POLÍTICA
23/01/2018 17:38 -02 | Atualizado 23/01/2018 17:38 -02

Gaúchos contrários a Lula dão como certa a condenação

"A prisão é o certo. Porém, infelizmente, sabemos que a Justiça nem sempre é justa."

Movimentos como MBL e Vem Pra Rua pedem a confirmação da condenação do ex-presidente.
Paulo Whitaker / Reuters
Movimentos como MBL e Vem Pra Rua pedem a confirmação da condenação do ex-presidente.

Grupos contrários ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dão como certa a manutenção, na quarta-feira (24), da decisão do juiz Sérgio Moro e já planejam a comemoração pela confirmação da condenação do petista. Um evento criado pelo MBL (Movimento Brasil Livre), por exemplo, convoca a população ao CarnaLula, um "verdadeiro pré-carnaval", em referência ao "início da libertação do Brasil", conforme a descrição.

O sentimento é compartilhado pelo movimento Vem Pra Rua. A coordenadora do grupo no Rio Grande do Sul, Iria Cabreira, explica que o movimento, junto a outros do mesmo tipo, tornou palpável um sentimento que, até então, restava solitário na mente de cada pessoa descontente com a gestão petista. "Faremos eventos até por cobrança das pessoas, que querem um canal fora da internet para se comunicar e dizer o que pensam", destaca.

O Vem Pra Rua marcou atos pela prisão de Lula para esta terça-feira (23), em diferentes locais do Brasil. Em Porto Alegre será no Parcão, bairro Moinhos de Vento, zona nobre da cidade, onde já se tornaram tradicionais os protestos contrários ao PT.

Na opinião de Iria, as caravanas que rumam à capital gaúcha para prestar solidariedade ao ex-presidente não nascem de um movimento espontâneo, de pessoas que viajam por conta própria. "São ônibus fretados, caravanas organizadas, com oferta de hospedagem e, como já ouvimos em outras vezes, pagamento de cachê para as pessoas estarem lá", critica.

Para a coordenadora, a falta de espontaneidade se traduz, por exemplo, no fato de os participantes dos eventos organizados pelo Partido dos Trabalhadores e aliados, como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e a CUT (Central Única dos Trabalhadores), usarem camisetas iguais, padronizadas. "E também porque não tem lógica apoiar o Lula, diante de tanta coisa que estamos vendo", condena.

Sobre o forte esquema de segurança montado pelo governo do Rio Grande do Sul nos entornos do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), onde o julgamento vai acontecer, Iria acredita que a medida é até leve.

"Já vimos quebrarem o Congresso, queimarem carros. Não foi algo que saiu da cabeça de alguém, já aconteceu muitas vezes e não será a última em que podem ocorrer barbáries. No fim, sempre quem paga por isso é a população", acrescenta.

A coordenadora estadual do Vem Pra Rua está convicta da condenação de Lula em segunda instância, o que acha justo. "Segue a tendência de um processo que passou por todos os trâmites legais e que tem como réu uma pessoa que não é humilde e sem condições de defesa", avalia. Trata-se, segundo Iria, de uma maneira de mostrar que ninguém está acima da lei – nem mesmo um ex-presidente.

NurPhoto via Getty Images
Desde o fim do ano passado, manifestações contrárias (e também favoráveis) ao ex-presidente se intensificaram.

Entorno do TRF-4 sofrerá impacto com bloqueios

Uma grande área em torno do TRF-4, que abarca um parque, prédios públicos e estabelecimentos privados, permanecerá interditada para a circulação de pessoas não autorizadas da tarde desta terça-feira (23) até a total dispersão dos manifestantes, na quarta ou na quinta-feira. Os locais ficarão sem expediente. Uma tradicional churrascaria foi obrigada a fechar as portas nesse período. Dezoito linhas de ônibus terão seus itinerários alterados na quarta-feira. Não tem jeito – mesmo quem não quiser, terá que pensar no julgamento do ex-presidente se estiver em Porto Alegre.

O taxista Paulo Roberto Venes Proença, 55 anos, costuma parar seu carro em um ponto quase em frente ao TRF-4. Preferiria que os bloqueios não acontecessem – acha, inclusive, que a forte vigilância nos entornos do tribunal é "muito estardalhaço para pouca coisa". Para ele, o julgamento foi divulgado em demasia e, por isso, se criou um movimento de apoio que não influenciará na decisão. "Os juízes já decidiram, não adianta", observa. Proença projeta que Lula será condenado mais uma vez, mas que seus advogados entrarão com novos recursos.

Quando ocorrem aglomerações, o taxista acha que as "pessoas de bem" se afastam, por medo. Outra coisa que lhe incomoda é o excesso de aparições de representantes do Judiciário na imprensa. "Se aparecessem menos, representariam mais a imparcialidade que lhes cabe. As manifestações dos juízes parecem mais políticas do que jurídicas, não têm seriedade", argumenta.

A dona de casa Reci Batista, 53 anos, decidiu resolver o que precisava na Justiça Federal na semana passada para não precisar passar pelo tumulto das manifestações. "Não é o povo que tem que fazer algo contra ou a favor da condenação. A Justiça é para isso. Todo mundo sai prejudicado com esse tumulto, porque muita gente nesses protestos apela para a violência", comenta. Quem sai pior na situação, segundo Reci, é o trabalhador, que não tem nada a ver com aquilo.

Sobre o julgamento, a dona de casa espera que a justiça seja feita – o que, na sua opinião, significa que Lula deveria ser preso. "É o certo. Porém, infelizmente, sabemos que a Justiça nem sempre é justa", lamenta.

Isabella Sander
Dono de uma venda de cachorro quente, João Francisco de Carvalho vai fechar o ponto no dia do julgamento: "Não vou ficar aqui trabalhando, porque vai dar muita destruição. Estou há 20 anos neste ponto e sei que, quando o MST vem, dá bagunça".

João Francisco de Carvalho, 52 anos, tem um ponto de venda de cachorro quente, dentro de uma van, em frente à Justiça Federal. Mesmo se tiver autorização para funcionar no dia do julgamento, não abrirá. "Não vou ficar aqui trabalhando, porque vai dar muita destruição. Estou há 20 anos neste ponto e sei que, quando o MST vem, dá bagunça", reclama.

Carvalho gostaria que não houvesse protestos, mas prefere não se envolver. "Pra que me incomodar? Podem quebrar algum vidro meu, que será muito mais caro de repor do que se eu não funcionar por um dia", calcula. Além disso, considera que as manifestações populares não geram resultados, já que "política não tem solução, porque todo mundo rouba".