre (2012), de Quentin Tarantino — assumiu os roteiros de 2005 a 2008. Ele criou dois acontecimentos marcantes para os fãs: o casamento de T'Challa e Tempestade, dos X-Men, e a criação de Shuri, a meia-irmã adolescente do super-herói. Hudlin, que também criou e produziu uma série animada do Pantera, também comandou uma elogiada e querida fase.

Hoje, o Pantera está nas mãos de Ta-Nehisi Coates, jornalista da revista The Atlantic e considerado uma das vozes mais respeitadas e lúcidas do comentário político na imprensa contemporânea dos EUA. O roteirista escreve e comanda o ciclo Uma Nação Sob Nossos Pés desde 2016, lançado no Brasil pela Panini, e também escreve os títulos World of Wakanda (com Roxane Gay e Yona Harvey) e Black Panther and the Crew (com Harvey). Todos têm sido recebidos com entusiasmo pelos fãs e pela crítica.

O filme

Divulgação/Disney
Chadwick Boseman em cena de 'Pantera Negra', dirigido por Ryan Coogler.

Inspirado no ciclo de Christopher Priest, Pantera Negra é aguardado há muitos anos pelos fãs. Conversas sobre uma possível adaptação do super-herói para um longa-metragem de cinema em live action começaram no início dos anos 1990, com Wesley Snipes por trás da empreitada e como possível ator principal.

No entanto, apenas em 2005 o projeto começou a se aproximar de uma produção. Anunciado como parte do amplo projeto do Universo Cinematográfico Marvel (MCU, na sigla em inglês), o filme foi oferecido a diversos cineastas no decorrer dos anos seguintes, como Ava DuVernay, F. Gary Gray e John Singleton.

Desde o início do desenvolvimento, o Marvel Studios teve o compromisso de fazer o filme com negros nas funções de direção e roteiro. Por fim, Ryan Coogler (Creed: Nascido para Lutar, Fruitvale Station: A Última Parada) assinou contrato tanto para dirigir quanto escrever Pantera Negra; ele concebeu o roteiro com Joe Robert Cole, indicado ao Emmy pela série American Crime Story (FX).

Chadwick Boseman, ligado ao projeto no papel do super-herói desde 2014, fez sua primeira aparição como o Pantera em Capitão América: Guerra Civil (2016) — logo de cara, ele caiu nas graças de público e crítica.

Juntaram-se ao elenco Michael B. Jordan, como o antagonista Erik Killmonger; Lupita Nyong'o no papel de Nakia, uma espiã de Wakanda; Danai Gurira, como Okoye, líder das Dora Milaje; Letitia Wright, como Shuri; Angela Bassett é a rainha Ramonda, mãe de Shuri e T'Challa; e John Kani é T'Chaka, o pai da família. Também estão no elenco Daniel Kaluuya — indicado ao Oscar deste ano por Corra! (2017) —, Martin Freeman, Forest Whitaker, Andy Serkis e Sterling K. Brown. E, é claro, Stan Lee faz sua tradicional ponta.

A direção de fotografia do longa é de Rachel Morrison, que neste ano tornou-se a primeira mulher indicada ao Oscar na categoria, por seu trabalho em Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi (2017), dirigido por Dee Rees. O rapper Kendrick Lamar assina várias músicas da trilha sonora, além da curadoria geral.

No enredo, T'Chaka morre e T'Challa retorna a Wakanda para ocupar seu lugar no trono. Entretanto, uma questão não resolvida no passado de sua família pode ameaçar sua soberania em um conflito de proporções globais — depois disso, melhor você não saber mais nada.

Pantera Negra estreou nesta quinta-feira (15). Tem duração de 134 minutos, classificação indicativa 14 anos e distribuição da Disney.

Para saber mais:

Marvel Comics: A História Secreta (LeYa, 2013), de Sean Howe;

Marvel.com — History of the Black Panther;

Marvel.com — Wakanda.

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