POLÍTICA
20/01/2018 08:00 -02 | Atualizado 20/01/2018 08:00 -02

Não sou contra o flerte, mas o assédio é opressor, diz Valéria Monteiro

Em vídeo, Valéria Monteiro comparou Bolsonaro a Hitler. “Em 28 anos de congressista, não aprovou nenhuma proposta de segurança e ética, suas bandeiras."

Ex-apresentadora do Fantástico, Valéria Monteiro quer disputar a Presidência da República pelo PMN.
Divulgação/Fernando Petermann
Ex-apresentadora do Fantástico, Valéria Monteiro quer disputar a Presidência da República pelo PMN.

Primeira mulher a ocupar a bancada do Jornal Nacional e ex-apresentadora do Fantástico, Valéria Monteiro, pré-candidata à Presidência da República, é a favor da descriminalização do aborto e de propostas para reduzir a desigualdade no País.

"Acredito que tenhamos que repensar como fazer com que as mulheres se sintam mais fortes e parte da sociedade, do mercado de trabalho, que elas não se sintam alijadas da sociedade ao querer cumprir com seus anseios de família e de mulher", afirmou em entrevista ao HuffPost Brasil.

A presidenciável defende que as mulheres possam ficar com os filhos de dois a três anos antes de voltar ao mercado de trabalho e acredita que a diferença entre assédio e cantada é clara. "Sempre há uma resposta. Ou é no olhar, ou numa palavra. O não é não", afirmou.

Neste mês, a jornalista têm postado vídeos nas redes sociais em que provoca os opositores. Em uma das publicações, ela pede que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desista da candidatura diante de seus processos na Justiça.

Em outro vídeo, compara deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) a Hitler. Ao HuffPost, Valéria Monteiro criticou a atuação do presidenciável. "As principais plataformas do Bolsonaro são segurança e ética e ele, em 28 anos de congressista, não aprovou nenhuma proposta que tenha relação com esses dois temas."

Após conversas com cinco partidos desde setembro, a jornalista se filiou ao PMN (Partido da Mobilização Nacional), em 12 de janeiro. O partido não conta com representação no Congresso e, em 2014, apoiou Aécio Neves (PSDB) ao Palácio do Planalto.

Leia os principais trechos da entrevista.

HuffPost Brasil: É a primeira vez que as senhora disputa um cargo eleitoral. Por que tentar logo a Presidência da República?

Valéria Monteiro: A gente está passando por um momento político no Brasil muito especial. Como uma pessoa de Jornalismo eu não conseguia mais escutar todas as mentiras, as distorções de informação que os políticos vêm nos passando para justificar o injustificável, sem fazer nada. Por isso eu decidi logo partir para uma disputa presidencial porque esse debate que eu quero participar.

Quando será lançada a candidatura?

Acabei de me filiar ao PMN e coloquei a minha pré-candidatura à disposição do partido. Ainda temos um processo a cumprir de prévias e visitas aos diretórios estaduais e isso [lançamento da candidatura] só pode ser feito na convenção do partido, que deve ser em junho.

Por que se filiar ao PMN?

Eu achei um partido simpático. Eles me receberam muito bem. Fui a reunião da estadual de São Paulo e a base do partido foi muito convidativa. Se empolgou muito com a possibilidade de eu ir para o partido e é um partido que tem no seu estatuto uma intenção de respeito à ética e acho que isso fez sentido para mim.

Dennis Romano / PMN
Valéria Monteiro se filia ao PMN para disputar Presidência da República.

As candidaturas avulsas seriam uma boa opção?

Acho que especialmente nesses momentos as candidaturas avulsas seriam uma boa opção, mas ainda acho que não vai ser para essas eleições porque teria outras repercussões na disputa de um modo geral.

O pouco tempo de televisão do PMN prejudicar a candidatura?

A televisão ainda faz parte do universo de muitas pessoas no Brasil que não têm acesso à internet, por exemplo. A gente tem um país muito grande e diverso e a televisão ainda faz diferença nesse sentido, mas com certeza fará muito menos diferença do que já fez.

A senhora já citou a redução da desigualdade social como uma das principais bandeiras de campanha. Como isso seria feito? Uma revisão dos programas sociais? Novos programas? Quais as outras bandeiras?

A gente pode adaptar todo investimento feito em programas sociais para um programa que seja mais abrangente, como a renda básica universal. A desigualdade é ampla, desde o campo de gênero, até o campo da saúde, passando pelo campo econômico. Desde o governo [de Fernando] Collor, a gente teve uma orientação única econômica neoliberal. Essa orientação aprofunda a desigualdade.

É mais importante a gente priorizar ações como um amplo acesso a tecnologia da informação, a internet para todos. Sem internet a gente não tem acesso à informação e à comunicação, que são definitivas na possibilidade das pessoas conseguirem se educar, por exemplo.

Também quando você tem tratamento de água e esgoto em todos lugares, a gente diminui a incidência de doenças automaticamente em pelo menos 20%. Eu penso em ações desse tipo. Um novo pensamento para o Brasil.

Em relação à desigualdade, um estudo divulgado em outubro mostrou que esse problema foi agravado no governo do presidente Michel Temer. Que avaliação a senhora faz do governo e das reformas?

São reformas que beneficiam um número muito pequeno de pessoas do Brasil. Não escuto ele falar de reforma tributária. A gente tem uma tributação regressiva. Quem ganha menos ou é assalariado não tem condição, muitas vezes, de pagar uma tributação que pesa muito no orçamento da família, mas não foge desse pagamento. E as corporações, as grandes empresas, os muito ricos têm formas de fazer com que essa tributação seja mais branda e aliviada. Eu não vejo o governo Temer tocar nesse assunto.

Ao mesmo tempo a gente teve uma reforma trabalhista, que por um lado era necessária, mas também favorece grandes grupos quando colocar todos empregadores no mesmo patamar. A gente tem dificuldade grande de empreender no País. A maior parte dos empreendedores não conseguem sobreviver mais do que dois, três anos. A burocracia é imensa e essas pessoas que poderiam estar empregando muita gente precisam de atenção.

Essa reforma trabalhista também colocou o grande empregador, que tem condição de ter um apoio jurídico forte, contra o trabalhador que precisa do emprego e se sente obrigado, muitas vezes, a abrir mão de demandas porque precisa daquele emprego naquele momento.

Acho que essa reforma trabalhista não foi pensada. A gente vê a rapidez com que essas reformas são elaboradas e parecem até estar prontas para atender a interesses pré-destinados.

Quanto à reforma da Previdência, me entristece a comparação com as dívidas que foram perdoadas de grandes corporações, bancos inclusive, que somam quase três vezes a dívida da Previdência até hoje.

Acho que esse governo não leva o debate até a sociedade. Tudo é feito a toque de caixa e me causa suspeita de que interesses eles pretendem preservar nesse momento pré-eleitoral ainda mais.

REUTERS
Integrante do Movimento dos Sem-Teto em greve geral contra as reformas trabalhista e da Previdência.

Sobre a segurança, como a senhora vê algumas propostas que têm sido discutidas, como aumento do acesso da população a armas, redução da maioridade penal e descriminalização de drogas?

A segurança é o que mais preocupa a população brasileira, de acordo com algumas pesquisas. Acho que a gente não soluciona o problema distribuindo armas. Eu morei nove anos nos Estados Unidos e a gente acompanha o desenrolar dessa situação onde as pessoas podem portar armas em muitos estados e eu não acho que a solução seja todo mundo estar preparado para sair por aí atirando uns nos outros.

Me faz muito mais sentido a ideia de que a diminuição da desigualdade promove um ambiente menos tenso na sociedade. É claro que a gente tem que punir criminosos. Mas se a gente for simplesmente encarcerados, a gente só vai construir presídios daqui para frente.

A descriminalização de drogas poderia ajudar nesse sentido?

Há estudos de que a descriminalização das drogas faria com que o tráfico de armas diminuísse porque normalmente o tráfico de armas vem através do tráfico de drogas. Então acredito que esse seja um debate que a sociedade brasileira tenha que fazer.

Vi uma declaração da senhora sobre promover a igualdade entre homens e mulheres. De que forma isso seria feito? Que tipo de ação a senhora tem em mente?

O problema é muito abrangente. Acredito que tenhamos que repensar como fazer com que as mulheres se sintam mais fortes e parte da sociedade, do mercado de trabalho, que elas não se sintam alijadas da sociedade ao querer cumprir com seus anseios de família e de mulher.

Quando a gente tem filhos, por exemplo, tem dificuldade de voltar ao mercado ou se sente pressionada a voltar a trabalhar depois daquele período pequeno que se pode dedicar dentro da legislação à criação do seu filho, nos primeiros meses. A gente precisa garantir que a mulher possa ficar com seu filho mais tempo, talvez dois ou três anos, de forma tranquila, a se dedicar a essa criança.

A senhora revelou ter sofrido assédio em mais de uma ocasião e nas redes sociais há comentários ofensivos como "vai lavar louça" e sobre a senhora ter posado nua na década de 1990. Como vê a discussão sobre assédio e cantada, que voltou à tona com a cerimônia do Globo de Ouro e os casos de assédio em Hollywood?

Eu tinha uma avó que falava que a vida sem flertar não tinha graça. Não sou contra o flerte. Ele realmente faz com que a vida fique mais divertida. Mas, ao mesmo tempo, o assédio é opressor. O assédio tira da vida cotidiana da mulher tempo precioso em que se poderia estar fazendo alguma coisa relevante para que se tenha que fugir de uma situação que não se teria que enfrentar. Tenho certeza de que todo mundo envolvido em casos de assédio sabe muito bem o que é assédio e o que é paquera. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Cresci numa época em que as pessoas não tinham Tinder, Facebook e a gente ia caminhar na rua, tinha os meninos que ficavam na porta da igreja, na padaria, a gente encontrava no cinema ou no barzinho e tinha um tempo em que as pessoas se olhavam para ver se havia resposta nesse olhar, nesse interesse e acho que a gente tem que entender isso.

Sempre há uma resposta. Ou é no olhar, ou numa palavra. O não é não e isso no nosso país também tem relação com o forte machismo, ligado ao patrimonialismo em que a mulher tem medo do enfrentamento com o homem porque depende do homem para conseguir um emprego, sustentar a casa.

E mesmo hoje em dia quando a casa é sustentada pela mulher, há dificuldades, muitas vezes, de essa mulher se sentir segura porque muitos homens não conseguem lidar com fato de que essa mulher é independente. Se sentem inseguros nessa situação e isso força uma atitude de depreciação da mulher dentro de casa, por parte desses homens.

Tudo isso é muito complexo e tem de ser analisado e transformado em políticas públicas que deem apoio e sustentabilidade a essa mulher que quer ser independente mas que também quer ser mulher e exercitar sua natureza.

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Atrizes e ativistas protestam no Globo de Outro contra assédio.

Conteúdos contra a violência contra a mulher e a discriminação LGBT devem ser ensinados na escola?

A escola deve, acima de tudo, preparar pessoas que estão se desenvolvendo ali ao pensamento crítico. A gente está acostumado a pensar escola de forma a doutrinar pessoas. E acho que a gente está errado nesse sentido. Tem de preparar escolas e professores a incentivar essas pessoas a estarem preparadas a pensar criticamente. Aí diante de todas os diversos assuntos que hoje ou amanhã terão de ser enfrentados elas terão capacidade de desenvolver o próprio senso crítico.

No final do ano passado, a questão do aborto voltou à tona com a PEC 181 e o caso da primeira mulher que pediu ao STF para interromper uma gestação. Como a senhora vê essa discussão?

Recentemente houve uma pesquisa que apontava que mulheres solteiras e com filhos eram as que mais sofriam com a desigualdade social. Eu sou a favor da escolha, que a mulher possa escolher fazer ou não um aborto, que eu considero sempre uma pequena tragédia pessoal, familiar.

Não acredito que uma mulher queira irresponsavelmente sair por aí ficando grávida e pensando que depois faz um aborto e resolve isso.

A maior parte das mulheres que sofrem com a proibição do aborto são de classe baixa, que estão se colocando no risco de morrerem muito mais do que mulheres que têm acesso a formas ilícitas de aborto ou a viagens para o exterior para fazer um aborto num lugar em que é permitido. Acho muito injusto a falta de possibilidade da mulher ter essa escolha.

A descriminalização seria a melhor opção então?

Na minha opinião, sim.

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Protesto em São Paulo pede descriminalização do aborto.

Quem a senhora apoiaria em um eventual segundo turno, se não chegar a essa etapa?

Acho que é possível chegar ao segundo turno. Hoje não quero falar de segundo turno em que eu não esteja envolvida.

Qual será o impacto de uma eventual condenação de Lula na disputa eleitoral?

Por isso mesmo que acho que a disputa eleitoral ainda está muito incipiente. Há institutos de pesquisa dando previsões de segundo turno que são incompreensíveis, na minha opinião. A gente tem um quadro eleitoral muito indefinido ainda. O Lula, a gente ainda não sabe o que vai acontecer com a candidatura dele.

No meu segundo vídeo a gente pede ao Lula que faça um mea culpa e que ajude no sentido de não incitar a discórdia do "nós contra eles" e inclusive se retire dessa disputa para que não haja nenhuma discussão calorosa do que seria uma fraude. Acho que ele pode contribuir com isso retirando ele mesmo a sua candidatura do páreo. Isso, na minha opinião, enfraqueceria ainda mais a candidatura Bolsonaro, que eu vejo sendo uma candidatura basicamente de protesto.

Em um vídeo publicado neste mês, a senhora defende o diálogo, mas assume um tom contundente contra Bolsonaro ao chamá-lo de mentiroso e compará-lo a Hitler. Não soa contraditório?

A nossa intenção não foi um ataque a ele. Foi uma chamada de atenção e de responsabilidade. A gente não pode fazer política dizendo que bandido bom é bandido morto, chamando todo mundo para sair por aí armado, não promovendo debates e armando a população de ódio.

As principais plataformas do Bolsonaro são segurança e ética e ele, em 28 anos de congressista, não aprovou nenhuma proposta que tenha relação com esses dois temas. O discurso dele está muito longe de tudo que ele já provou ser. Essa foi a ideia, de expor um grande perigo para uma nação combalida pelo descrédito.

REUTERS
Deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) no plenário da Câmara dos Deputados.

Por que esse discurso extremista faz sucesso?

As pessoas estão sem liderança e sem confiança no futuro. Sem confiança e crença numa possível liderança. A gente tem um Congresso que debate entre eles formas de se proteger. O próprio Rodrigo Maia disse que o Congresso não está lá para avalizar o que o povo quer. Então o que o Congresso está ali fazendo, se não é buscar soluções e a representação do povo?

Nas últimas semanas, uma série de reportagens da Folha de São Paulo têm mostrado controvérsias de Bolsonaro, como aumento patrimonial e recebimento do auxílio-moradia, mesmo com imóvel em Brasília. A senhora acredita que haverá um impacto na campanha?

Na medida em que essas coisas são expostas a gente vê já uma diminuição do apoio ao Bolsonaro. Acho que candidatura dele tende a desidratar progressivamente. Claro que posturas radicais são posturas radicais. A falta de racionalidade não promove nada de bom.

A gente precisa de estar aberto a ouvir novas propostas, novas argumentações, para que a gente possa mudar de ideia. Se a gente não está disposto a isso, a gente não está disposto a mudar de ideia e também não está disposto a melhorar e transformar a situação em que a gente se encontra. Espero que uma grande parte desses supostos eleitores do Bolsonaro possam reavaliar duas posições diante das informações que vão surgindo a respeito dele como pessoa e como profissional da política.

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