POLÍTICA
24/01/2018 12:24 -02 | Atualizado 24/01/2018 12:24 -02

Monteiro Lobato, Dostoiévski e a literatura no julgamento de Lula

"O verdadeiro soberano, ao qual tudo é permitido, (...) aniquila meio milhão de soldados”, diz livro citado por procurador.

Em julgamento de recurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso do triplex do Guarujá (SP), escritores Monteiro Lobato e Fiódor Dostoiévski são citados.
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Em julgamento de recurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso do triplex do Guarujá (SP), escritores Monteiro Lobato e Fiódor Dostoiévski são citados.

Além dos juízes, advogados e do procurador do Ministério Público Federal, o julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta quarta-feira (24), contou com presenças literárias, pelo menos em citações. Foram lembrados os escritores Monteiro Lobato e o russo Fiódor Dostoiévski, autor do livro Crime e Castigo.

A 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), em Porto Alegre (RS), começou às 8h30 desta quarta a análise do recurso contra a decisão do juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara de Curitiba, responsável pelos processos da Operação Lava Jato na primeira instância da Justiça Federal.

Lula foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá (SP). O Ministério Público Federal acusa o ex-presidente de ter recebido R$ 3,7 milhões de propina da OAS. O petista nega a acusação.

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Apoiadores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanham julgamento de recurso no TRF-4.

Após o relator, o desembargador João Pedro Gebran Neto, fazer a leitura do relatório que resume o caso, o procurador Maurício Gerum terminou sua fala com uma passagem do livro de Dostoiévski. A obra conta a história de um estudante que comete um assassinato é condenado e preso, mas tem a pena reduzida por bons antecedentes e por se arrepender do crime.

"O verdadeiro soberano, ao qual tudo é permitido, bombardeia Toulon, assola Paris, esquece o seu exército no Egito, aniquila meio milhão de soldados na retirada de Moscou e livra-se de dificuldades com um trocadilho em Vilna; e, no entanto, depois de morto constroem-se altares para ele, e assim tudo é permitido. Não, esses seres, pelo visto, não são feitos de carne e osso, mas de bronze", escreveu o autor russo.

Gerum, que pediu o aumento da pena de Lula, completou o escritor.

Em uma República todos os homens são de carne.

Monteiro Lobato e a Petrobras

Já o advogado que representa a Petrobras, René Dotti, lembrou de Monteiro Lobato ao falar da história da estatal. Ele citou o autor ao lembrar da campanha "O petróleo é nosso" e dizer que o escritor defendeu a criação da companhia. Dotti critou o esquema de corrupção na estatal e disse que ela sofre um "atentado contra o patrimônio".

A frase "O petróleo é nosso!" foi dita pelo então presidente Getúlio Vargas e se tornou lema da Campanha do Petróleo, que levou à criação da petrolífera.

Em 1936, Monteiro Lobato lançou O Escândalo do Petróleo, em que acusa o governo de "não perfurar e não deixar que se perfure" os poços brasileiros. A obra foi censurada por Vargas no ano seguinte, quando o escritor lançou O Poço do Visconde, também sobre a presença do óleo em território nacional.

Homens da História

Além de todos presentes na tribuna serem homens, as citações lembradas também deixaram as mulheres de fora. Foram citados ainda Getúlio Vargas, padre Antonio Vieira, Tiradentes e o filósofo Aristóteles.

Já a atuação do ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill, líder britânico na Segunda Guerra Mundial, foi comparada ao combate à corrupção no Brasil pelo advogado da Petrobras.

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