ENTRETENIMENTO
24/01/2018 13:42 -02 | Atualizado 24/01/2018 15:42 -02

A influência do drama de 'Meu Guri' na arte de Sabotage

"Aquilo era o meu retrato no morro...."

Há 10 anos, o Brasil perdia de forma brutal um de seus artistas mais promissores.
Montagem/Reprodução/Instagram/Facebook
Há 10 anos, o Brasil perdia de forma brutal um de seus artistas mais promissores.

Na manhã de 24 de janeiro de 2003, Mauro Mateus dos Santos foi assassinado a tiros no bairro Bosque da Saúde, na zona sul de São Paulo, depois de deixar a mulher, a auxiliar de cozinha Maria Dalva, no trabalho. Ele tinha 29 anos.

Há quinze anos, a música brasileira perdeu um de seus artistas mais promissores: Sabotage.

Ex-assaltante e gerente do tráfico, o rapper encontrou a redenção na arte. Sabotage integrou o grupo RZO (o mesmo de Negra Li) e, em 2001, lançou seu primeiro e único álbum de estúdio, o hoje clássico Rap é Compromisso.

As rimas, as misturas de ritmos e as letras que compõem o trabalho são reverenciadas e encontram eco no trabalho de expoentes do gênero no Brasil - de Mano Brown a Emicida, passando por Marcelo D2, Don L e Rashid.

Em diferentes em entrevistas que deu durante a breve e intensa trajetória, Sabotage afirmou que sua carreira musical teve início ainda na infância, quando começou a prestar atenção em canções brasileiras.

Aos 8 anos, ele ouvia Pixinguinha, Cassiano e Aracy de Almeida. Anos mais tarde passou para registros de Afrika Bambaataa, Barry White e Wu-Tang Clan.

No entanto, o ponto inicial (e crucial) da trajetória do rapper na música está concentrado em apenas uma figura da música nacional: Chico Buarque.

Dias antes de morrer, Sabotage concedeu o que seria sua última entrevista ao jornalista Xico Sá, publicada em 2003 pela revista Trip. Nela, o rapper paulistano revelou que Meu Guri foi a primeira e mais marcante canção que havia ouvido.

A força dessa música na vida de Sabotage tinha uma justificativa:

"Quando ouvia 'O Meu Guri' [de Chico Buarque], aquilo era o meu retrato no morro. Porque eu era vendedor de droga. E, quando vinha a polícia, corria para dentro do morro, guardava os bagulhos em tal lugar, a arma em outro, trocava de roupa e ia para dentro do meu barraco. Chegava lá, meu pai estava vendo televisão, e meu coração batendo na boca. Aí entravam os homens, perguntavam se ele não tinha visto nada e ele 'não, não'. Ficava olhando para mim, para os policiais, e quieto. Ele tinha medo dos caras, mas eu dizia para ele: "Você não viu nada, não vai falar nada. Se vierem aqui falar que vendo droga, você não diz nada'."

Legado continua vivo

Em 2016, um álbum póstumo, que leva o nome do rapper, foi lançado pelo Selo Instituto, dos músicos e produtores Daniel Ganjaman, Tejo Damasceno e Rica Amabis - em parceria com o Spotify.

O disco é fruto do trabalho de produtores e artistas de destaque da cena que se debruçaram sobre os rascunhos que Sabotage deixou e que seriam usados para um segundo álbum.

BNegão, Dexter, DJ Nuts, Céu, Rappin' Hood e integrantes do RZO (DJ Cia, Sandrão e Negra Li) são alguns nomes que participaram do álbum Sabotage.

Todos os artistas envolvidos no projeto, hoje disponível também numa versão em vinil, abriram mão dos direitos autorais - revertidos desde então para os filhos do rapper, Tamires e Wanderson, que atualmente administram o selo Hama Music Company.

Você pode ouvir o álbum no player abaixo:

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