MULHERES
09/02/2018 07:00 -02 | Atualizado 09/02/2018 07:00 -02

Não é fácil amar Hollywood quando ela está tão cheia de perversidade

Como os fãs da cultura pop lidam com o fato de que tantos de seus ídolos são canalhas?

Gabriela Landazuri Saltos/HuffPost, Getty Images

Antes mesmo de termos contato com o termo "cultura popular", nossas ideias sobre o mundo são moldadas por telas. Vimos E.T. passar voando na frente da Lua com seu novo amigo Elliott, a Bruxa Malvada do Oeste ser derrotada por uma turista de bom coração, um leão de animação cantar sobre seu desejo de governar um reino, um adolescente da zona oeste de Filadélfia se mudar para Bel Air. Essas imagens só podem ser o trabalho de magos altamente talentosos; nós as levamos conosco para nossa adolescência e idade adulta. Em algum momento desse percurso, passamos a entender, até certo ponto, que atores, roteiristas, produtores, cinegrafistas, operadores de sets, operadores de acessórios, maquiadores, cozinheiros e dezenas ou até centenas de assistentes e funcionários corporativos contribuíram para sua criação.

E agora estamos sendo forçados a reconhecer que muitas dessas mãos estavam sujas. Muitas mesmo, infelizmente.

A enxurrada de acusações feitas a agressores sexuais este ano será lembrada como um marco cultural, o momento em que um século de estupros e assédio sexual passaram de ser combustível de fofocas a assunto discutido em âmbito nacional. É possível que ela seja o testamento final de uma tribo de homens que intimidaram subordinados, ameaçaram atrizes novatas que sonhavam em conseguir sua chance de fazer sucesso, e exerceram poder insuperável, ao mesmo tempo em que, em muitos casos, criavam a arte que iria nos entreter e deixar nossa visão de mundo mais leve.

Nenhum de nós que apenas assiste a Hollywood a partir de fora sofreu como sofreram as mulheres e os homens que tiveram sua dignidade manchada por Harvey Weinstein, Kevin Spacey, Louis C.K e muitos outros que há anos são festejados no tapete vermelho, fazem fotos glamurosas para revistas e fecham negócios de milhões de dólares. Na América, entretanto, a cultura popular é mais do que uma simples frivolidade – é um modo de vida. Como fazemos quando o ecossistema que a apoia está cheia de porcos?

Talvez possamos separar a arte do artista, mas não podemos separar o artista do negócio.

Percebi que eu era fanático pelo cinema quando eu tinha uns 8 anos de idade. Eu enfileirava os vídeos que alugávamos da Blockbuster ao lado das fitas de VHS da minha família e brincava de ser dono de uma videolocadora na sala de casa. Com 11 ou 12 anos, jurei que eu assistiria a todos os filmes da lista do AFI (Instituto Americano de Cinema) dos 100 melhores filmes da história. Isso me levou a "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" e em seguida "Hannah e Suas Irmãs", ambos de Woody Allen, que, como eu ficaria sabendo anos depois, teria molestado sexualmente sua filha adotiva de 7 anos de idade. A AFI me deu "Pulp Fiction – Tempo de Violência", financiado por Weinstein, que desde então foi acusado de assediar ou agredir mais de 80 mulheres. Nessa mesma época fiquei apaixonado por "Kramer vs. Kramer", estrelado por Dustin Hoffman, que em 1985 teria assediado uma estagiária de 17 anos. Ao mesmo tempo eu não perdia as reprises de "The Cosby Show", anos antes de vir à tona que seu protagonista, Bill Cosby, é acusado de ser um estuprador em série. "O Bebê de Rosemary" e "Repulsa ao sexo", obras do estuprador infantil confesso Roman Polanski, são dois de meus filmes favoritos.

Quase todo o mundo tem uma versão própria dessa mesma história. Talvez você tenha adorado "That '70s show" e agora seja obrigado a engolir o fato de Danny Masterson ser acusado de estuprar quatro mulheres. Os discípulos de "Star Trek" devem estar em choque ao pensar em seu amado George Takei sendo acusado de apalpar um modelo. Talvez você fosse fã absoluto de Ben Affleck, Jeremy Piven, Casey Affleck, Ed Westwick, Matthew Weiner, Jeffrey Tambor, Terry Richardson, Sylvester Stallone, Steven Seagal ou James Toback.

A questão não é apenas que alguns artistas contemporâneos influentes e talentosos sejam predadores. Já sabíamos disso, até certo ponto. Não – o problema é que Hollywood foi erguida sobre a base da dinâmica entre predadores e suas presas, homens poderosos e atrizes que fazem papéis de ingênua, e descartávamos as consequências desse desequilíbrio de poder, pensando tratar-se de boatos sobre o passado, sobre um tempo em que os estúdios contratavam atores e atrizes, moldavam suas personas públicas e controlavam suas vidas.

Durante anos, relatos sobre erros de conduta – praticados em trailers de artistas, nos sets de filmagem, em festas, nas suítes de hotel de executivos dos estúdios – foram enquadrados na categoria de "fofocas sobre celebridades". Os tabloides fizeram uma cobertura sensacionalista de um escândalo de estupro em 1921 que incriminou (talvez erroneamente) o comediante do cinema mudo Fatty Arbuckle; a MGM, em um caso que ficaria famoso, acobertou o estupro de uma dançarina de 20 anos em 1937; em 1943 o ator Errol Flynn foi levado a julgamento por estupro estatutário, ou seja, relações sexuais com pessoas abaixo da idade legal de consentimento; inúmeras atrizes da Velha Hollywood que definiram o que significa ser uma estrela de cinema, incluindo Judy Garland e Marilyn Monroe, incluíram em seus livros de memórias relatos sobre terem sido molestadas por magnatas dos estúdios, que lemos em meio aos detalhes sobre suas overdoses.

Enquanto estávamos evitando discutir esses desvios, canalhas como Woody Allen e Louis C.K. estavam projetando seus alegados erros de conduta em seu próprio trabalho, contando histórias sobre estupro, delinquentes sexuais e meninas que seduzem homens mais velhos. A atenção que chegou a ser prestada às suas aparentes transgressões não foi o bastante para impedir estúdios e redes de pagá-los regiamente. Talvez possamos separar a arte do artista, mas não podemos separar o artista do negócio.

Esses horrores vêm acontecendo há quase um século, e os agressores são alguns dos mesmos homens que durante anos aprovaram e viabilizaram, ou não, as perspectivas profissionais de outros homens. Sabe aquelas estatísticas desanimadoras que reaparecem todos os anos, chamando nossa atenção para quão poucos filmes foram dirigidos por mulheres ou quão poucas pessoas de cor tiveram papéis com diálogos? Eles são frutos do trabalho de uma instituição comandada por homens que encaram as mulheres (e certos homens) como objetos para eles usaram para seu prazer. Enquanto Oliver Stone alegadamente apalpava uma atriz numa festa, uma mulher negra de talento provavelmente estava ouvindo de algum executivo que sua história não merecia ser contada.

Com mais e mais homens sedentos de poder sendo denunciados, não é descabido supor que a maioria dos maiores filmes e programas de televisão envolveu pelo menos uma pessoa que fez uso de sua posição para intimidar ou assediar colegas, mesmo que isso não tenha acontecido naquele set em particular. Ou, pelo menos, é provável que a maioria dos principais filmes ou programas de TV tenha envolvido alguém que foi cúmplice de um agressor, ajudando-o a acobertar seus delitos. O fato de termos entregue nosso tempo e dinheiro a essa gente, pensando que estávamos apenas curtindo o trabalho de entretenimento mais recente, dói. O fato de termos dado ouvidos e curtido narrativas sobre atrizes "complicadas", sem nunca pensar melhor sobre tudo que isso implica, nos aborrece. O fato de não termos enxergado a exploração cometida por nossos heróis – a tal ponto que a Academia entregou um Oscar de melhor diretor a Polanski quase três décadas depois de ele ter fugido do país, acusado de estupro de menor de idade – será uma mancha permanente sobre a história de Hollywood.

Há uma razão por que adoramos histórias sobre amor não correspondido: a deterioração de um romance é uma das coisas que doem mais na vida. E é isso o que está acontecendo com Hollywood neste momento. Uma indústria que amamos foi exposta como sendo uma indústria que não tem a mesma estima por nós e que trabalha ativamente para acobertar crimes, na esperança de reforçar alguns poucos escolhidos a dedo cuja influência só faz crescer.

Mas acabou. O que está acontecendo em Hollywood neste momento não vai acabar completamente com os crimes sexuais. Mas a exposição de pessoas que cometeram abusos ao longo de anos vai, esperamos, ajudar a restaurar a credibilidade de um setor que nos presenteou com imagens lindas de passeios de bicicleta tendo a Lua ao fundo. Esperemos que ela fomente uma infraestrutura em que esses abusos lamentáveis passem a ser anomalias, e não a praxe normal. E, quem sabe, essa responsabilização chegue a outras facetas discriminatórias que ainda não foram denunciadas suficientemente.

Dentro de um século, se tudo correr bem, os anais do aviltamento onipresente terão virado uma memória distante. Porque, para cada homem brutal que está aí fora, haverá uma dúzia de mulheres e vários homens decentes que investiram todo seu trabalho nas obras para a TV e o cinema que enriquecem o mundo. As contribuições deles não podem ser descartadas apenas porque um grupinho de vilões fez sombra a eles. É por esses profissionais decentes que vale a pena lutarmos, e são eles a razão por que essas verdades dolorosas precisam continuar a emergir. Em breve serão suas as histórias que definem nossa cultura popular. Em breve, ver os homens por trás da cortina não nos levará a uma decepção.

Aquele garoto obcecado pela Blockbuster que vive dentro de mim ainda não desistiu de Hollywood.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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