MULHERES
31/01/2018 15:03 -02 | Atualizado 31/01/2018 15:20 -02

'Que prisão é essa que as mulheres se impõem?': Como Nancy Friday libertou mulheres para a sexualidade

A autora de 'My Secret Garden', que morreu aos 84 anos, foi pioneira da escrita erótica e feminista.

Getty/HPMG

Eu estava passando a noite na casa de uma amiga. Estávamos acordadas depois da meia-noite, algo que por si só já era uma transgressão, quando minha amiga – um ano inteiro mais velha que eu, logo, infinitamente mais sábia – tirou um livro da prateleira mais alta: My Secret Garden: Women's Sexual Fantasies (Meu Jardim Secreto, publicado pela editora Record no Brasil), de Nancy Friday.

Ela procurou seu trecho favorito e o leu para mim em um cochicho alto, reproduzindo as palavras de uma mulher chamada Wanda que descreveu sua fantasia sexual: topar sem querer com uma orgia numa casa de fazenda e, como castigo, ser penetrada por um burro. A descrição era detalhada e, para meus ouvidos de aluna de escola primária, absolutamente chocante. Senti um peso na minha barriga e uma pequena chama se acendendo em outro lugar.

"Vocês leram um livro sobre sexo ontem à noite?", perguntou minha mãe na noite seguinte. Percebo hoje que ela com certeza não estava tanto incomodada quanto achando graça. Apavorada, neguei e enterrei a lembrança do encontro com o burro em um lugar onde esperava que nunca mais o encontrasse. Até recentemente, quando eu soube do falecimento da mulher que levou essa fantasia específica a uma página impressa.

Nancy Friday morreu em 5 de novembro de 2017, aos 84 anos, de complicações decorrentes do mal de Alzheimer. Ela deixa um mundo contemporâneo bastante diferente daquele em que habitava em 1973, quando foi lançado seu livro My Secret Garden e quando a maioria dos homens acharia impensável que mulheres tivessem fantasias sexuais.

"Como é possível, você bem poderia perguntar, que as mulheres de hoje, na virada do século, ainda pensem que são as únicas 'meninas más' a terem pensamentos eróticos?" escreveu Friday na introdução a seu livro. "Que espécie de prisão é essa que as mulheres se impõem?"

Convencida de que a autonomia sexual era crucial para a luta pela igualdade de gêneros, Friday se propôs a romper o véu de silêncio que cobria a imaginação sexual das mulheres, véu esse instalado em parte pelos homens que se sentiam ameaçados por essa imaginação. Ela compilou um compêndio anônimo de fantasias de mulheres, abrangendo desde fantasias suaves até outras obscenas ou deliciosamente bizarras. Fantasias de médico e paciente, cachorrinho, pepinos compridos e homenzarrões sem rosto aparecem em alguns dos cenários mais malcomportados enviados a Nancy Friday por carta, em conversas pessoais e telefonemas gravados.

Friday começou a se interessar pelas fantasias femininas depois de revelar uma fantasia dela (envolvendo um desconhecido bem dotado numa partida de futebol) a um amante quando eles estavam na cama. O amante reagiu vestindo as calças e indo embora. Esse encontro surpreendente mostrou a Friday quão grande é a ameaça que o potencial sexual insatisfeito das mulheres representa para alguns homens.

"Percebi que eu estava me dispondo a representar as fantasias indiretamente ditas dele, envolvendo cenários de Pigmaleão e D.H.Lawrence", ela escreveu. "Mas, e as minhas? Ele não queria ouvir falar. Eu não devia ser coautora do roteiro fascinante de 'Como ser Nancy', apesar de ser a minha vida. Eu não devia atuar –devia me submeter à atuação dele."

My Secret Garden é um exemplo de literatura confessional e se lê quase como uma discussão de um proto-Tumblr ou Reddit, com colaboradoras compartilhando segredos íntimos sob um manto protetor de anonimato. Algumas fantasias incorporam tabus eternos como incesto e estupro. Outras se aventuram mais longe no terreno surreal, como o caso de uma mulher que anseia ser acariciada por um polvo de um desenho de Salvador Dali.

Amazon

Nancy Friday nasceu em 1933 em Pittsburgh, Pensilvânia, e estudou numa escola feminina, formando-se mais tarde no Wellesley College. Ela foi repórter de turismo, editora e representante de relações-públicas. My Secret Garden foi seu primeiro livro e virou best-seller instantâneo, rebatendo o mito de que as mulheres seriam menos sexualmente curiosas, inventivas ou anormais que os homens. Dois anos após seu lançamento, Friday publicou uma sequência intitulada Forbidden Flowers: More Women's Sexual Fantasies. Ela acabaria publicando outros seis livros, todos tratando da relação entre mulheres, identidade e sexualidade.

Adaptado para o teatro em 2009, My Secret Garden inspirou a escritora sobre sexo Emily Dubberley a repetir o projeto 40 anos mais tarde com o livro Garden of Desires: The Evolution of Women's Sexual Fantasies (Um jardim de desejos: A evolução das fantasias sexuais das mulheres). My Secret Garden ainda é o livro mais conhecido de Nancy Friday. Em um de meus trechos preferidos, uma mulher chamada Esther expressa não uma fantasia específica, mas uma maneira mais geral de estar sozinha, transformando a realidade comum em um playground de potencial sexual.

"Costumo sonhar acordada com frequência, e isso provavelmente explica por que tenho tanto prazer com sexo. Faço o trabalho da casa usando apenas a parte de cima de um pijama baby-doll, passo a maior parte do tempo meio excitada, me tocando ou me esfregando contra objetos diversos. O bocal do aspirador de pó, por exemplo, quando passado de leve sobre a área púbica, é maravilhoso e pode produzir um orgasmo se você quiser. Às vezes fico com um pênis falso inserido enquanto faço o serviço de casa. Imagino que é o pau do meu cão boxer."

Muitos dos depoimentos começam ou terminam com explicações ou pedidos de desculpas – "nunca contei isso a ninguém", "me desculpem", tiques verbais que lançam luz sobre a cultura de silêncio e vergonha que Friday queria superar. "Somos tão ocultas quanto nosso clítoris", ela escreveu. "Quando finalmente conseguimos localizá-lo, escondido lá em cima, nos sentimos culpadas por tê-lo encontrado."

Através do ato de trazer à tona e escancarar, de documentar e compartilhar, as colaboradoras de Friday começaram a se dar conta de que os desejos não são o problema – o problema é a cultura que os condena. Tive a mesma percepção, anos depois da primeira vez em que li o livro de Friday numa sala mal iluminada, quando eu, então estudante, apresentei uma proposta de redigir a coluna semanal sobre sexo do jornal da Universidade da Califórnia em Berkeley.

No texto que enviei ao jornal a título de teste, descrevi a primeira fantasia sexual de minha vida, que envolvia o lobo mau da história dos Três Porquinhos. Foi eletrizante trazer à tona uma recordação que, no passado, eu esperava que ficasse oculta para sempre, e compartilhá-la com desconhecidos, sem precisar pedir desculpas por isso. Eu me lembrei perfeitamente da ilustração do lobo que primeiro me despertou aquela sensação estranha e os objetos macios do meu quarto que eu usava para dar vazão a ela.

Com aquela história, consegui o trabalho, e imediatamente senti remorso e medo. Escrever em tom irreverente sobre minhas recordações eróticas infantis era uma coisa, mas escrever sobre meus desejos e minhas façanhas atuais era outra inteiramente. O fato de que meus avós tinham prometido ler todas as edições do jornal intensificava meu medo. Consegui passar o primeiro semestre inteiro sem revelar nada de pessoal. Em vez disso, usava as anedotas e observações de amigas. Quando o verão chegou, finalmente, eu estava ao mesmo tempo aliviada e decepcionada comigo mesma.

Eu não tinha entendido como seria difícil escrever abertamente sobre sexo, até o momento em que me propus a fazê-lo – e não consegui. Eu não poderia ter previsto como era importante para mim manter intacto meu eu de "boa menina e boa filha", como Nancy Friday o chama. Falar de sexo era extremo para minha família. Era ainda pior para os estudantes de Berkeley, cujos comentários negativos enchiam artigos online, xingando-me de sedenta por atenção, entre outros insultos cheios de palavrões.

Isso significava que aquilo que as mulheres são autorizadas a sentir, pensar, dizer e escrever sobre sexo mudou desde que o livro de Nancy Friday foi lançado, em 1973, mas não mudou completamente. Ainda haverá um longo caminho a percorrer até a masturbação feminina ser vista como uma parte comum e auspiciosa das narrativas sobre o amadurecimento pessoal de jovens. Ainda falta muito para as fantasias de mulheres serem vistas como fonte de poder e camaradagem, em lugar de segredo e culpa.

"Acho provável que depois de lerem este livro, muitas mulheres vão começar a ter fantasias", falou Friday em 1973. "Ou, melhor, vão tomar consciência de que sempre tiveram fantasias e que todas essas ideias ou noções bizarras que elas até agora reprimiam ou esqueciam são de fato fantasias."

Rezo que este artigo tenha um pouco que seja desse efeito. Leitora, qual é sua fantasia?

*Este artigo foi inicialmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.