MULHERES
30/01/2018 17:49 -02 | Atualizado 31/01/2018 19:33 -02

Marcia Tiburi: 'Feminismo não deve ser simplesmente murro em ponta de faca'

Filósofa e ativista é autora de 'Feminismo em Comum - Para todas, todes e todos', primeiro livro lançado pelo selo 'Rosa dos Tempos', da editora Record, em 2018.

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Novo livro de Marcia Tiburi, Feminismo em Comum, da editora Record. Foto Simone Marinho.

Por que certo feminismo entra na moda e é tão aceito pelo capitalismo? Por que outro feminismo dá medo e é rejeitado pelo capitalismo? De onde vem o desejo de feminismo que vemos se manifestar na vida cotidiana e na vida virtual ao questionar famílias, escolas, igrejas, a Justiça, o mercado, o governo e o Estado? É com perguntas como estas que o livro Feminismo em Comum - Para todas, todes e todos (Editora Record, selo Rosa dos Tempos), da filósofa Marcia Tiburi, 47, quer tirar o feminismo da seara das polêmicas infindáveis para que ele seja visto como potência transformadora da sociedade.

"O feminismo é precioso e precisa ser cuidado com muita atenção. Ele precisa ser bem tratado, ser bem produzido, porque ele também é uma potência teórica, no sentido de que pensando de um ponto de vista feminista pode-se ir cada vez mais longe", disse, em entrevista por telefone ao HuffPost Brasil. "E esse lugar cada vez mais longe não deve ser um lugar de violência e destruição da sociedade. Ao contrário, deve ser um lugar de revolução", completa.

Em 126 páginas e com uma linguagem acessível, a filósofa, que também é autora dos livros Como conversar com um fascista e Ridículo politico, faz uma viagem na história do feminismo, olha para o presente, toca em feridas da dominação masculina e expõe as razões pelas quais a manutenção de uma sociedade patriarcal enraizou conceitos e ideias na cultura e nas instituições que afetam diretamente minorias políticas: mulheres, negros, LGBTs.

O livro poderia ser uma coletânea de textos que Tiburi já escreveu para jornais e revistas mas, segundo ela, "não era o caso". Entre os meses de outubro e novembro do ano passado, a convite da editora Record, ela colocou no papel aquilo que considera o seu ponto de vista e defendeu a ideia de um "feminismo dialógico", ou seja, "não pensar o feminismo como ideologia, nem como sectarismo, nem como uma pura visão de mundo". Mas sim, "como uma lente de desconstrução da sociedade patriarcal e como uma metodologia, também, de avanços sociais em termos éticos e políticos", aponta.

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Uma das mensagens mais complexas do livro está em afirmar que o feminismo "está em tensão dialética, em tensão com o outro", algo sensível para ambos os lados (tanto os que o rejeitam, quanto os que se apegam ao feminismo).

Márcia Tiburi: Pois é. É muito complexo mesmo trabalhar com essa questão hoje. De um lado, me parece que o feminismo é a proposta ético-política mais madura que pode haver. Chegar ao feminismo implica uma maturidade política das pessoas. E isso porque a política patriarcal, masculina, machista, branca, racista, capitalista é essa política do consenso prévio, dos acordos escusos, que é o que a gente está vendo no Brasil hoje, ainda.

Pensar o feminismo de uma forma mais "abrangente", como você aponta no livro, pode trazer avanços?

O feminismo não é uma... Ele não pode ser apenas uma discussão de direitos para as mulheres. Embora ele comece com essa discussão e ela seja muito importante. Mas, eu penso em um feminismo expandido. Em um feminismo que é crítica, análise, desconstrução do patriarcado, do racismo, do capitalismo. Portanto, crítica e análise e desconstrução do poder. Nesse sentido, o feminismo não é consensual.

E justamente por não ser consensual, traz incômodo?

Por ser crítico, analítico, desconstrutivo, o feminismo traz uma marca de incômodo ao sistema. Por isso, também, as feministas, que são pessoas sinceras, diretas, que praticam uma tática de denúncia diária e quotidiana, muitas vezes parecem pessoas desagradáveis. Quantas vezes nós, eu, você, qualquer uma de nós que seja feminista é maltratada ou até humilhada? Esse termo "humilhada" é um pouco exagerado mas, digamos assim: nós sofremos, nós pagamos um preço pelas nossas falas. Porque essas falas não são as falas do consenso nem as falas do conluio, nem as falas do cinismo. Nós somos diretas, honestas, sinceras e, por isso, muitas vezes incomodamos os sacerdotes, algozes do machismo.

Como você vê o movimento feminista no Brasil hoje, neste sentido "não consensual" e pensando também na falta de representatividade das mulheres na política?

Eu acho que hoje o feminismo está em um momento precioso. Essa tensão que o feminismo traz é algo totalmente próprio do tipo de política sincera e madura que é preciso realizar. Nós não estamos aqui para agradar ninguém, muito menos para agradar o patriarcado e muito menos umas às outras. Porque agradar não é um termo que seja categoria política do feminismo. Nós também não estamos aqui simplesmente para incomodar porque queremos coisas mais sérias. Agora, é claro que incomodamos. Dilma Rousseff incomodou muito. Era mulher, foi eleita, foi reeleita. Não era uma mulher que ficasse agradando porque não fazia, não usava uma performance da mulherzinha "bela, recatada e do lar". E o discurso de Dilma Rousseff nunca foi um discurso de aceitação e passividade, mesmo com os erros que cometeu em seu governo. Eu sempre fui muito crítica ao governo de Dilma Rousseff. Então, o feminismo hoje... Existem vários feminismos em ação. Existem singularidades, existem muitas feministas, existem pessoas se descobrindo como feministas, existem coletivos nascendo e eu falei no livro sobre algo que eu chamo de "caráter processual do feminismo". Não existe um feminismo pronto. Existe um feminismo em progresso, em processo. Então, a meu ver, hoje, o feminismo, vamos chamar assim, um feminismo mais concreto, mais analógico, que se dá nas instâncias institucionais... Existem várias mulheres que, ao longo da história desse país, desde a ditadura, estão "segurando o piano", digamos assim, das instituições brasileiras. Ao longo da História, houve mulheres que se destacaram muito e que tiveram muito espaço, mas elas nunca ganharam esse espaço. Elas sempre tiveram que conquistá-lo e pagaram o preço pelos seus posicionamentos em termos de feminismo.

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Quem são essas mulheres que tiveram que lutar pelo próprio espaço?

Eu posso citar Nísia Floresta ou Maria Lacerda de Moura ou Ruth Escobar ou Amelinha Teles; a Shuma Schumacher no Rio de Janeiro; as feministas negras: Lúcia Xavier, Lélia Gonzales, Sueli Carneiro. Essas mulheres que são de luta, que são de ação, que fazem coisas muito concretas. E há feministas que hoje ocupam as redes sociais e que, do meu ponto de vista, todas elas são fundamentais para o processo. Se elas praticam um feminismo mais de "vozerio" ou um feminismo mais de radicalização, qualquer uma delas, para mim, está criando algo que é sempre melhor do que o que o machismo criou. Então, o feminismo está para a coragem, assim como o machismo está para a covardia. Os atos feministas, quaisquer que sejam, sempre são atos de coragem contra o machismo vigente.

No livro você também afirma que é preciso "retirar o feminismo da seara das polêmicas infindáveis e enfrentá-lo como potência transformadora"...

Isso é muito complexo. E é por isso que a gente precisa aprofundar a reflexão sobre o feminismo e os feminismos. Nós não podemos praticar o feminismo sem teorização, sem reflexão. O feminismo não pode ser uma prática sem fundamento, sob pena de ele cancelar, inclusive, sua próprias potencialidades transformadoras. Então, não podemos descuidar do feminismo, lançar ele na precariedade intelectual que é típica da nossa época. O feminismo é precioso e precisa ser cuidado com muita atenção, ele precisa ser bem tratado, ser bem produzido, porque ele também é uma potência teórica, no sentido de que pensando de um ponto de vista feminista pode-se ir cada vez mais longe. E esse lugar cada vez mais longe não deve ser um lugar de violência e destruição da sociedade. Ao contrário, deve ser um lugar de revolução. E de revolução que se dá tanto na vida concreta, política, tanto na subjetividade, até porque, não podemos separar essas duas transformações.

Você também faz um alerta para que o "feminismo não se torne mera indignação moral". Diante dessa afirmação, como saber que as mulheres estão escolhendo livremente — ou simplesmente fazendo uma escolha -- desde o que vestir a como agir no trabalho, por exemplo -- que é benéfica à manutenção de um sistema que as oprime?

Você está colocando uma questão muito séria. Porque compreender o limite é, por exemplo, compreender o limite entre a democracia e a sua deturpação em demagogia. Então, toda forma política, em algum ponto, encontra a sua deturpação. E o feminismo é uma forma política, então ele também pode ser deturpado. É importante que a gente faça o feminismo evoluir para além de qualquer erro que ele possa cometer. Mas é claro que as formas políticas também cometem erros, então alguma precariedade é inevitável, porque somos seres reais, históricos. E ao meu ver também a reflexão feminista precisa sempre avançar tendo em vista a situação concreta em que a gente está, a conjuntura no qual a gente vive, as condições econômicas, as condições psicopolíticas do poder e, nessa medida, eu sou a favor de que a gente continue fazendo feminismo através do diálogo para que o diálogo -- no processo dialógico que, a meu ver, é a melhor forma de fazer política -- a gente possa compreender as diferenças das posturas, dos argumentos, e para que nós possamos ajudar umas às outras, porque o feminismo não está pronto. E, por isso, compreendendo historicamente, a gente observa e vê que existem erros. Então, eu não penso num feminismo perfeito. Eu penso em um feminismo que inclui a nossa singularidade.

Recentemente, a proporção gigantesca que o movimento #MeeToo tomou nos Estados Unidos com centenas de denúncias de assédio, trouxe outra discussão, quando 100 atrizes francesas assinaram um manifesto à favor do "direito dos homens de importunar". Como você vê esta questão?

Eu acho que nós não podemos nos engalfinhar discutindo francesas e americanas. O que as francesas dizem é interessante e precisa ser percebido dentro do contexto cultural e da geração delas. O que as americanas dizem, o que elas colocaram em relação ao assédio é irredutível, é absolutamente fundamental. Ao mesmo tempo, nós, como brasileiras, não podemos nos pautar por essa oposição criada. E essa é a armadilha. O machismo está sempre de plantão. Há uma estratégia do ponto onde pode-se criar uma polêmica. E, ao meu ver, essa polêmica não existe. Há razão no que dizem as americanas e há razão no que dizem as francesas. Polarizar diminui tanto o que as americanas dizem, quanto o que dizem as francesas e não se tratar simplesmente de se posicionar de um lado ou de outro. Se trata de pensar o que há de rico e potente em nível de transformação tanto no que umas dizem, quanto no que outras dizem. Então, nós, como feministas não podemos brigar entre nós. Não podemos cair nessa armadilha montada pelo patriarcado, que é separar as feministas. Isso não quer dizer que o feminismo não seja cheio de dissenso, ele é uma luta agonística. Não é uma luta pelo consenso, é uma luta pela diferença, pelo avanço do debate, da crítica, pela melhoria do nosso feminismo (é claro que a gente quer isso). Mas para que esse feminismo possa fazer avançar a sociedade como um todo.

Como você vê a apropriação do discurso feminista por marcas que se dirigem, necessariamente, ao público feminino? Existe um lado positivo ao "comercializar" a diversidade? Pode-se entender que essa comercialização é uma forma de quebrar com a lógica imposta, mesmo que por meio do consumo?

De um lado, hoje realmente há uma aparição na cena. E essa aparição na cena das mulheres com seus corpos, com suas cores, com suas raças, com seus discursos, enfim, faz muito bem à sociedade. Porque expõe para a nossa contemplação outros seres, outras pessoas que estavam esquecidas, abandonadas, silenciadas ou invisibilizadas. Então, o lado bom da "moda" é que torna visível. E tornar visível pode ser bom. De outro lado, aí vem o problema dialético. Numa sociedade do espetáculo, tornar visível é tornar mercadoria. E de alguma forma, tudo o que é transformado em mercadoria é assimilado pelo sistema capitalista. Então, acredito que quando mulheres tomam a frente de anúncios, propagandas, capas de revistas, etc., é apenas a atitude de ocupar um espaço para dizer: "Olha, eu existo. Existem outras pessoas nessa sociedade". Eu defendo e acho que, principalmente as feministas negras devem ocupar esse espaço, que foi estipulado historicamente como o "espaço das brancas". Esse gesto é muito potente. Mas a gente quer mais do que ser capa de revista. Isso é apenas para expandir além da "bolha feminista", digamos.

Ao falar sobre a relação entre homens e mulheres, você aponta que "o patriarcado abandonou os homens a uma profunda miséria, na mesma medida em que concedeu a eles privilégios". Quando você fala em "miséria", a que está se referindo?

Ora, o patriarcado não ajuda ninguém, e os homens que se acham sujeitos privilegiados e que estão ali colocados como tais pelo patriarcado, são sujeitos que herdaram uma pobreza espiritual profunda, que é o machismo. A meu ver, isso precisa ser modificado. Porque o feminismo não deve ser simplesmente um murro em ponto de faca, por isso nós não podemos preservar os machistas. Nós precisamos produzir mecanismos para que eles deixem de ser machistas. Eles precisam ser melhor formados, eles precisam passar por transformações subjetivas. Eles precisam passar pela psicanálise, pela psiquiatria, eles precisam passar por tratamentos pedagógicos ético-políticos, porque deve ser muito ruim ser machista. O sujeito que é machista, no fundo, no fundo, ele deve se sentir muito mal. O machismo é de uma pobreza e de uma covardia que qualquer pessoa que tenha um pingo de afeto salvaguardado não deve se sentir bem sendo machista.

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"Ele [o feminismo] pode melhorar a vida de todas as pessoas e, inclusive ajudar aos homens para que eles tenham outra forma de subjetivação", afirma Tiburi.

Essa transformação passa pelo movimento de repensar masculinidades?

Então, essa é uma questão bem fundamental. Necessariamente a gente tem que passar por questões de masculinidade. Eu penso que muitas pessoas não gostariam de "ser homem". Há pessoas muito corajosas que deixam de "ser homem" e se transformam em mulheres trans; há muitos homens hoje que se travestem, porque reconhecem que o gênero feminino é interessante. Ao mesmo tempo, a masculinidade e a feminilidade são padrões estéticos e de comportamento. Então há muitas mulheres que não gostam de ser mulheres também e passam a uma outra configuração de gênero. Eu acho que muitas pessoas poderiam melhorar a sua performance como seres humanos deixando de "ser homem" da forma como conhecemos. Isso, no sentido de ultrapassar essa masculinidade que está intimamente conectada com a violência na nossa cultura. E, então, para os homens cis, a meu ver, o cultivo da feminilidade é muito positivo.

E para as mulheres, ressignificar a "feminilidade"?

Exatamente. Eu acho que, nós, mulheres, devemos pensar também no lugar de feminilidade compulsória. A feminilidade, para nós, ela é uma exigência cultural que também deveria ser ultrapassada ou seja, eu não preciso ser feminina. Ao mesmo tempo, tudo isso é dialético e precisaria ser melhor elaborado em termos sociais. Há mulheres que praticam também violências machistas e todas nós podemos ser vitimadas por isso a qualquer momento. Nós [mulheres] podemos também ter discursos machistas muitas vezes sem querer. É preciso ter essa autorreflexão. É preciso que as pessoas olhem para o feminismo não apenas em nível político, mas também que esse feminismo seja tratado em nível ético, ou seja, da produção de si, do reconhecimento de si, da autocrítica, da autoanálise. E para os homens é absolutamente fundamental que isso seja feito, justamente para que eles possam ir além da violência com a qual têm se conectado.

Como iniciar essa "autorreflexão"?

Eu sugiro que a estupidez machista seja superada e acho que o feminismo pode praticar essa ajuda humanitária (eu estou falando no sentido irônico, claro, mas eu acho que nós precisamos nos preocupar com isso). Não podemos tratar os machistas como sendo os mais fortes que nós. Eles são o sexo frágil que construiram uma história de textos patéticos e pérfidos contra as mulheres, carregados de covardia, práticas políticas e instituicionais cheias de covardia e nós precisamos alterar isso.

Eles podem fazer parte, então, do que você chama de "feminismo em comum"?

Sim. Nós deveríamos pensar o feminismo não só, portanto, como um movimento que é contrário aos homens. Nós devemos expandir o feminismo como uma ético-política universal que, ao contrário do machismo, inclui os homens. Os machismos nunca incluiram as mulheres. Vamos pensar que o feminismo pode ser uma ético-política que inclui os homens, mas que não inclui aquilo que foi a violência, que transformasse essa violência masculinista, machista-pariarcal, que transformasse esse estado de coisas em um estado de justiça, de igualdade, de equiparação, de direito à singularidade. Nós, a meu ver, se praticarmos um feminismo que se coloca sempre na condição de contraposto à sociedade patriarcal, nós corremos o risco de transformar essa sociedade patriarcal em um abstrato e de transformar o feminismo em um sectarismo. Então, a meu ver, o feminismo tem que ser para todos. Ele pode melhorar a vida de todas as pessoas e, inclusive ajudar aos homens para que eles tenham outra forma de subjetivação.

Feminismo em Comum - Para todas, todes e todos

Autora: Márcia Tiburi

Editora: Record, pelo selo Rosa dos Tempos

Preço: R$ 19,90

Páginas: 126