MULHERES
24/01/2018 19:42 -02 | Atualizado 26/01/2018 10:50 -02

Você pode não ser um Harvey Weinstein, mas talvez seja um Aziz Ansari

O que significa, porém, é que há muitos homens aí fora lendo o relato de Grace e ficando assustados.

"Harvey Weinstein é uma anomalia, ou pelo menos uma relativa raridade. Aziz Ansari, não."
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"Harvey Weinstein é uma anomalia, ou pelo menos uma relativa raridade. Aziz Ansari, não."

A esta altura você já deve saber sobre o texto controverso e polêmico publicado semana passada no site norte-americano Babe em que Grace (não é o nome real dela) descreve uma noitada com o comediante Aziz Ansari. O texto não foi bem recebido. A The Atlantic o descreveu como "pornografia de vingança". Bari Weiss do New York Times, articulista que constante e, ao que parece, intencionalmente interpreta erroneamente a maioria dos esforços movidos por mulheres na era de Trump, considerou que a carta indica uma falta de livre arbítrio feminino. Em suma, muitas mulheres brancas, escrevendo em publicações de prestígio, andam expressando muita da angústia que venho ouvindo ser expressa por homens em círculos menos prestigiosos e públicos. Isso não quer dizer que essas autoras estejam protegendo os homens, nem nada do tipo. O que significa, porém, é que há muitos homens aí fora lendo o relato de Grace e ficando assustados.

É muito fácil olhar para Harvey Weinstein e fazer um julgamento moral. O homem era um executivo altamente poderoso, em condições de projetar ou acabar com carreiras de outras pessoas. Ele é acusado de ter forçado ou tentado forçar dezenas ou literalmente centenas de mulheres a fazer sexo com ele. Ele é, francamente, nada atraente. Em suma, ele se encaixa no perfil do estuprador em série. Podemos olhar o comportamento dele e ver que corresponde ao que sabemos coletivamente sobre estupro. Não existe qualquer vestígio de consentimento em lugar algum. Outros homens podem examinar seu próprio comportamento e tranquilizar-se, pensando "eu nunca me masturbei e ejaculei num vaso de plantas". Eles não são Harvey Weinstein.

Mas o caso de Aziz Ansari é mais complicado, porque é menos nítido e claro. Não há centenas de mulheres vindo a público. Não há comportamento sexual bizarro, apenas práticas relativamente comuns. A mulher que o critica nem sequer tem uma identidade clara que possamos usar para nos compararmos com ela. (Isso não significa que eu não acredite em seu relato, apenas que o anonimato frequentemente suscita descrença pública, como aconteceu com o artigo "A Rape on Campus" [Um estupro no campus] publicado pela Rolling Stone.) Os homens leem o relato de Grace e começam a entrar em pânico. Eles já fizeram coisas assim – fizeram sexo sem comunicação com a parceira, saíram com alguém e viram a noite terminar em lágrimas. Isso quer dizer que também eles vão perder seus empregos e o respeito público do qual desfrutam? Se isso pode acontecer com Aziz Ansari, um comediante que se declara feminista, será que não pode acontecer com qualquer um?

É claro que essa última pergunta é profundamente irônica, na medida em que reflete o senso comum ("isso pode acontecer com qualquer um") usado pelas pessoas que combatem o estupro para descrever a realidade da experiência feminina cotidiana. O suor frio dos homens imaginando que a qualquer momento uma parceira sexual futura ou passada possa acusá-los de ter ido longe demais é apenas uma fração ínfima do pânico sufocante sentido por mulheres fazendo coisas de seu cotidiano, como andar na rua ou no metrô.

Mas esse pânico assumiu a forma de indignação e definição de limites intransponíveis. "O movimento #MeToo foi longe demais", estão declarando muitos homens e algumas mulheres na internet, dando socos numa mesa imaginária. Eles dizem que o que constitui abuso sexual está sendo multiplicado de tal maneira que hoje basta um homem lançar um olhar de soslaio para correr o risco de ser exposto ao opróbrio público. Dizem que estão pedindo aos homens para que se tornem videntes, para que adivinhem o que está na cabeça das mulheres, que simplesmente não falam com franqueza. Como querem que a gente saiba o que elas estão pensando? E não apenas o que elas dizem que estão pensando, mas o que estão pensando de verdade? Eles indagam, como faz Bari Weiss, por que devemos criminalizar "o sexo desajeitado, tosco e feito sem consideração pela parceira". Refletem: "E se simplesmente pedíssemos às mulheres que se defendessem mais, que afirmassem o que querem? Isso resolveria muitos problemas."

Harvey Weinstein é uma anomalia, ou pelo menos uma relativa raridade. Aziz Ansari, não. Quando Weiss inclui no início de seu artigo, como se fosse sem importância maior, a frase "parece que eu sou vítima de agressão sexual", ela tem um peso que é provável que poucos leitores captem. Significa que, sim, a epidemia de violência sexual de fato é tão ampla e onipresente quanto andamos dizendo, porque a violência sexual não envolve apenas atos brutais e violentos de estupro. Significa que, não, não é fácil uma mulher afirmar seu livre arbítrio sexual abertamente, como fazem os homens, sem ser rotulada de vagabunda ou puta. Significa que, sim, os homens são cúmplices desse sistema de diversas maneiras e em diferentes lugares dentro da hierarquia de abuso.

A verdade triste é que Grace, seja ela quem for, não quis que um encontro sexual que para a maioria dos homens parece ter sido desagradável acabasse sendo tão profundamente perturbador para ela. Outra mulher talvez ficasse incomodada, mas não afetada no longo prazo. Mas não é assim que traumas funcionam. Não escolhemos quando e como eles nos afetam ou sob quais circunstâncias nos atingem. Quando congelamos, quando não conseguimos colocar nossas emoções em palavras, quando não conseguimos habitar nosso corpo plenamente, não é porque escolhemos conscientemente fazê-lo. É porque revertemos a algum instinto primitivo de autoproteção.

Aziz Ansari não será punido por isso. Talvez ele faça parte das multidões de homens – como Dustin Hoffman, Gary Oldman, Johnny Depp – que foram tachados de abusivos e seguiram adiante com suas vidas como se nada tivesse acontecido. Mas nossa sociedade não vai mudar, e um movimento como o #MeToo não deixará de ser necessário, a não ser que os Aziz Ansaris do mundo reconheçam que também eles precisam examinar seu próprio comportamento e, por mais que isso seja incômodo, modificá-lo.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.