ENTRETENIMENTO
19/01/2018 15:39 -02 | Atualizado 23/01/2018 15:53 -02

Fama, ambição, homofobia: ‘O Assassinato de Gianni Versace’ examina sociedade norte-americana

Crime cometido por Andrew Cunanan é revisitado em antologia de Ryan Murphy.

Divulgação/FX

Na manhã de 15 de julho de 1997, Gianni Versace fez algo de diferente em sua rotina: o designer de moda de 50 anos decidiu ele mesmo ir a um café próximo de sua mansão em Miami Beach, em vez de enviar um de seus empregados, para comprar revistas. Na volta, ele foi assassinado a tiros por Andrew Cunanan nas escadas da entrada da mansão, a Casa Casuarina. O corpo de Versace ficou caído nos degraus do portão junto ao de uma pomba branca, também atingida pelos disparos.

Para a família e o mundo fashion, trata-se da perda de alguém amado em incidente horrível; para a sociedade, é um acontecimento midiático e cultural hoje visto como icônico.

O assassinato parece ter só reforçado no imaginário popular o quê de mítico do designer, que vestia gente como Madonna e Naomi Campbell. No entanto, como mostra a reencenação do crime na segunda temporada da série American Crime Story (FX), o artista, morto e ensanguentado, parece ser tão frágil quanto o pássaro ao lado.

A cena acontece no primeiro dos nove episódios da antologia, que traz Édgar Ramírez como Versace, Penélope Cruz como sua irmã Donatella Versace, Darren Criss como Cunanan e Ricky Martin como Antonio D'Amico, namorado do estilista por 15 anos até o assassinato.

Intitulada O Assassinato de Gianni Versace, a esperada segunda temporada de ACS promete, como mostram as duas primeiras partes exibidas para a imprensa, examinar a sociedade norte-americana usando como ponto de partida um assassinato de ampla repercussão.

"Eu realmente fui pego de surpresa por como o assassinato de Versace era apenas o topo de um iceberg, que se transforma em um road movie pela América, [com] o 'Sonho Americano', ambição e homofobia", disse o roteirista Tom Rob Smith em entrevista ao site The Ringer.

Criada pela dupla Scott Alexander & Larry Karaszewski, responsável pelos roteiros de filmes como O Povo Contra Larry Flint (1996) e Ed Wood (1994), a série se baseia, desta vez, no livro Vulgar Favors, da jornalista Maureen Orth. O livro será publicado no Brasil pela Editora Vestígio, no primeiro semestre deste ano, sob o título Favores Vulgares: O Assassinato de Gianni Versace.

Ryan Murphy, um dos líderes da atual "era de ouro" da televisão, retorna como produtor e diretor — e dificilmente não continuará com sua tradição de sucesso, consolidada com American Horror Story, Feud e Glee.

A primeira temporada de American Crime Story também abordou um acontecimento que, para quem o acompanhou nos anos 1990, dificilmente não entrou em um debate sobre ele. The People v. O. J. Simpson, exibida em 2016, dramatizou o julgamento do atleta acusado de matar duas pessoas. Elogiada com fervor pela crítica, a temporada venceu em nove das 22 categorias do Emmy nas quais foi indicada.

Divulgação/FX
Donatella Versace gostou de saber que Penélope Cruz, na imagem acima, a interpretaria na série.

Polaroide

Assim que vê o cadáver de Versace, um sujeito corre em direção a ele com uma câmera e o fotografa. Quando uma multidão toma o local, o homem põe a polaroide à venda ali mesmo na rua, anunciando ter conseguido a primeira imagem do estilista já morto.

Com uma página de revista na mão, uma mulher invade a cena do crime e passa a folha na poça de sangue. Ela volta ao lado do marido e guarda a página em um saco plástico — é o autógrafo que Versace negara a eles poucas horas atrás.

Uma aspirante a modelo desfila atrás de um repórter de TV, que cobre ao vivo o crime diante da Casa Casuarina.

Esta é a América retratada em American Crime Story.

Andrew Cunanan encerrou um ciclo de crimes ao matar Versace: antes, ele já havia tirado a vida de outros quatro homens, dos quais ele teve envolvimento sexual com pelo menos um. Ainda não se sabe quais eram as motivações do rapaz, então apenas com 27 anos — ele cometeu suicídio dando um tiro na própria cabeça menos de dez dias após atirar no estilista.

"Ele era meio que um vortex, um abismo sombrio", conta Smith, também roteirista da minissérie London Spy (BBC Two), ao Ringer. "Uma vez que ele começa a matar pessoas, ele cruza um limite e não é mais humano de uma maneira que nós entendemos."

Divulgação/FX
Em atuação elogiada, Darren Criss é Andrew Cunanan, assassino de Versace.

Na abordagem ficcional que a série faz dos acontecimentos, o assassino — e mentiroso — em série é um homossexual no armário, em intenso conflito com a própria orientação sexual.

Nos dias anteriores ao crime, ele se prostitui para conseguir algum dinheiro e coleciona recortes de revistas do mundo fashion do qual Versace faz parte. O assassino consegue chamar a atenção do designer em uma balada gay e, partir dali, o fisga para seduzi-lo e, quem sabe, se juntar a esse mundo luxuoso.

Darren Criss tem recebido elogios rasgados da crítica pelo papel. "Ele realmente foi com tudo", contou Ryan Murphy em entrevista à Variety.

"Ele estudou, se esforçou bastante. A performance dele ficou mais silenciosa e concentrada. Foi poderoso ver isso. Eu não estava interessado em apenas fazer uma história de serial killer, mas em encontrar o caminho [para mostrar] como alguém se torna um monstro."

A família do estilista afirma que, ao contrário do que a ACS sugere, Cunanan e o estilista nunca tiveram encontros românticos. E este é apenas um dos pontos nos quais os Versace têm contestado a série, alegando que falta legitimidade ao livro no qual a nova temporada se baseia.

"De todos os retratos possíveis de sua vida e seu legado, é triste e repreensível que os produtores tenham escolhido apresentar a versão distorcida e fictícia de Maureen Orth", disse a família em comunicado. Eles declararam também que não deram qualquer tipo de autorização ou se envolveram na produção.

Murphy respondeu que, apesar disso, Donatella Versace enviou flores para Penélope Cruz na cerimônia do Globo de Ouro deste ano, na qual a atriz divulgou ACS.

"Não sei se ela assistirá à série, mas se assistir, verá que tratamos ela e a família com respeito e gentileza", disse para a Variety. "Ela sabe que Penélope nunca faria qualquer coisa que represente Donatella de maneira negativa."

"Não temos pretensão de sermos autorizados", contou o produtor Brad Simpson à publicação. "A série é baseada no livro de uma jornalista incrivelmente respeitada. E também não estamos contando apenas a história de Versace. Estamos contando a história de todas as vidas que foram afetadas pelos assassinatos de Andrew Cunanan."

Para o bem ou para o mal, a história do assassinato de Gianni Versace definitivamente retornou para diante das câmeras.

O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story é exibida no Brasil pelo FX, toda quinta-feira, às 23h.

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