LGBT
15/02/2018 15:10 -02 | Atualizado 19/02/2018 10:51 -03

As cartas de amor mais bonitas de todos os tempos de Virginia Woolf e Vita Sackville-West

"Pense nisso. Largue o seu homem, eu digo, e venha".

A escritora Virginia Woolf e a poeta Vita Sackville-West trocaram cartas apaixonadas.
Getty
A escritora Virginia Woolf e a poeta Vita Sackville-West trocaram cartas apaixonadas.

Cartas de amor entre duas mulheres. Entre duas autoras, poetas e artistas. Mulheres artistas que eram casadas com homens, mas que nutriam uma relação intensa e repleta de admiração em pleno século 20. A poeta Vita Sackville-West foi mais do que uma amiga, mais do que a inspiração da escritora Virginia Woolf para dar realidade a Orlando - Uma biografia (1928). Ela foi sua grande paixão.

E provas deste amor estão documentadas no livro The 50 Greatest Love Letters of All Time (As 50 melhores cartas de amor de todos os tempos, em tradução livre - sem edição em português). Entre cartas escritas por Ernest Hemingway, Jack Kerouac, Frida Kahlo, Franz Kafka e até Mozart, está uma carta de Virginia Woolf para Vita Sackville-West. Em janeiro de 1927, ela pediu para que ela "largasse seu homem":

"Olhe aqui, Vita - largue o seu homem, e nós iremos para Hampton Court, jantaremos juntas à beira do rio, andaremos no jardim à luz da lua, voltaremos para casa tarde e abriremos uma garrafa de vinho e ficaremos embriagadas para que eu possa te dizer todas as inumeráveis coisas que tenho em minha cabeça - elas não saem durante o dia, apenas no escuro do rio. Pense nisso. Largue o seu homem, eu digo, e venha."

Datada de 21 de janeiro de 1927, Vita envia sua resposta a Virgínia. Uma carta honesta, sincera que contrasta com a escrita apaixonada de Virgínia:

"Eu estou reduzida a uma 'coisa' que quer Virgínia. Eu escrevi uma linda carta para você nas horas de pesadelo sem dormir à noite, mas tudo se foi: eu apenas sinto sua falta, de uma maneira humana, simples e desesperada. Você, com todas as suas cartas sofisticadas, nunca escreveria uma frase tão elementar quanto essa; talvez você nem sequer sinta isso. (...) Eu sinto falta de você ainda mais do que eu poderia acreditar; e eu estava preparada para sentir sua falta como uma coisa boa. Então, esta carta é realmente apenas um grito de dor. É incrível o quão essencial para mim você se tornou. Suponho que esteja acostumada com as pessoas a dizer essas coisas. Maldita seja, criatura mimada; Eu não vou fazer você me amar mais me entregando assim - mas, minha querida, eu não posso ser inteligente e espalhafatosa com você: eu amo você demais por isso. Muito verdadeiramente. Você não tem ideia de quão estúpida eu posso ser com pessoas que eu não amo. Isso se transformou em uma arte. Mas você quebrou todas as minhas defesas, e eu realmente não me ressinto disso."

Woolf e Sackville-West se conheceram em meados dos anos 20 e se envolveram deforma intensa e amorosa entre 1925 e 1927, conta o The Guardian. Mesmo com seus casamentos mantidos e a distância, permaneceu entre elas uma terna amizade até o momento do suicídio de Woolf, em 1941. Outras declarações e correspondências entre elas também estão documentadas no livro The letters of Vita Sackeville-West and Virginia Woolf (As cartas de Vita Sackeville-West e Virginia Woolf), de Louise DeSalvo e Mitchell Leaska.

As cartas se transformaram em documentos históricos e revelam, inclusive, o fato de que os maridos sabiam da relação das duas, mas pareciam não dar importância. Segundo o livro Sou dona de minha alma - O segredo de Virginia Woolf, de Nadia Fusini, até Leonard, marido de Virginia, apoiava o relacionamento e chegou a incentivar o primeiro encontro sexual das duas. "Essas mulheres sáficas, elas sim é que sabem amar as mulheres!", registrou a escritora em seu diário.

Getty Images
1924: Poeta e romancista inglesa Victoria Sackville-West, esposa do diplomata Sir Harold Nicolson, com seus filhos no Long Barn.

Enquanto seus maridos não se importavam, o contrário acontecia com seus companheiros do círculo boêmio-artístico da época, que viam com maus olhos o romance. Segundo Fusini, ambas estavam conscientes do risco que corriam. "Virginia vivia como um caruncho no biscoito, quieta; e eis que aparece Vita, e com ela uma felicidade até então nunca experimentada por sua intensidade, sua qualidade; uma alegria misturada a seu contrário, um sentimento forte e contraditório, com sensações de prazer que ultrapassavam os limites e beiravam o terror", escreve em seu livro.

Em Orlando - Uma biografia, Vita está presente do início ao fim. O livro é, de certa forma, "a mais longa e mais encantadora carta de amor em toda a literatura", nas palavras de Nigel Nicolson, um dos filhos de Vita. Nicolson é autor do livro que conta a história de Vita e Harold Nicolson, seus pais. Em Retrato de um casamento (Nova Fronteira, 1973) ele fala abertamente sobre o romance de sua mãe com Virginia Woolf e revela a bissexualidade de seu pai.

Heritage Images/Getty Images
Virginia Woolf (1882-1941).

Uma das últimas cartas de Woolf à sua amante foi escrita em 1940, enquanto a Grã-Bretanha sofria bombardeios aéreos das tropas alemães. O trecho é um pequeno exemplo da intensidade dos escritos. E do amor delas:

"Lá está você sentada com as bombas caindo ao seu redor. O que se pode dizer, exceto que eu te amo e eu tenho que viver durante esta noite calma e estranha pensando em você sentada ali sozinha. Querida, deixe-me ter só mais uma linha... Você me deu tanta felicidade!"