ENTRETENIMENTO
02/02/2018 14:48 -02 | Atualizado 02/02/2018 15:06 -02

‘Altered Carbon’, nova série de ficção científica da Netflix, explora desigualdade social

Em nova produção da plataforma de streaming, ricos driblam a morte com tecnologia avançada para continuarem no poder.

Divulgação/Netflix
Joel Kinnaman é Kovacs, protagonista do seriado baseado no livro de Richard K. Morgan.

Após passar 250 anos inconsciente, Takeshi Kovacs é acordado. A espécie de bolsa em que ele está guardado é aberta e o líquido viscoso que conserva seu corpo escorre pelo chão do laboratório todo. Kovacs está nu, confuso e ataca os cientistas que estão ali. Uma das primeiras coisas que ele pede é um espelho. Não há nenhum ali, então lhe passam uma bandeja de metal na qual ele pode refletir seu próprio rosto. Não é o mesmo de 250 anos atrás.

Tudo é um bocado confuso para o protagonista de Altered Carbon, nova série de ficção científica da Netflix, e para os espectadores também. Baseado no romance cyberpunk de Richard K. Morgan (lançado no Brasil como Carbono Alterado pela Bertrand), o seriado traz o sueco Joel Kinnaman no papel de Kovacs. Sim, um sueco — o personagem antes tinha outra etnia, era asiático. Nessa fase de sua vida, ele é interpretado por Will Yun Lee. Conforme o episódio piloto avança, tudo fica mais claro para todos nós.

"Em Altered Carbon, a consciência humana pode ser armazenada em um chip colocado na parte de trás do pescoço. Os corpos são chamados de 'capas' e são intercambiáveis. Isso exagera a desigualdade social que vemos hoje", explicou Kinnaman à imprensa em dezembro de 2017, em São Paulo.

Na sociedade que a série traz como pano de fundo, a tecnologia é usada principalmente pelos mais ricos, as pessoas que podem pagar pelo procedimento; é uma maneira de elas manterem-se em posições de poder.

Kovacs, o último sobrevivente de um grupo de guerreiros rebeldes — chamados "terroristas" — contra a ordem mundial, não é trazido de volta à vida por acaso. O homem mais rico daquele mundo, Laurens Bancroft (James Purefoy), o recruta para investigar um assassinato — o dele próprio. O protagonista se vê diante de duas opções: aceitar o trabalho ou ser encarcerado por causa dos crimes cometidos no passado. Kovacs aceita, e Altered Carbon deslancha.

"Nos Estados Unidos, já temos visto que a geração [de crianças e jovens] que está crescendo é a primeira que viverá menos que os pais delas. E, ao mesmo tempo, os ricos têm vividos mais", disse Kinnaman. "O que a série mostra é um exagero disso. Mas sei que, enquanto sociedade, humanos, a gente não quer isso. A gente quer que a distribuição de riqueza continue."

Em entrevista à NME, o ator ilustrou o universo da série com um exemplo de dar calafrios: ele disse que "é um mundo em que Donald Trump viveria para sempre".

Divulgação/Netflix
'O que amo na ficção científica é que ela nos permite projetar como os avanços tecnológicos podem transformar o que fazemos', diz a atriz Renée Elise Goldsberry.

As questões sociais levantadas pela série fizeram os atores se verem diante de profundos questionamentos políticos.

"O maluco é que tudo isso não parece distante. Há bastante desigualdade hoje. O que significaria se os ricos vivessem para sempre?", indaga a atriz Dichen Lachman, que dá vida a Reileen Kawahara, devota irmã de Kovacs.

Renée Elise Goldsberry, intérprete da líder rebelde Quellcrist Falconer, diz ter medo de que o futuro seja igual ao do universo criado por Richard K. Morgan, principalmente por ter dois filhos pequenos.

"Eu não penso apenas nos meus filhos, mas nos filhos dos meus filhos também", conta a vencedora do Tony, o principal prêmio do teatro norte-americano, por sua performance no musical Hamilton.

"O que amo na ficção científica e em Altered Carbon é que elas nos dão a oportunidade de projetar como os avanços tecnológicos podem transformar algumas coisas que fazemos. E de nos perguntar 'será o suficiente apenas fazer coisas? Ou temos que nos responsabilizar com o que fazemos e com o que acontecer?'."

"Eu, pessoalmente, tenho medo do que pode acontecer com diferença entre ricos e pobres, com os ricos ficando mais ricos e os pobres, mais pobres", conta a atriz mexicana Martha Higareda, que vive a policial Kristin Ortega, cuja investigação da morte de Bancroft é virada de cabeça para baixo quando Kovacs surge.

A estética da série lembra bastante a da franquia Blade Runner — há publicidade em excesso nas ruas, com hologramas animados e letreiros de néon, fumaça, poluição, chuva, prostitutas.

No entanto, ao contrário dos filmes baseados no romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick — cujos contos foram adaptados para uma recente série de TV —, um escritor de notável misoginia em suas histórias, Altered Carbon tem personagens femininas que passam longe de serem rasas ou inativas.

Divulgação/Netflix

Em cena do 1º episódio, civis protestam contra a tecnologia de 'driblar' a morte; no centro, a mexicana Martha Higareda em cena com Kinnaman.

"A série representa mulheres de maneira tão forte e poderosa quanto os homens", comemorou Lachman. "Elas têm mais nuances e são mais detalhadas do que de costume no entretenimento. Somos poderosas, vulneráveis, complicadas e podemos 'brincar' com todas essas ideias e emoções. Isso é bastante raro e me sinto sortuda por estar na série."

Talvez o fato de haver uma mulher atrás das câmeras comandando o show tenha feito diferença. A criadora de Altered Carbon, a roteirista e produtora Laeta Kalogridis, foi quem apresentou o romance de Morgan à Netflix; antes disso, ela já tinha consigo os direitos de adaptação há 15 anos.

Conhecida principalmente por ter escrito o suspense psicológico Ilha do Medo (2010), dirigido por Martin Scorsese, Kalogridis ouviu "não" atrás de "não" por causa do conteúdo da história — há muito sexo e violência e, além disso, a produção seria carésima.

Divulgação/Netflix
Renée Elise Goldsberry como Quell em pôster de divulgação.

A princípio, a roteirista tinha em mente fazer um longa-metragem, mas foi na atual ebulição criativa da TV que ela conseguiu um espaço para a adaptação. Agora, a ficção científica é a primeira série da Netflix realizada com o alto orçamento típico de filmes feitos em Hollywood.

Foi um processo parecido com o vivido por Kovacs: um corpo foi abandonado para o projeto ganhar vida em outro. Se Altered Carbon terá uma vida tão longeva quanto a de seus personagens, agora nós poderemos descobrir.

A primeira temporada estreia nesta sexta-feira (2), com dez episódios. Veja o trailer abaixo:

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