ENTRETENIMENTO
15/02/2018 10:04 -02 | Atualizado 15/02/2018 11:22 -02

‘Eu, Tonya’: O que a comédia do Oscar conta (e não conta) sobre a maluca história real por trás dela

Indicado em 3 categorias, filme sobre ex-patinadora artística Tonya Harding mostra como o ataque a uma rival acabou com sua carreira.

Divulgação/Califórnia Filmes
Em elogiada atuação, a atriz e produtora Margot Robbie interpreta a ex-atleta no longa-metragem.

AVISO: Este texto contém SPOILERS de Eu, Tonya. Talvez seja melhor lê-lo depois de ver o filme.

Tonya Harding, hoje com 47 anos, nunca se encaixou em padrões. Nos anos 1980 e 1990, época em que praticava patinação artística, ela não tinha, por exemplo, a finesse das outras atletas e preferia se apresentar ao som de música pop — como Sleeping Bag, do ZZ Top, e os temas de Jurassic Park e Batman — em vez de composições clássicas.

Isso não a impedia de naquela época ser uma das melhores atletas do mundo no esporte. Competitiva e ambiciosa, Harding se tornou a primeira patinadora norte-americana a fazer o dificílimo salto Axel triplo, o que a fez ser reconhecida.

No entanto, sua promissora carreira foi ladeira abaixo em 1994, quando ela se viu ligada a um ataque sofrido por sua principal adversária nas pistas de gelo, Nancy Kerrigan.

O incidente se tornou um dos maiores escândalos da história do esporte dos Estados Unidos, recebeu intensa cobertura midiática e até hoje é objeto de curiosidade. Harding passou a ser vista por muitas pessoas como a vilã da história — até hoje, há quem pensa que ela própria deu uma pancada na perna de Kerrigan com um bastão.

É por este recorte que o filme Eu, Tonya (I, Tonya, 2017), protagonizado e produzido por Margot Robbie, aborda a história da ex-atleta: o de uma mulher nunca aceita pelo que é, que sofreu várias injustiças e não é vilã ou heroína da história de ninguém.

Indicado ao Oscar deste ano nas categorias de Melhor Atriz (Robbie), Atriz Coadjuvante (Allison Janney) e Montagem (Tatiana S. Riegel), a comédia dramática usa o escândalo como ponto de partida para contar a história de Harding com as contradições e nuances que lhe são intrínsecas e, também, por diferentes pontos de vista.

Alguns fatos, entretanto, não foram abordados por Eu, Tonya. Por isso, fizemos para você este "guia" de fatos sobre a vida de Harding que estão ou não no filme dirigido por Craig Gillespie (A Garota Ideal) e escrito por e produzido por Steven Rogers (P.S. Eu Te Amo). O roteiro se baseia em entrevistas com Harding e Jeff Gillooly (Sebastian Stan), seu então esposo.

1. Ela foi abusada física e psicologicamente pela mãe e pelo marido

Divulgação/Califórnia Filmes
Allison Janney em cena de 'Eu, Tonya' como LaVona; a mãe da ex-atleta realmente deu entrevistas com um pássaro vivo sobre o ombro.

Nascida em uma família pobre em Portland, Oregon, Tonya Maxene Harding é filha de LaVona Golden (no filme, Janney) e Albert Gordon Harding (Jason Davis), o quinto esposo de Golden, morto em 2009. A ex-patinadora mudou de casa 13 vezes antes de chegar à quinta série escolar e chegou a morar em um trailer com os pais na entrada da garagem de sua avó paterna.

Harding começou a treinar patinação artística quando tinha apenas três anos, idade na qual já mostrava aptidão para as pistas de gelo; naquela ocasião, Diane Rawlinson (Julianne Nicholson) se tornou sua treinadora e mentora. Ainda na infância, a menina viu o casamento de seus pais acabar.

Segundo Harding, quando ela tinha sete anos, Golden passou a abusar física e psicologicamente com ainda mais frequência; enquanto isso, ela também intensificava a presença do álcool em seu cotidiano. Para conseguir pagar o treino da filha, Golden trabalhava à exaustão como garçonete e também vendia garrafas e latinhas coletadas em estradas. A família não tinha dinheiro para comprar figurinos, então a própria Golden os fazia.

"Eu gostaria de ter tido uma vida mais estável", disse Harding em entrevista para Oprah Winfrey em 2009.

"Ela [minha mãe] dizia que eu era gorda e feia, me arrastava para fora da pista, me batia com uma escova de cabelo, com um cabide e na frente de todo mundo. Teve um momento em que minha treinadora disse 'se você tocar nela de novo, nós vamos te denunciar'."

Golden contesta as afirmações da filha e de pessoas que, ao longo dos anos, disseram à imprensa ter testemunhado agressões.

A mãe afirma que bateu em Harding "apenas uma vez". Em recente entrevista à ABC, ela contou: "Eu nunca abusei de nenhum dos meus filhos. Bater? Sim, bati. Absolutamente positivo. Você tem que mostrar a eles [a diferença entre] o que é certo e errado".

Em uma das cenas de Eu, Tonya — que está no trailer abaixo —, Golden atira uma faca contra a filha. Harding diz que isso de fato aconteceu. A mãe, por sua vez, nega.

"Por que eu atiraria uma faca em alguém?", afirmou para a emissora. "Ela [Harding] mentiu tanto que não sabe mais o que é mentira."

Os abusos continuaram quando, em 1990, a patinadora se casou com Jeff Gillooly. Ela tinha 20 anos e ele, 23. Quando ambos se conheceram, a garota tinha 15.

"As pessoas não entendem que o que vocês viram no filme é nada", disse ao New York Times. "Meu rosto atravessou um espelho, não foi apenas empurrado contra um e o quebrou. O atravessou. Fui baleada. Aquilo é verdade."

Segundo Harding, Gillooly era manipulador e a agredia física e verbalmente. Em The Tonya Tapes (World Audience Publishers, 2008), uma autobiografia escrita com Lynda Prouse, a ex-patinadora conta que pediu ordens de restrição contra o marido, mas ele as violava. "A polícia não fazia nada a respeito disso", disse.

Ambos reataram o relacionamento mesmo após se divorciarem.

Gillooly, que hoje atende pelo nome Jeff Stone, continua a contestar os relatos de Harding sobre episódios de violência entre ambos.

O filme aborda esses acontecimentos.

2. O meio-irmão dela, Chris, a agrediu sexualmente

Em entrevista à Sports Illustrated em 1992, a ex-patinadora contou que Chris Davidson (Cory Chapman), seu meio-irmão, a agrediu sexualmente.

Quando ela tinha 15 anos e se preparava para seu primeiro encontro com Gillooly, Davidson, então com 26 anos e embriagado, tentou beijá-la. Ela reagiu queimando-lhe o pescoço com uma chapinha. Foi a segunda vez que isso aconteceu. Na primeira, ela lhe deu um tapa no rosto.

Na ocasião da queimadura, ela saiu correndo e se trancou no banheiro de casa. Davidson a seguiu e derrubou a porta do cômodo. Harding conseguiu escapar e ligou para a polícia, mas assim que seu meio-irmão ameaçou matá-la se contasse para alguém o que aconteceu, ela disse para o atendente do 911 que estava tudo bem.

Depois disso, ele a atacou novamente. Desta vez, ela se defendeu o agredindo com um taco de hóquei. Após ser ameaçada por Davidson de novo, ela se trancou dentro de casa com ele do lado de fora. Horas depois, a polícia o prendeu.

Harding disse à Sports Illustrated que contou para seus pais o que aconteceu, mas ambos não acreditaram nela; Golden a agrediu com um tapa e a mandou ir para seu quarto.

"Ele realmente tinha um problema com a bebida", disse a mãe para a revista. "Eu não me surpreenderia se Chris tentasse um beijo. Tonya tem uma imaginação vívida. Ela tende a contar histórias."

Três anos depois, após ser liberado, Davidson ameaçou matá-la novamente. Ele morreu ao ser atropelado em um acidente em 1989. Harding se recusou a ir ao funeral.

Eu, Tonya aborda, mas não se aprofunda neste aspecto da vida de Harding.

3. Ela conseguiu fazer o salto Axel triplo — e foi incrível

Após intenso treino, Harding conseguiu executar o temido salto em competição. Aconteceu pela primeira vez em 1991, nos EUA, em um campeonato nacional. No momento em que conclui o salto com êxito, ela transborda de felicidade, como mostra o vídeo.

Naquele mesmo ano, a ex-atleta repetiu o salto com sucesso no campeonato mundial, em que foi premiada com a medalha de ouro e tornou-se a primeira mulher a executar o Axel triplo em uma competição internacional. Kerrigan (Caitlin Carver) levou bronze.

O salto consiste em, basicamente, fazer três rotações e meia no ar para frente e pousar no gelo sem cair.

4. O ataque à Nancy Kerrigan foi super mal-planejado

Gillooly, já ex-esposo de Harding, elaborou um plano para abrir caminho para a atleta nas Olimpíadas de Inverno de 1994 em Lillehammer, Noruega: ameaçar Kerrigan de morte, a fim de desencorajá-la a competir.

Para executar a ideia, ele chama um amigo, Shawn Eckardt (Paul Walter Hauser), que decide fazer diferente: ele articula um ataque à Kerrigan, em que, basicamente, ela deveria ser atacada e ter a perna direita quebrada com um pancada de bastão.

Eckardt contratou dois capangas, Shane Stant (Ricky Russert) e Derrick Smith (Anthony Reynolds), para executar o plano. Stant foi encarregado de entrar no centro de treinamento em que Kerrigan estava, em Detroit, Michigan, e atacá-la.

O que ele fez de fato, embora não tenha conseguido quebrar a perna. Ao escapar do centro, Stant não sabia que a porta de vidro que usaria para escapar estaria trancada com uma corrente. Ele decidiu, então, quebrar o vidro com a própria cabeça, e conseguiu escapar com Smith.

Um operador de câmera da ABC filmou Kerrigan logo após a agressão. Sentada no chão, chorando de dor e se perguntando em voz alta "por quê?! Por quê?!", esta imagem da patinadora foi amplamente divulgada e tornou-se icônica.

Logo o FBI entrou na história e conseguiu identificar Eckardt como a pessoa por trás do ataque executado pela dupla. Não que tenha sido difícil — todo orgulhoso, ele saiu falando por aí para quem quisesse ouvir que tinha articulado o atentado.

Eckardt, autoproclamado "guarda-costas" de Harding e "especialista em contra-terrorismo internacional", tinha a intenção de usar o ataque para chamar atenção para sua empresa de segurança, a World Bodyguard Services. Ele foi entregue ao FBI pelo amigo a quem ele relatou ter planejado tudo.

Stant, para "evitar suspeitas", mudou o carro de posição em um estacionamento a cada 30 minutos. No filme, ele faz isso a cada 15.

Não demorou muito também para Gillooly, Eckardt, Stant e Smith serem encontrados pelo FBI e fazerem suas confissões. Todos foram presos. Harding também confessou o pouco que sabia sobre a conspiração.

Por causa da perna ferida, Kerrigan não pôde competir no campeonato nacional que acontecia na ocasião, o qual Harding venceu. Ambas foram selecionadas para competir em Lillehammer e a Justiça norte-americana permitiu Harding competir na Olimpíada antes de julgá-la.

O incidente, que encerrou a carreira de Harding na patinação artística, foi investigado pelo FBI e, após julgamento, resultou para ela, entre outras coisas, em: três anos de liberdade condicional, uma multa de US$ 100 mil, 500 horas de serviço comunitário e — talvez a pior parte da sentença — no banimento vitalício da Associação de Patinação Artística dos EUA.

Harding foi acusada de obstruir a investigação ao reter informações. O acontecimento é retratado por Eu, Tonya.

O incidente tornou-se um grande acontecimento cultural. Além de frequentemente ser visto como uma grande piada, até hoje ele é abordado por artigos acadêmicos, músicas, documentários e, em 2009, até por Barack Obama, em um discurso.

Após 12 meses de encarceramento, Eckardt mudou o nome para Brian Sean Griffith. Ele morreu em 2007.

5. Gillooly e outros homens a estupraram e ameaçaram matá-la

Divulgação/Califórnia Filmes
Sebastian Stan, à esquerda, e Margot Robbie em cena de 'Eu, Tonya'.

O acontecimento não é abordado pelo filme, mas Harding conta essa história em The Tonya Tapes. Segundo a ex-atleta, após o ataque à Kerrigan e a investigação do FBI começar, Gillooly e mais dois homens que ela diz não ter conseguido identificar a atacaram.

Harding contou ao New York Post em 2008 que, antes de fazer seu relato ao FBI, os três a estupraram.

"Eles disseram que se eu não cooperasse e falasse exatamente o que Jeff me disse, me matariam. Tinha uma arma apontada na parte de trás da minha cabeça e eu fui estuprada na parte de trás de uma caminhonete", conta. "Eu berrei, gritei, sangrei. Estava toda ensanguentada quando cheguei em casa."

Em entrevista ao Today, Gillooly contestou a afirmação. "Ela dizer que eu a estuprei é ridículo", disse. "Eu me surpreendo que alguma editora queira publicar isso."

6. Gillooly e Harding venderam uma "sex tape" de ambos

Este é outro acontecimento que Eu, Tonya não menciona. Poucas semanas antes do julgamento, Gillooly e Harding venderam um vídeo de ambos fazendo sexo para uma emissora de TV e imagens dele para a revista Penthouse.

Por muitos anos, segundo o Deadspin, acreditava-se que Gillooly vendera tudo sozinho, mas ele afirmou ao site que foi consensual e ambos dividiram os lucros: US$ 200 mil cada, mais royalties.

7. O cadarço de um dos patins realmente estava danificado

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A cena é reproduzida no longa-metragem.

Eu, Tonya retrata este angustiante momento em Lillehammer, no qual Harding tem problemas com o cadarço de um patins.

O dano a prejudicou e ela teve que abandonar a performance para tentar resolvê-lo. A ex-atleta conseguiu, voltou para a pista para se apresentar e ficou em 8º lugar. Kerrigan, recuperada do ataque, levou prata.

8. Ela se tornou boxeadora após o incidente

Divulgação/Califórnia Filmes

Harding foi atrás de novas carreiras após o banimento da patinação artística. Ela protagonizou o filme de ação Fuga Alucinante (1996), mas a carreira como atriz não deu certo. No início da década de 2000, então, ela começou uma carreira como boxeadora, usando o apelido "Bad Girl" ("garota má", em livre tradução). Deu certo por pouco tempo.

Ela enfrentou pessoas famosas, boxeadores profissionais ou não, em partidas transmitidas pela TV. Por causa de sua asma e por não gostar muito do esporte, Harding o deixou, com três lutas ganhas e três perdidas.

Depois disso, ela trabalhou como soldadora, atendente em uma loja de departamentos e pintora em uma fábrica de metal. A parte em que ela se torna boxeadora está em Eu, Tonya.

9. Ela (também) mudou de nome

A ex-atleta adotou o sobrenome de seu terceiro e atual marido — agora ela se chama Tonya Price. Ambos se casaram em 2010 e têm um filho chamado Gordon, de seis anos.

Tonya Price faz questão de enfatizar que é uma boa mãe. Emocionada, disse ao Inside Edition em 2012: "[Gordon] é a coisa mais maravilhosa do mundo. Não poderia imaginar meu mundo sem ele".

Price adorou o filme — "é magnífico", afirmou ao NYT — e hoje patina no gelo para se divertir em seu tempo livre.

Ela e a mãe não se falam desde 2002. A ex-atleta tem enfatizado que não, ela nunca mandou nenhum juíz "chupar o p—" dela por criticar seu figurino — mas não faltou vontade.

Eu, Tonya estreia nesta quinta-feira (15). Tem 121 minutos de duração, classificação indicativa 14 anos e distribuição da Califórnia Filmes.

Veja abaixo o trailer e os prêmios que o filme já ganhou ou aos quais foi indicado:

Indicações ao Oscar:

  • Melhor Atriz (Robbie);

  • Melhor Atriz Coadjuvante (Janney);

  • Melhor Montagem (Riegel).

Já venceu:

  • Globo de Ouro — Melhor Atriz Coadjuvante (Janney);

  • Sindicato dos Atores (SAG) — Melhor Atriz Coadjuvante (Janney);

  • Critics' Choice — Melhor Atriz em Filme de Comédia (Robbie) e Atriz Coadjuvante (Janney).

Outras indicações:

  • Globo de Ouro — Melhor Filme de Comédia ou Musical e Melhor Atriz em Filme de Comédia ou Musical (Robbie);

  • Bafta — Melhor Atriz (Robbie), Atriz Coadjuvante (Janney), Roteiro Original (Rogers), Maquiagem/cabelo (Deborah La Mia Denaver e Adruitha Lee) e Figurino (Jennifer Johnson);

  • Independent Spirit Awards — Melhor Atriz (Robbie), Atriz Coadjuvante (Janney) e Montagem (Riegel);

  • Sindicato dos Atores (SAG) — Melhor Atriz (Robbie);

  • Sindicato dos Roteiristas (WGA) — Melhor Roteiro Original (Rogers);

  • Sindicato dos Produtores (PGA) — Melhor Filme (Robbie, Rogers, Bryan Unkeless e Tom Ackerley).

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