ENTRETENIMENTO
29/01/2018 13:50 -02 | Atualizado 29/01/2018 14:04 -02

'The Tale', um retrato visionário do abuso sexual na infância, é o 1º grande filme de 2018

Drama autobiográfico da escritora-diretora Jennifer Fox conta a complexa história de estupro, poder e lembranças distorcidas

Courtesy of Sundance Institute

O filme The Tale foi uma das grandes sensações do Festival de Sundance 2018, que ocorreu entre os dias 18 e 28 de janeiro. Protagonizado pela atriz Laura Dern (Big Little Lies), o longa conta a história de uma professora e documentarista que começa a recordar traumas desencadeados por conta de um abuso sexual sofrido aos 13 anos.

Apesar de não ter levado nenhum prêmio no festival, que por vezes serve de trampolim para outras premiações de Hollywood, The Tale teve os direitos de distribuição comprados pela HBO. O filme deve ser lançado ainda este ano, juntamente com um documentário sobre abuso sexual, tema central do longa.

Atenção: Este texto contém spoilers.

Numa manhã de sábado, Jane Fonda, Gloria Allred e Tessa Thompson lideraram protestos evangelizadores em nome dos direitos das mulheres no evento Respect Rally, sob forte nevasca, durante o Festival de Sundance. Cerca de uma hora depois, The Tale (ainda sem previsão de lançamento no Brasil), um provocativo filme de Laura Dern sobre a dinâmica do poder sexual, foi ovacionado em sua estreia. Após três dias de festival, é de longe a grande joia ― uma cápsula articulada e absorvente que ressalta a dinâmica que se desenrola em meio ao movimento #EuTambém.

Muito será dito sobre The Tale ter chegado na hora certa, uma dramatização de um caso amoroso durante a adolescência da escritora-diretora Jennifer Fox com um casal de treinadores atléticos adultos que proporcionaram um ostensivo paraíso distante de sua vida familiar desanimadora. O mesmo pode ser dito de sua execução. Fox explora sua experiência como documentarista (produziu o aclamado Beirut: The Last Home Movie e An American Love Story, entre outros) para forjar um dispositivo de enquadramento que trata memórias -- aquelas relíquias que guardamos com tanto carinho -- como fontes pouco confiáveis. Empregada para descrever décadas de abusyouo sexual, a tática interroga as maneiras pelas quais uma sobrevivente pode convencer-se de que o que passou foi algo incentivado por ela, ou pelo menos algo que aceitou como um reforço emocional autêntico.

Laura Dern interpreta Fox, mais conhecida como Jenny, uma jornalista mochileira que se sente confortável camuflando-se em ambientes desconhecidos para capturar vidas nem sempre glorificadas. Sua saga começa para valer quando sua mãe, interpretada por Ellen Burstyn, descobre um conto escrito por Jenny quando esta tinha 13 anos. "Gostaria de começar esta história contando a vocês algo muito bonito", diz o texto. Mas, o que se segue, em retrospectiva, não tem nada de bonito.

O relato de Jenny conta o que começou como uma exuberante autodescoberta: encontrou refúgio na instrutora de equitação, chamada Sra. G (Elizabeth Debicki) e num famoso treinador de corrida chamado Bill (Jason Ritter).

Juntos, a Sra. G e Bill treinaram adolescentes no verdejante interior da Virgínia. Mas monitoravam muito mais do que as atividades recreativas de Jenny ao ar livre; fizeram dela sua amante, tirando sua virgindade e persuadindo-a com palavras doces juvenis.

"Eu quero te proteger de todos os garotos estúpidos que circulam por aí", Bill murmura enquanto os grandes e inexperientes olhos de Jenny fixam-se nele, finalmente encontrando a atenção negada por seus pais distantes.

The Tale é um livro de memórias na telona, do tipo que provavelmente despertará debates tanto sobre o conteúdo quanto escolhas estilísticas. Na minha opinião, é deslumbrante. As formas pelas quais Jenny, de 48 anos, romantizou suas impressões de Bill e da Sra. G -- sempre o considerou seu primeiro namorado -- são reveladas em fragmentos, passado e presente, fundindo-se para demonstrar suas distorcidas lembranças. Sob o risco de uma hipérbole, nunca vi um filme como este. Fox desafia as limitações da narrativa cinematográfica, apresentando as cruas lembranças de Jenny como fato e depois corrigindo-as com uma sutileza delicada e psicologicamente habilidosa. A Jenny adulta e a Jenny de 13 anos (interpretada por Isabelle Nélisse) às vezes quebram a quarta parede, conversando entre si para trocar lembranças contraditórias. Bill estava estuprando Jenny?

Ela acha que não, até que investiga mais a fundo, rastreando seus antigos mentores para melhor entender o que aconteceu com ela. As cenas deslizam uma após a outra, com o conto de Jenny -- recitado por Dern em uma narração fragmentada -- ancorando a exploração de Fox. Uma cineasta introduzindo tantos metaconceitos é uma aposta arriscada, e neste caso valeu a pena sem sombra de dúvidas.

Mas uma fala no conto de Jenny é a mais impressionante de todas, cristalizando o poder do #EuTamb[em, que procura corrigir o que era lugar-comum nos anos 70: 'Vejo que confio tanto nele que nunca entendo onde está me levando. Quando já fomos muito longe, nunca sei como dizer não'.

Alguns podem protestar contra a representação de Bill transando com a jovem Jenny, mas o filme nunca explora sua apresentação. O momento é filmado em sua maior parte de perto, para telegrafar emoções em vez de sensualidade. Os créditos no fim do filme revelam que o corpo de uma mulher adulta foi dublê de Nélisse durante as cenas de sexo com Ritter e, durante a sessão de perguntas e respostas depois da estreia, Fox usou comandos verbais para que Nélisse, com 11 anos na época da filmagem, não tivesse que fingir o coito durante os closes ("Finja que você está sendo picada por uma abelha", por exemplo). Ou seja, essas cenas -- difíceis de assistir, mas essenciais -- ressaltam o desejo de Fox de delinear a maneira pela qual a diretora "construiu uma história para sobreviver".

Jenny não é nenhuma Lolita, cujo trauma é filtrado principalmente através das lentes de seu agressor.

Ao longo do filme, a Jenny adulta, tentando justificar seu passado, diz: "Mas eram os anos 70". Ninguém falou sobre agressão sexual ou conflitos de poder com a importância que o debate assume hoje. Mas uma fala do conto de Jenny é a mais impressionante de todas, cristalizando o poder do #EuTambém, que procura corrigir o que era lugar-comum nos anos 70: "Vejo que confio tanto nele que nunca entendo onde está me levando. Quando já fomos muito longe, nunca sei como dizer não".

O comportamento de Bill é do tipo extremista encontrado em livros didáticos, mas a ingenuidade e apetite por carinho de Jenny nublam seu discernimento. Vemos aquele desdobramento com uma sofisticação que se estende além de uma hashtag ou de um movimento social que chama a atenção. Esta é a história pessoal de uma mulher, divorciada das armadilhas de quaisquer tópicos de debate. (Inevitavelmente, prepare-se para uma tempestade de artigos analíticos.)

Fox disse durante a conversa após a estreia que Dern aceitou o papel em The Tale um ano e meio antes do filme ser financiado -- um movimento pró-ativo que sinaliza sua dedicação à história. Valeu a pena. O filme é catártico e raivoso, mas não faz sermão. É o trabalho de uma artista que passou a vida buscando a verdade e aprendendo com o passado. É uma meditação digna dos maiores elogios. Mais significativamente, é um bálsamo.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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