ENTRETENIMENTO
05/02/2018 19:09 -02 | Atualizado 05/02/2018 19:22 -02

'A Forma da Água': Talvez você não saiba, mas Doug Jones é seu monstro favorito no cinema

O respeitado ator especializado em representar monstros e seres incomuns fala de suas colaborações com Guillermo del Toro, seu encontro com Joan Rivers no tapete vermelho e a modificação que fez no filme 'Abracadabra'.

É fácil esquecer que os zumbis, lobisomens, vampiros levitadores e aliens excêntricos que passeiam por filmes e séries de TV ganham vida graças a humanos que passam horas e horas sendo maquiados todos os dias. E então conhecemos Doug Jones, que já encarnou muitos seres esdrúxulos. Seu nome não é muito conhecido pelo grande público, mas é altamente provável que você já tenha se maravilhado com alguns dos personagens de outro mundo que ele encarnou.

Doug Jones é para os monstros o que Andy Serkins, de O Senhor dos Anéis e Planeta dos Macacos, é para criaturas animadas pela captura de movimentos. Jones vem se fazendo conhecer desde 1985 como virtuose dos mortos-vivos de Hollywood. Com mais de 1,90 de altura, ele chama a atenção em qualquer ambiente, mas já desapareceu na pele do Palhaço Magro de Batman – O Retorn", Billy Butcherson em Abracadabra, o líder dos Cavalheiros sugadores de sangue em Buffy, a Caça-Vampiros, Pencilhead em Heróis Muito Loucos, aliens em Homens de Preto 2 e Falling Skies, o Sorveteiro em Legião e Saru na nova série Star Trek: Discovery.

Ele é também o monstrengo favorito dos filmes de Guillermo del Toro, tendo aparecido primeiramente em Mutação e depois em O Labirinto do Fauno, no qual representou tanto o Fauno quanto o Homem Pálido, além de Abe Sapien em Hellboy e fantasmas em A Colina Escarlate. No trabalho mais recente de Del Toro, A Forma da Água, Doug Jones mostra que é capaz de ser protagonista, representando um ser anfíbio que lembra algo saído de O Monstro da Lagoa Negra, capturado pelo governo para ser estudado e manipulado para fins políticos. Nesse processo, o ser anfíbio se apaixona.

Jones, 57 anos, não pensava inicialmente passar a vida assumindo outras formas. Em sua infância e adolescência, tinha sido fã de The Andy Griffith Show, I Love Lucy, Gilligan's Island e The Carol Burnett Show, e seu desejo era atuar em sitcoms. Mas ele era contorcionista e tinha estudado mímica na universidade Ball State, no Indiana. O destino não demorou a bater à sua porta.

Como A Forma da Água está agora nos cinemas, eu me sentei com Doug Jones em Nova York para falarmos de sua carreira. Após 32 anos trabalhando com cinema, Jones tem todo um tesouro de experiências nada convencionais em Hollywood. Veja algumas das "primeiras coisas" da vida desse monstrengo, o mais simpático que você poderia conhecer.

O primeiro monstro da infância de Jones

Como muitas crianças, Doug Jones, nascido em 1960, se sentia diferente. Não vivia à vontade em sua própria pele e sabia pouco sobre o mundo à sua volta.

"Não sei como era a vida para você quando era criança, mas eu, no início da adolescência, me sentia um verdadeiro monstrengo", ele contou. "Eu era um garoto alto, magro e esquisitão no Indiana, onde o que era visto como normal era uma faixa estreita. Qualquer coisa fora disso era objeto de escárnio. E é claro que eu pensava que era o único a ser alvo desse escárnio. Me sentia diferente de todo o mundo, achava que ninguém me entendia. Nesse nível, eu me identificava com os filmes sobre monstros. Mais tarde, entendi que todos nos sentimos assim em algum momento ou outro."

O primeiro filme de monstros que ele se recorda de ter visto foi A Múmia, horror em preto e branco de 1932 com Boris Karloff no papel titular. Jones viu o filme durante uma festa do pijama quando era garoto, com seus amigos juntinhos diante da televisão, prazerosamente assustados. Pouco depois ele assistiria a O Monstro da Lagoa Negra, que serviria de inspiração a Guillermo del Toro quando ele idealizou A Forma da Água.

"Foram mais imagens que me deixaram surpreso e maravilhado", disse Jones.

Seu primeiro trabalho pago como ator

Tendo impressionado um de seus professores de teatro na faculdade com o que sabia fazer com maquiagem de efeitos especiais, Jones sabia que tinha dom pelo incomum. E sabia que representar personagens não humanos era algo do qual gostava, depois de ter se oferecido como voluntário para representar Charlie Cardinal, a ave mascote dos Ball State, em partidas de basquete. Quando se mudou para Los Angeles em 1985 para tentar se profissionalizar como ator, seu primeiro trabalho pago foi representar uma múmia dançante num comercial da Southwest Airlines ("se me visse hoje, Boris Karloff teria orgulho de mim, tenho certeza", ele fala).

Depois disso, Jones foi um alien num comercial de bonecas, em seguida, "um nerd de óculos engraçados", seguido por um pianista com cabeça em forma de lua crescente numa série de spots de sucesso do McDonald's. Seu personagem, Mac Tonight, lhe garantiu trabalho recorrente de 1987 a 1989. Jones e sua mulher compraram sua primeira casa com os cheques que ele recebeu por esse trabalho.

"Como mímico e contorcionista, consigo colocar as pernas atrás de minha cabeça", ele disse. "Meu primeiro agente de comerciais me mandava fazer trabalhos envolvendo façanhas cômicas físicas, com figurinos e maquiagem. Quando alguém pedia dançarinos, malabaristas, palhaços e mímicos, ele me enviava para fazer tudo isso. Geralmente acabava comigo fazendo alguma maquiagem bizarra. Eu era um ator jovem; trabalho era trabalho. Vão me pagar? É claro que topo. Aconteceu sem eu perceber: como todos aqueles trabalhos representando criaturas estranhas começaram cedo, comecei a conhecer maquiadores de efeitos especiais. Depois de terem trabalhado comigo eles se lembravam do sujeito alto e magrinho que se movimentava bem, topava usar muitas camadas e não reclamava. Então eles se lembravam de mim, graças a Deus."

A primeira (e única) vez que Michael Keaton lhe deu um soco na cara

O primeiro filme de estúdio em que Doug Jones teve seu nome citado como parte do elenco foi Batman – O Retorno, de 1992. Ele já tinha aparecido em alguns filmes que quase ninguém viu, alguns dos quais sequer chegaram a ser exibidos em cinemas. Bob Yerkes, um dublê amigo de Jones que trabalhou em O Retorno de Jedi, Os Caça-Fantasmas e Querida, Encolhi as Crianças, recomendou Jones ao coordenador de dublês da Warner Brothers, que ficou impressionado com sua flexibilidade.

No teste que Jones fez para Batman – o Retorno, o coordenador lhe pediu para esperar enquanto ele buscava outra pessoa na sala ao lado – "ninguém menos que Tim Burton", o diretor do filme. Doug Jones nunca antes estivera na companhia de grandes nomes de Hollywood. De repente estava fazendo contorcionismo diante do diretor de Beetlejuice – Os Fantasmas se Divertem e Edward Mãos de Tesoura.

"Tim disse: 'Fantástico. Fique aqui um minutinho. Vamos falar sobre você na sala ao lado'", Jones recordou. Ele pensou que tinha ido lá para conseguir alguns poucos dias de trabalho, no máximo. "Então eles foram para a sala ao lado. Fiquei sentado lá uns dois minutos, pensando 'o que será que estão dizendo?' Eles voltaram e Tim disse: 'Você ganhou o papel'. Eu: 'Há um papel?' Pensei que eu tinha ido lá para fazer uma gag. Mas fui descobrir que o roteiro incluía um personagem chamado Palhaço Magro, que faria par com o Palhaço Gordo. Fazíamos parte da Red Triangle Circus Gang. Foi um contrato de sete semanas que acabou sendo esticado para 14 semanas, porque Tim gostava de me ter por perto. Abençoado seja Tim – ele salvou meu ano."

Durante aquelas 14 semanas, Jones filmou uma sequência frenética em que a Red Triangle Circus Gang espalha o terror em Gotham, levando-o a receber um soco na cara de Batman, representado por Michael Keaton. Foi seu primeiro enfrentamento com um ator famoso. "E ele cortou uma bomba de cima do meu peito com uma espada que tinha acabado de tirar da boca de um engolidor de espadas", disse Jones. "Foi uma cena complicada, uma cena muito coreografada, com todos nós artistas circenses malucos."

A primeira vez que ele tietou uma atriz

Abracadabra não foi um sucesso retumbante quando estreou, em 1993, mas foi importante na vida de Doug Jones graças à sua popularidade ressurgente. As pessoas de 20 e poucos anos hoje se lembram muito bem de Billy Butcherson, o namorado mulherengo da ressurreta Winifred Sanderson. O projeto levou Jones a ficar cara a cara com a própria Winifred, Bette Midler, que ele idolatrava havia anos. No primeiro dia que ele saiu de seu trailer maquiado de zumbi e usando as roupas esfarrapadas de um morto-vivo, Midler e suas colegas bruxas, Sarah Jessica Parker e Kathy Najimy, se surpreenderam. Elas o cercaram, tocando seu rosto e elogiando os efeitos especiais.

Jones tinha apenas uma fala, na verdade uma palavra apenas. Quando Winifred o ressuscita, ele devia xingá-la de "bitch" (vagabunda). Mas Doug Jones foi cauteloso. Afinal, Abracadabra era um filme da Disney feito para o público infanto-juvenil. Ele pediu ao diretor Kenny Ortega que modificasse a fala. Ortega concordou. Em vez de "bitch", Jones deveria dizer "wench" (mocinha), e ele sugeriu acrescentar também: "Moçoila! Rapariga! Feiticeira dentuça do inferno!"

"Achei muito bom, porque eu não sou redator, não sou roteirista", disse Jones. "E nunca antes tinha tido a coragem de sugerir uma modificação. Geralmente faço o que está indicado no roteiro. Aquele foi o único momento em que pensei realmente: 'Acho que estaríamos prestando um desserviço ao público infantil da Disney se apenas xingássemos Bette Midler de 'vagabunda'."

Dizer às pessoas que ele é Billy Butcherson ainda lhe garante fazer sucesso em festas. "Eu fui zumbi antes de os zumbis serem cool. Ele era um zumbi divertido, cômico, maluco, simpático à sua maneira esquisitinha. Muitos jovens já me disseram que eu fui sua primeira paixonite no cinema."

A primeira vez que ele foi à cerimônia dos Oscar

Jones raramente precisou fazer testes outra vez depois de Batman – O Retorno e Abracadabra. Os artistas de efeitos especiais passavam seu nome aos responsáveis por projetos que precisavam de bons atores para representar monstrengos. Isso levou Jones a atuar em Tank Girl – Detonando o Futuro, Warriors of Virtue, Heróis Muito Loucos e Monkeybone – No Limite da Imaginação. Guillermo del Toro se rendeu ao encanto de Jones em seu segundo filme, o estiloso Mutação, de 1997, em que Jones deu mostras de dedicação rara, fazendo o papel de uma barata. Com a adaptação do gibi sobrenatural Hellboy (2004) e o conto de fadas tenebroso O Labirinto do Fauno (2006), Del Toro confiou a Jones seus papéis mais complexos até então, de personagens com história passada completa e vida interior. Jones aprendeu espanhol suficiente para representar o fauno que encarrega uma menina atormentada de cumprir três tarefas em troca da imortalidade. E teve trabalho duplo na tragédia fascinante: também representou o Homem Pálido, um humanóide bárbaro cujos olhos estão nas palmas das mãos.

Pelo fato de ser o único integrante do elenco a falar inglês, Jones se encarregou da maior parte do trabalho de divulgação do filme junto à mídia americana, e isso elevou seu perfil em muito. E recebeu um convite para assistir ao Oscar de 2007, onde "O Labirinto do Fauno" ganhou três dos seis prêmios aos quais fora indicado, incluindo melhor maquiagem.

Jones foi o único representante do filme no tapete vermelho, razão pela qual teve a oportunidade de conhecer pessoalmente a inesquecível Joan Rivers. Ele sempre imaginara que fazer sucesso em Hollywood significaria ser entrevistado por Rivers, célebre por seus comentários irônicos antes da entrega dos prêmios. E o seu rosto, famoso pelas muitas plásticas? "Fascinante", disse Jones.

Ele ficou ao lado de Joan Rivers durante um intervalo para comerciais, esperando o momento de ir ao ar. Examinando anotações que um produtor lhe havia dado, Rivers chegou perto de Jones e perguntou como pronunciar uma das palavras. "Falei: 'isso é 'labirinto'', ele recordou. "Ela era uma mulher muito inteligente! Eu não entendi como ela podia não conhecer aquela palavra."

Quando eles foram ao ar, ao vivo, um produtor, falando no microfone de Rivers, a mandou perguntar sobre a maquiagem no filme. "Então ela voltou a atenção para mim outra vez e disse: 'Você já passou por muitas maquiagens malucas antes. Já teve algum problema com alergias? Problemas com produtos?' Eu falei: 'Na verdade minha pele é muito resistente. Nunca tive problemas com látex, espuma, borracha, adesivos, removedores ou produtos de silicone.' Quando estava dizendo as palavras 'produtos de silicone', estava olhando para um rosto cheio de silicone. Por isso falei, sem pensar, 'bem, você sabe o que quero dizer'. Eu esperara tanto tempo para falar com Joan Rivers e então a insultara sem querer. Foi sem querer! Eu queria desdizer aquelas palavras, mas não havia jeito, tinham acabado de ser transmitidas ao mundo. Que horror! Mas, graças a Deus, ela era comediante, então falou apenas 'já é tarde demais para mim, meu bem'. Obrigado, Joan."

Lucy Nicholson / Reuters
Doug Jones attends the Oscars on Feb. 25, 2007.

A primeira vez em que a genitália de um de seus monstros teve papel crucial

A Forma da Água é, em essência, uma história de amor entre marginalizados. É também a única vez em que a anatomia exata de um dos personagens de Doug Jones foi crucial para o enredo.

Ele representa um homem-peixe anônimo capturado no Amazonas e acorrentado em um laboratório comandado por um coronel perverso (Michael Shannon), que o descreve como "o ativo". Uma zeladora muda, Elisa (Sally Hawkins), descobre que o anfíbio é capaz de compreender a linguagem falada, vagamente, e expressar emoções. Os dois se apaixonam, e isso acaba dando em uma relação sexual entre seres de espécies diferentes. Não vemos a transa em todos seus detalhes explícitos; em vez disso, Elisa faz uma mímica para mostrar à sua amiga (Octavia Spencer) como funciona, usando seu dedo para indicar que o pênis do homem-peixe emerge da camada que cobre a região de sua virilha.

"Eu tinha perguntas, porque sabia que havia uma cena de amor que ia ficar meio apimentada", disse Jones. "Mas, quando vi o design, entendi que tudo seria coberto discretamente. Quando vi a primeira escultura, perguntei: 'Como é que ele vai fazer o ato?'. Aquilo que Sally fez no filme, usando mímica para imitar a transa, foi assim que me foi explicado também: alguma coisa se abre, alguma coisa sai e se levanta. Ok, ótimo. Vamos presumir que aconteceu, então, e eu não preciso representar exatamente."

A Forma da Água é o filme que Doug Jones mais gostou de fazer, porque lhe ofereceu seu personagem mais profundo até hoje.

"Voltando aos monstros simpáticos pelos quais me apaixonei quando eu era garoto, o personagem de 'A Forma da Água' é bem isso", disse Jones. "Ele é místico, mágico e misterioso. Adoro isso também. Ao longo do filme vamos conhecendo sua história passada. No lugar de onde veio, ele era adorado como um deus. Eu adorei cada minuto. E o relacionamento com Sally Hawkins na tela, uau! Não é preciso dizer mais nada. Ela é um anjo do céu, uma figura mágica coberta de pó de pirlimpimpim. A ligação que tivemos na vida real e no filme foi a mesma. Eu a adoro."

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