LGBT
26/01/2018 13:40 -02 | Atualizado 27/01/2018 22:13 -02

Como Ellen DeGeneres abriu caminho para LGBTs na televisão norte-americana

Uma das apresentadoras mais incríveis da televisão norte-americana completa 60 anos hoje. ✨

Ellen DeGeneres: "Eu decidi que isso não era algo do qual eu teria vergonha a minha vida inteira".
Vera Anderson via Getty Images
Ellen DeGeneres: "Eu decidi que isso não era algo do qual eu teria vergonha a minha vida inteira".
Sim, sou gay.

Foi há quase 21 anos que a atriz e apresentadora Ellen DeGeneres estampou a capa da revista Time com a frase acima. Aos 39 anos, ela foi uma das primeiras mulheres que escolheu ser vista e resistir, em um mundo que, de forma violenta e radical, insiste em dizer que ela não tem esse direito. À época, ela disse: "Eu fiz isso pela minha própria verdade". Hoje, data em que ela completa 60 anos, Ellen já foi até condecorada por Barack Obama e é considerada um símbolo de força para a comunidade LGBT.

Reprodução
"Sim, sou gay": Ellen Degeneres estampa capa da revista Time em 1997.

Em determinado momento de sua entrevista à Time, em 1997, o repórter pergunta a ela: "Por que agora?". Ellen responde: "Eu não acho que eu poderia ter feito isso antes. Não acho que as pessoas aceitariam tão prontamente quanto agora. Nesse momento eu me sinto confortável comigo mesma, e não tenho que ter medo de algo prejudicando minha carreira. Agora estou no controle disso. Ninguém pode me machucar agora."

Confiante e sem medo do que poderia acontecer, semanas após a repercussão gigantesca da capa da Time, Ellen falou sobre o assunto em entrevista à Oprah Winfrey, ao lado de sua namorada na época, a atriz Anne Heche. "Eu decidi que isso não era algo do qual eu teria vergonha a minha vida inteira", disse. "Eu esperava ser atacada. Eu esperei tudo isso. E esse foi o meu medo por muito tempo, de perder tudo, minha casa e minha carreira", continua.

Ellen tinha se tornado conhecida pelo sitcom homônimo de sucesso da ABC, em que ela era protagonista. Após as entrevistas à Time e Oprah, foi no episódio The Puppy, que Ellen Morgan (interpretada por DeGeneres) impactou mais de 44 milhões de pessoas ao pronunciar a mesma frase da capa da Time, em um diálogo com a atriz Laura Dern:

"Isso é tão difícil, mas eu acho que eu percebi que eu sou... Eu não consigo nem dizer a palavra. Por que eu não consigo dizer essa palavra? Por que eu não consigo simplesmente dizer... O que está errado? Por que eu preciso ter tanta vergonha? Por que eu não consigo simplesmente dizer a verdade e ser quem eu sou? Eu tenho 35 anos de idade e tenho tanto medo de contar às pessoas. Susan... Eu sou gay."

Assista ao vídeo:

A declaração de DeGeneres poderia ter sido vista como um grito de liberdade, mas parte das milhares de pessoas que assistiram ao show não encararam assim. Segundo a Vanity Fair, nas semanas seguintes à veiculação do episódio, a ABC recebeu uma série de reclamações, incluindo um abaixo assinado, afirmando que o episódio havia sido "uma tentativa ruidosa de promover a homossexualidade".

A revista também destaca que a equipe de produção do seriado recebeu ameaças de morte, mensagens de ódio à Ellen e Oprah e algumas produtoras chegaram a recusar trabalho para Laura Dern em Hollywood. Ela interpretava Susan, par romântico de Ellen na série.

Reprodução/ABC/Photofest
Episódio da série 'Ellen' foi ao ar em 30 de abril de 1997, pela ABC.

Devido à repercussão negativa, pouco mais de um ano depois a série foi cancelada. Mark Driscoll, produtor-executivo, lembra a Vanity Fair, disse claramente à época que o programa perdeu audiência por ser uma série que conta a história de uma "mulher que é lésbica e não tem vergonha disso, diferente de ser sobre uma mulher que, 'por acaso' se descobre homossexual".

Em 2017, quando a exibição deste capítulo específico da série completou 20 anos, Ellen disse, na abertura de seu talk show que esta situação "foi a coisa mais difícil que já aconteceu na minha vida", mas que "não mudaria nada, porque isso me trouxe até aqui, o que é uma alegria". Ela continua: "E o fato de vocês estarem aqui [na plateia] e me também estarem dispostos a me receber na casa de vocês todos os dias, quando ninguém pensou que isso nunca mais iria acontecer, significa muito para mim".

Lucy Nicholson / Reuters
Em 2016, a então candidata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, foi entrevistada por Ellen DeGeneres.

Desde então, Ellen foi protagonista de outro seriado chamado The Ellen Show, que foi veiculado entre 2001 e 2002 e, finalmente, em 2003 ganhou seu próprio talk show - que está no ar até hoje e é um dos programas que traz recordes de audiência na televisão norte-americana: The Ellen DeGeneres Show.

Em seu programa, além de receber celebridades entrevistá-los de forma irreverente, ela levanta discussões sobre temas caros à sociedade como: bullying, aquecimento global, direitos das mulheres e direitos LGBT.

Além dessa conquista, ela já apresentou uma cerimônia do Oscar (como esquecer a famosa sefie?), dublou pesonagens de sucesso como Dory, em Procurando Nemo, casou-se com Portia de Rossi e ganhou a Medalha da Liberdade, entregue por ninguém menos que Barack Obama.

Christopher Polk via Getty Images
Ellen DeGeneres ao lado de sua esposta, a atriz Portia De Rossi.

Um artigo da Hollywood Reporter aponta que vida de Ellen realmente mudou após o The Puppy. Cerca de 21 anos depois, ele continua sendo relevante na história da televisão norte-americana. Em 2017 ele pode não produzir as mesmas reações do passado, mas "DeGeneres sempre confrontou os padrões estabelecidos da maneira mais calorosa e menos agressiva possível". É um episódio que é igualmente sobre a aceitação tanto da Ellen atriz, quanto da personagem -- por si mesma, pelos telespectadores, pelos colegas de elenco, pela "instituição" televisão, finaliza o artigo.

Uma inspiração e tanto.

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